O que faz de alguém um artista? Parece óbvio, mas para além da classificação técnica, e para além das inúmeras concepções possíveis quanto ao que é arte, existe o “se sentir” artista. Quando foi que o ator/músico/poeta/etc., ao ser questionado quanto a sua profissão, respondeu “artista” pela primeira vez? Qual foi o elemento definidor, a prova-cabal de que podia se definir assim? E quando isso finalmente aconteceu, será que ele ouviu algo como “mas e a profissão mesmo, o que você faz para viver”?

Não é que essa conversa, da forma como a transmito, vá responder alguma pergunta abrangente ou universal. Muito provavelmente ela só conte a história de uma ideia, um sentimento; algo bastante particular, que tinha tudo para permanecer não contado, até mesmo impensado pela própria Carol. A vida tem dessas coisas, a gente precisa ver no outro para enxergar em si. A gente precisa ser provocado.


Araraquara, 12 de dezembro de 2016. O local é um dos menos indicados, uma lanchonete próxima ao centro da cidade, com cadeiras sendo arrastadas e laranjas sendo espremidas. Poderia ter sido uma experiência catastrófica, mas não foi.

Desde que conheci a Carol, lembro de que seu tempo tem sido quase integralmente dedicado à arte, ainda que tenha cursado faculdade de Letras, e pensei que por meio dela eu poderia entender um pouco o processo de se tornar artista. Com isso em mente, começo a conversa com uma dessas perguntas que a gente faz — e recebe — num primeiro encontro, mas que nunca havia feito a ela.

Karina: Se eu fosse uma pessoa que você não conhece, e eu te perguntasse a sua profissão, o que você responderia?

Carol Gierwiatowski: Eu sou atriz de formação, mas profissionalmente eu não faço só isso, né?

Carol durante apresentação do espetáculo Tinderelxs. Foto: Natalia Dian

Carol trabalha como artista desde os 16 anos, idade com a qual recebeu pela primeira vez dinheiro pelo seu trabalho. Como ela acrescentou, trabalha principalmente como atriz, mas também cuida de outros aspectos da produção cultural.

Atriz formada pelo Curso Técnico em Arte Dramática — SENAC, Carol integrou o coletivo artístico Colméia Cultural, 2009–2014. Atua na Cia. Maizum de Artes Cênicas e Cia. Cais do Porto, participou de diversas montagens, mostras e festivais pelo Brasil. Em 2015, com a Companie Magenia, integrou o elenco do espetáculo “Nuages”, com apresentações em algumas cidades francesas, incluindo a capital. Como orientadora/oficineira, integrou diversos programas e projetos socioculturais municipais e estaduais, trabalhando o teatro corporal, interpretação e iniciação ao fazer teatral.

Carol Gierwiatowski: Desde que eu comecei a trabalhar com isso é como… parece uma coisa meio sobrenatural, vocação. Tem vezes que eu acho isso da hora pra caralho, eu descobri cedo que era isso que eu queria fazer e eu investi o meu tempo e todos os desgastes familiares e etc. porque eu botava fé mesmo e fui atrás, só que lógico, sempre vai dar umas bads. Porque é uma profissão que não é valorizada, você vai no médico e ele pergunta sua profissão, você fala “atriz” e ele “não, não, profissão mesmo”, então vai bater e sempre bate aquelas instabilidades, que vão junto com esse lance social, desgaste ali, cansaço do dia a dia, financeiro. Só que o amor é mais forte.

Carol durante apresentação do espetáculo Tinderelxs. Fotos: Natalia Dian

Perguntei sobre sua experiência de intercâmbio com uma companhia de teatro de Paris, com a qual trabalhou por seis meses. Pudemos falar sobre a experiência de passar um semestre em outro continente, sobre as diferenças de abordagem na arte, no fazer teatral e na própria forma de se relacionar com outros indivíduos. Como ela me disse, foi um período e uma experiência com as quais aprendeu muito, não só no sentido da técnica artística, mas no de se valorizar mais e confiar na qualidade dos projetos aos quais há anos se dedica. Além, é claro, da legitimidade que seu trabalho ganha quando você é selecionado para um intercâmbio como esse.

