CHEGOU O NATAL! QUE ALEGRIA?

Desculpe chegar assim no seu email de uma maneira um tanto quanto desiludida. A questão é que quanto mais Natais passam pela minha vida (ou eu passo pelos Natais da vida) menos eu gosto de tudo que tem a ver com o tema: as músicas, o consumismo desenfreado, ter que explicar para meu filho porque tem um urso polar na árvore de Natal do Ibirapuera, o trânsito na Avenida Paulista enfim... Acontece que este ano eu decidi que vou deixar de odiar o Natal. Me explico: Quando eu era criança e meu pai era vivo a época de Natal era um momento em que eu tinha que decidir se queria ajudar minha mãe a montar a árvore ou ficar com meu pai assistindo algum documentário bem esquisito da National Geografic. Obviamente eu optava pelas bolas reluzentes e cordões de pipoca e os 79 presentes que eu ganhava de todos os meus 79 parentes. Passávamos a noite ali entre muitos e tudo parecia muito divertido a não ser pelo fato de que meu pai não estava. Ele nunca estava. Ele simplesmente se recolhia em seu escritório e ligava a televisão ou colocava algum de seus vinis para ouvir uma tal de música erudita. Um dia eu criei coragem, saí da bagunça e da diversão e fui até ele. Pedi que ele viesse ficar junto, que era divertido, afinal estávamos todos reunidos. A resposta dele foi: "Minha filha, o Natal é uma invenção para vender presentes." Não sei quantos anos eu tinha mas sei que não tinha anos suficientes nem estava perto disso para entender o que aquilo queria dizer. Hoje, ironicamente, quando se aproxima o Natal eu me lembro dele. "O Natal é uma invenção para vender presentes..." Claramente vejo as ruas abarrotadas, pessoas correndo para suas compras e, na minha família, tudo continua igual: 79 parentes x 79 presentes 79 vezes. Mas, como eu sou uma pessoa que acredita na beleza do ser humano, resolvi que um dia eu conseguiria deixar este mantra que meu pai me presenteou e criar o meu próprio motivo de Natal. Este ano, além de olhar de verdade nos olhos das pessoas das minha família, eu vou agradecer ao ano que passou para as pessoas com quem eu não converso, aquelas que eu nem sei o nome mas que estão ali, quase todos os dias, para me ajudar com alguma coisa. Isso mesmo! Você já reparou nas pessoas que estão na sua vida quase que diariamente mas que você quase não repara nelas? Eu fiz a minha lista: - a moça que recebe e separa o meu lixo reciclável no supermercado; - o manobrista do prédio do meu analista; - o cara que me dá o crachá no prédio do analista; - o moço que chama o meu filho no microfone quando eu vou buscar ele na escola; - o garçon que me atende no restaurante que eu almoço toda quinta; - a moça do caixa do restaurante de quinta-feira; - a senhora que limpa o vestiário da escola de yoga; - o segurança do banco (que tem uma santa paciência comigo todas as vezes que eu fico presa na porta giratória); Estas pessoas são importantes para mim. Elas fazem minha vida mais fácil, mais segura, mais feliz! Tenho certeza que você tem uma lista igual ou maior que a minha. Das pessoas que são frequentes nas nossas vidas sem nos darmos conta disso. E por que não falamos com elas? Nem sabemos o nome delas? Porque entramos na roda do sistema. O sistema que criou "O Natal para vender presentes" e vamos por aí tão enlouquecidos com nós mesmos que não percebemos o outro. Sempre tem o "outro" do outro lado mas por causa da roda maluca às vezes achamos que o outro não pode estar num dia ruim, não pode estar com cólica, ter perdido a mãe, ou simplesmente estar num péssimo dia. Por isso vamos buzinando por aí, reclamando do mal atendimento por aí. Dentro da roda as coisas têm que funcionar como se fosse máquina sendo que a máquina é operada pelo... "outro". Então, se o Natal é meu eu vou fazer um Natal sem mal humor e agradecer (e dar um presente, por que não?) a estas pessoas por fazerem parte da minha vida. Depois volto aqui pra contar como foi ;) Se for bacana vou te recomendar que faça o mesmo e enquanto isso vale a pena ir anotando quem são os desconhecidos que são importantes para sua vida. Com quem você se relaciona sem saber? Feliz Natal. Feliz com o outro. e obrigada por me ler ate aqui! Karina