Karina Barretto
Jul 27, 2017 · 3 min read

A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios…

Rainer Maria Rilke

Faz tempo que eu estou ensaiando isso e faz tempo que não me atrevo. Afinal, poetas e escritores já o fizeram de maneira perfeita, tão identificável que eu me sinto incapaz para falar disso com propriedade.

Sartre, Cecília Meireles, Alfonsina Storni, Vinícius de Morais e Nietzsche já se sentiram solitários.

Solidão é um sentimento? Um estado? Uma declaração? Por onde começar?

Decido começar por mim que, numa madrugada dessas, acordo de um sono leve. Antes de me debater entre os travesseiros e praguejar a má sorte de ter acordado as 4 quatro da manhã, me dou conta de um sentimento diferente. Não é sono, não é raiva, não é tristeza. Resolvo então nomeá-lo de solidão.

Mas, o que é que dói quando a gente tem solidão?

No meu caso, doía o peito e eu sentia um vazio, como se eu precisasse de algo ou alguém para preencher ali, aquele vácuo completamente sem sentido que tinha me invadido no meio da noite.

Ouvi relatos de pessoas que se sentem desconectadas, diminuídas, não merecedoras, não pertencentes.

E dói.

Beira o insuportável exatamente porque a viagem é para dentro. Não suportamos ficar sozinhos ou não aguentamos o silêncio. Ou são as vozes dentro de nós que não aguentamos.

E assim caminhamos, eu e você.

Nós humanos, seres organizados socialmente, precisamos do outro para viver. Lembro me te haver perguntado ao analista "mas por que?" e ele me responder que "é porque a gente não nasce, assim, do espaço."

Nós, evoluídos, criamos a tecnologia e a transformamos em nossa aliada para combater esse mal terrível que é o estado desesperador de ficar sozinho em silêncio por muito tempo. Tempo esse cada vez menos suportável. E menos.

Assim, ao menor sinal de solidão, silêncio, voz interior, buscamos nossos celulares a procura de um amigo. Um amigo que esteja por aí, que tenha compartilhado uma foto de seu novo gatinho, ou algum que esteja em um lugar paradisíaco bem melhor que o meu, e, olhando bem esse hotel aqui até que é interessante eles servem esse drink deixa eu ver a receita olha a Ana Maria Braga como está feia meu Deus!

E assim passaram seis ou sessenta minutos. É assim mesmo que eu faço. Meu 4G me salvando da solidão, que beleza.

O milagre paradoxal é que não existe milagre. Mergulhar na história de uma pessoa virtualmente não extingue a solidão senão que, apenas faz aumentar a distância não virtual entre você e o outro. E relacionamentos virtuais, já sabemos, dão aquele vazio maldito.

E a roda gira.

Mais solidão mais internet, mais internet, menos olho no olho, menos olho no olho, menos toque, menos toque, mais solidão, mais solidão, mais internet, mais mundo falseado, menos verdade e "se eu te escondo a verdade, babe, é pra te proteger da solidão".

Sim, esse texto não tem pretensão nem solução. Mas um dia terá. Ou não.

Karina Barretto

Written by

eu ajudo as pessoas a se conectarem através de conversas profundas. encontrocomproposito.com