Nesse sentido, perguntei ainda sobre as diferenças que sentiu quando voltou, se houve alguma mudança no comportamento das pessoas em relação a ela ou se passaram a respeitar mais seu trabalho. Para minha surpresa, ela relatou que o fato de não correr atrás de empregos que não fossem, de alguma forma, voltados à arte, rendia a ela alguns olhares de desconfiança, o que mudou um pouco depois do intercâmbio.

Carol Gierwiatowski: Eu tinha uma visão de que as pessoas pensavam assim: “Ah! Ela é dos outros corres, ela vai atrás de fazer só coisas de teatro”, o que às vezes aqui é meio difícil, porque as pessoas fazem teatro mas têm uma profissão outra também, e eu defini para minha vida há muito tempo que eu não ia fazer nada que não fosse relacionado a arte e a cultura, porque eu estaria investindo um tempo que era um tempo muito precioso, então eu defini que não era para eu fazer outros trampos, sabe? Aí tinha muito disso, “ela trabalha sempre viajando”, “ela só faz lance de atuar, correr atrás de coisas de cultura, então ela vai cobrar a nossa presença”, “ela vai ser rígida”, porque eu sou mesmo chata pra trabalhar, porque eu acho que é importante. Quando as pessoas falavam “nossa, você está em Paris, que legal! Foi por causa do teatro”, e eu via que as pessoas vinham muito curiosas, tipo: “mas como você conseguiu?”, “como que você achou isso?”, a minha única resposta era aquilo que era crítica minha: eu investi todo o meu tempo nisso, eu queria isso, eu foquei e eu comecei a caçar vários lugares que eu conseguisse essa abertura, e enquanto eu estava lá muita gente que nunca falou do meu trabalho aqui, gente que parecia não achar significativo o meu trabalho enquanto eu estava aqui, quando eu fui pra lá ficou tipo “nossa, ela tem algo de especial (entre muitas aspas né) então eu vou falar com ela”. Aí eu tinha muito esse lance de “não, cara, então, eu não tenho nada de diferente, a mesma coisa que eu fazia aí eu estou fazendo aqui, a diferença é que eu foquei mais, o meu tempo maior era nisso mesmo”. Quando eu voltei, o que eu reparei era que as pessoas tinham mais disponibilidade para ouvir, com um olhar de curiosidade, porque vem esse lance do “diferente que vem de fora”, que eu acho que é um pouco ruim porque a gente tem muita coisa boa, muita coisa da hora no Brasil.

Aí eu comecei a falar muito assim pra galera, que pra mim o sinônimo do artista hoje é a disponibilidade, porque parece que a gente está cada vez menos disponível, menos acessível e falta um pouco disso. “Ai, porque lá funciona”. Não gente, não tem nada de “lá” ou “daqui”, é de focar, é cada um entender que é preciso sim estudar muito e focar na disponibilidade sua pra aprender, pra trocar e também pra ensinar, porque às vezes na sua disponibilidade você acaba ensinando sem querer e eu acho que isso é muito importante.

Não é que não existam diferenças entre os países quanto a produção teatral. O que a Carol relata é que enquanto no Brasil a maior parte do financiamento ou apoio cultural é destinado à produção do espetáculo e sua circulação, em Paris, pelo que percebeu enquanto esteve lá, o governo investe na estrutura dos grupos, garantindo sedes, por exemplo. Nesse sentido, os artistas vão encontrar dificuldades em qualquer lugar. A diferença é só que lá a estrutura está mais garantida, e não cada produção particularmente.

Após a conversa sobre Paris, tento direcionar a entrevista para meu foco inicial. Questiono mais diretamente sobre desde quando ela se considera atriz, o que a faz lembrar de uma discussão com seu companheiro, na qual disse que ele precisava parar de se dedicar a coisas das quais não gosta em detrimento da música. Esse teria sido o primeiro momento de se dar conta de sua própria convicção, da qualidade do próprio trabalho.

Carol Gierwiatowski: Esse momento de eu chegar pra ele e falar “para de fazer coisas que você não gosta”, foi importante pra ele, mas também foi muito importante pra mim, de eu pensar “poxa vida, quer dizer que eu tomei essa decisão, porque eu estou dando esse conselho, mas eu não tinha a consciência de que tinha tomado essa decisão”.

