Todos esses prédios já foram árvore

Karen Steinman Martini
Nov 6 · 5 min read

Uma trajetória de peixes, formigas, tamanduás, jesuítas, lavadeiras e carros.

A cidade é composta por vários ciclos, vários momentos em que uma circunstância social, econômica e política determina que é de certa forma que as pessoas devem viver. A partir dessa forma construída como correta o espaço começa a mudar para possibilitar e estimular essa certa forma de viver. A gente é mais acostumado a perceber a mudança de ciclos através de grandes reformas e momentos emblemáticos.

Em cada canto de São Paulo você consegue perceber essas camadas que denunciam tudo o que ali já foi. E todos esses discursos que sucessivamente foram vencendo de o que seria o jeito certo de viver. Um dos lugares onde isso fica mais claro para mim é o Rio Tamanduateí.

Antes da colonização e da chegada dos jesuítas, e por muito tempo depois, esse Rio era o elemento central da forma de viver nesse local. Nesta época ele ainda corria solto pelo planalto, ocupando extensas áreas de várzea. Após os momentos de cheia se criavam uma série de poças nas quais os peixes ficavam encalhados, se debatendo no sol até morrer. É deste fenômeno, os peixes secos margeando o rio — uma oferta abundante e fácil de alimento- o responsável pelo primeiro nome dessa cidade, São Paulo do Piratininga (do tupi “peixe seco”). O rio era essencial para a sobrevivência das tribos. Ele ainda era importante para a locomoção, como forma de chegada ao litoral, e para a recreação e o encontro. O rio fazia as vezes de muralha de segurança à aldeia, especialmente no período de cheia, quando transformava a região em uma península. O fato deste rio ser tão central para a vida nessa região e os diferentes papéis que ele cumpria diz muito sobre a forma que se cultivava viver.

Mas o próprio regime natural deste rio já enfatizava uma forma cíclica de vida. Após a morte, os peixes que não eram recolhidos pelos índios continuavam secos as margens do Piratininga, reluzindo ao sol, e atraíam uma série de formigas em busca de alimento. A concentração de formigas em reduzidos espaços tornava aquela várzea um habitat muito interessante para os Tamanduás. E então chegava mais um ciclo de cheias e aquela área seca novamente virava rio. Essa sucessão de protagonistas se repetia continuamente em um ciclo natural.

Com a chegada dos jesuítas e todas as modificações ocorridas em decorrência, o nome do rio também muda. Ele passa a se chamar Tamanduateí, “rio do tamanduá verdadeiro” em tupi, em homenagem ao último personagem da saga dessas várzeas. Me pergunto porquê esse animal se torna o símbolo do rio, ao invés daquele que continuava a ser usado como alimento principal da população, e porquê ele é considerado o verdadeiro. Mas fica claro que se opera uma mudança no modo de vida, junto a uma violenta imposição de costumes, crenças e inclusive nomenclaturas.

A partir de então começa um novo ciclo do viver nesse local, mais distante dessa natureza. Ao longo do século XVIII são construídos os primeiros condutos de derivação de água na cidade — os primeiros chafarizes e tanques públicos que delineiam uma série de novas praças e largos, que hoje independem deste suprimento de água que os originou. Ao mesmo tempo se intensifica o uso do rio com forma de se livrar de dejetos. O conflito entre estes dois usos escala ao longo do século, até que o uso do rio como forma de saneamento sai vitoriosa, e as águas gradualmente se tornam impróprias para o consumo e, eventualmente, para o banho.

Esse ciclo do rio como provedor de alimento, recreação, locomoção e sociabilidade não se encerra de uma hora para a outra. Até o início do século XX ele ainda é um ponto de encontro. A várzea do Carmo, como fica conhecida a área, vocaliza um propósito popular, ao mesmo tempo de trabalho e subsistência, através do comércio, serviço doméstico -com o papel da lavadeiras- e da pesca -em uma manutenção do uso inicial do rio. O rio inclusive possui um espaço dedicado exclusivamente ao lazer, a “Ilha dos Amores”. Sua vocação como eixo de mobilidade também não se apaga, sendo uma via de transporte fluvial que atendia os mercados localizados em suas margens.

Com o tempo outra visão de cidade prevalece neste espaço. Suas margens são retificadas, suas águas canalizadas e poluídas e sua várzea asfaltada. Hoje é mais conhecido pela Avenida do Estado, e não serve mais imediatamente a nenhum de seus usos originais, talvez porque a forma de se ver e viver a recreação, alimentação e a mobilidade tenham se transformado.

Me pergunto se o correto seria chamar essas transformações de ciclos ou fases. Ciclos invocam uma idéia de continuidade e retorno ao mesmo tempo, como se fosse uma mudança que se constrói sem a idéia de permanência. Fases invocam uma idéia estática, de evolução pautada em uma só direção, de hierarquização.

Talvez a forma como essas transformações se deram em São Paulo sigam muito mais a idéia de fases do que ciclos, mas talvez não devessem. E ao mesmo tempo em que operaram mudanças violentas e de difícil reversão ou reinterpretação, essas não são lutas completamente vencidas.

Em cada canto da cidade, em cada bairro, se lutam esses conflitos entre duas ou mais formas de viver diferentes. Em cada obra pública ou privada, em cada ação, em cada corpo que se faz presente ou ausente ocorre um fortalecimento ou enfraquecimento de certa prática ou vocação. Não é só uma batalha entre grandes investidores e agentes poderosos, uma luta a longo prazo. É uma batalha cotidiana e mundana. Uma batalha de nomes e afetos. Uma batalha por ocupar um espaço da sua forma.


Esse assunto de batalhas e ciclos me vem à mente pela pressão que Novembro coloca sobre mim. Estou no fim do semestre da faculdade e vários trabalhos e provas e prazos avançam sobre mim, demandando que eu conforme o meu tempo, energia e visão de mundo à uma série de exigências. É como se Agosto e Setembro fizessem parte de um outro ciclo no qual a experimentação e a exploração, o conversar e o conhecer, estivessem no centro, e Outubro tenha sido o campo de batalha do qual essa parte mais rígida da minha vida tenha emergido. Esse texto surge como uma forma de resistência. Ele é uma ação de cuidado comigo, com o que acredito, no meio desta loucura de fazer muitas coisas por uma demanda externa. Ele surge um pouco também perdendo, porque o nível de cuidado e atenção que pude dedicar a ele foi muito menor que aos anteriores. Também surge mais fraco porque essa forma pela qual me acostumei a escrever na faculdade resurge entre as palavras usadas e a forma como minhas idéias se expõem. Ele parece as vezes mais um artigo que uma história. E isso não me agrada. Na batalha entre o prazo e o fazer ideal, escolhi seguir meu prazo, mas com uma ressalva: para semana que vem vou escrever esse mesmo texto novamente. Mas vou usá-lo como instrumento para escrever a partir de outro ciclo, como se estivesse de volta a Agosto, ao invés de em pleno Novembro.

Karen Steinman Martini

Written by

Questionadora urbana, estudante, facilitadora

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