É aquele lance do outro, né? Quando a gente vai criar algo, a gente precisa olhar o outro pra gente se entender.

Um segundo momento de reflexão nesse sentido teria acontecido durante o intercâmbio…

Carol Gierwiatowski: foi um segundo momento de falar “olha, eu sou capaz, real mesmo”, porque eu mandei meu portfólio, eu mandei minha proposta de pesquisa, mandei uma carta de motivação e eu fui selecionada. E eu falei “o quê? Que loucura, tem tanta gente no mundo e eu vou, né, então tá”, e quer dizer que, realmente, assim, trabalhei pra isso. Então foi um segundo momento de falar assim, “olha, é real, eu pesquisei isso e deu certo, quem diria”. Poderia não dar, mas deu.

E assim, teve um processo imersivo que eu fiz com o Teatro da Vertigem esse ano, e a primeira pergunta, o primeiro exercício que eles deram foi “senta aí com alguém, e vocês vão contar qual é a primeira lembrança que vocês tem, que te remete ao seu trabalho de hoje”, no caso dos atores ao fazer teatral. Por que hoje você é ator, atriz, ou design de som, ou iluminador, sabe? Por que? Em algum momento isso aconteceu, qual foi sua primeira visão daquilo, né. Comigo foi como espectadora, que foi quando meu pai me levou para assistir uma peça do Alquimia, daqui, e aí, tipo, eu tinha 5 anos, eu sei lá, eu achei muito sensacional. Foi a primeira vez que eu entrei no Teatro Municipal, e pra mim era um negócio lindo, suntuoso, rico, chique de doer. E todo mundo que tava no palco tava enorme, brilhante, e eles vinham para a plateia e um deles veio interagir comigo, e aí eu achei tipo “ai que legal, veio interagir comigo!”. E aí eu vi que aquilo era muito interessante. Eu gostei, eu queria ser uma pessoa que ficasse grande, iluminada ali no meio da galera, e que quando eu chegasse perto de alguém, alguém fizesse como eu, tipo “ahhh!!”. E aí nesse processo é que eu reparei que às vezes é uma coisa muito simples que faz você entender, tipo, olha, já tava ali, sabe, a sementinha de eu ser o artista, só que em algum momento eu reguei mais, e alguém regou junto comigo, tendo apoio familiar e tal.

Foto de divulgação do espetáculo Muzimba — Nossa Voz (da esquerda para a direita: Zé Guilherme, Neila Dória, Carol Gierwiatowski e Mari Abreu)

Eu senti que a conversa ia no sentido que eu queria. No lugar de relatar os fatos em si, Carol começava a refletir quanto ao que sentiu em relação a eles, aos significados menos superficiais que eles assumiram. Correndo o risco de irritar a entrevistada pela insistência, quis saber de novo sobre como ela se sentiu durante a discussão mencionada, que parecia ser um momento muito significativo em seu processo profissional. Essa insistência, no entanto, fez com que ela se lembrasse de um outro momento, tão significativo quanto o anterior.

Carol Gierwiatowski: Na verdade, tem um outro momento que é interessante, que eu lembrei agora, pensando nessa coisa do se sentir assim, né. Quando isso rolou com o Rafa [seu companheiro] foi um momento de refletir mesmo, sobre tudo que eu já tinha feito, e aí eu comecei a pensar “nossa, mas eu já fiz trampo pra caralho, muitos espetáculos, tenho filme…”, e aí eu comecei a ver que em quantidade de coisas realmente eu não era uma pessoa iniciante, então eu tinha ali coisas já feitas, e que eu gostava muito, de muita qualidade. E aí, logo depois, eu entrei pro curso de Artes Dramáticas, e a gente tinha, durante os dois anos e meio, dois processos de criação. Um foi no meio do curso, que foi um Auto. E aí depois a gente teve um processo de criação para o espetáculo final. Quando a gente começou a pensar no processo criativo dos Ícaros, que foi o espetáculo de finalização, a gente falou “cara, tem que ter um texto que vai permear, mas a gente vai escrever as nossas cenas”. E aí foi meio que próximo desse rolê com o Rafa, dessa discussão ali, e eu já estava com isso reverberando. E a cena que eu escrevi foi falando sobre isso, sobre o ser artista. A gente estava ambientado em um dos textos em uma formatura, aí eu falei “então é isso”. E aí na cena a minha personagem estava na festa de formatura, começava a rolar a festa, funk e tal, e o meu texto era assim, não sei se vou lembrar ele inteiro, tá? “Eu queria ser artista. Eu digo assim, dessa maneira, porque eu queria ser artista pra vocês, porque pra mim eu já sou”. Essa era a primeira frase. “Eu digo assim, dessa maneira, porque essa é a nossa festa de formatura. Todo mundo que está aqui deseja e almeja ser alguma coisa. Daqui há 5 anos a gente vai fazer um churrasco para reunir todo mundo e vai ser um momento complicado. Alguns vão ser donos de um negócio próprio, outros serão pais de algumas crianças, e para vocês eu vou ser um fracasso, um enorme fracasso”, porque perto de tudo, né, as questões sociais, a gente não tem nada, né, nem uma bicicleta pra chamar de minha, mas eu acho que eu sou muito rica, em N outras coisas. E aí eu falo assim “porque ser artista pra mim era bem mais do que estar no palco, bem mais do que estar ali, mas era ser artista para eles, pros meus pais, pros meus irmãos, para os meus filhos, porque pra mim eu já era”.

Tô emocionada…

E eu fiz esse texto e todo mundo morreu na sala, assim, porque é muito a realidade da gente. Aí beleza. A gente apresentou duas vezes no Teatro Municipal e depois chamaram a gente para apresentar no Sesc. E teve um dia que meus pais foram assistir. E aí, tipo, meus pais foram assistir e meu pai, meu pai adora tudo, né? Dyrton é uma pessoa que acha tudo lindo, maravilhoso, então ele achou tudo lindo, maravilhoso. Aí fui lá falar com a minha mãe e minha mãe é mais difícil, ela é muito crítica, nas cenas ela fala “acho que isso devia mudar, e não sei o quê”. E ela não falou nada, cara, ela só olhou pra mim, assim. Aí eu olhei pra cara dela e falei:

— Que que foi?

— Nada.

Encheu o olho dela de lágrima.

— Por que você tá chorando?

— Por você!

— Você gostou?

— Muito!

— Obrigada. Eu queria ser artista pra vocês, então tá bom pra mim.

Foto de Divulgação do espetáculo Tinderelxs (no canto esquerdo vemos Carol Gierwiatowski e Renato Alves; no canto direito, Danilo Forlini e Neila Dória)

Lembremo-nos, enfim, de que na arte, para além das discussões acadêmicas quanto a sua definição conceitual, existe uma separação entre o que é considerado arte erudita, com suas próprias variações, e a arte da indústria, que é massiva e que consiste em um dos mecanismos de “formação” da opinião popular. A arte mais consumida, quantitativamente falando, é a da indústria (basta ver o sucesso e alcance dos cantores pop, dos atores de filmes de Hollywood ou os das novelas brasileiras), o que contribui para que predomine no senso comum a noção de que TV = sucesso, e sucesso = qualidade. Dificilmente algum artista é valorizado se não consegue romper a barreira do mainstream e “estourar”. É claro, existe o cenário cult ou underground, mas não é porque você conseguiu expor seu trabalho em alguma galeria alternativa em Sampa que sua família vai te considerar artista, ou seu vizinho, ou aquele amigo de escola que fez engenharia e enriqueceu, ainda que você compreenda o valor disso. E como todo mundo insiste em perguntar “qual é sua profissão de verdade”, fica difícil não se tornar interna essa pressão externa de sucesso, e fica difícil se sentir seguro e enxergar a qualidade do próprio trabalho; por tudo isso, sob o desejo de viver de arte permanece aquela sensação ou receio de que em algum momento você terá que arranjar o tal “emprego de verdade”.

Claro, a intelectualidade também tem seus preconceitos diante da arte quando se deixa guiar por concepções de pureza, elitismo e conservadorismo. Enfim, todas as deturpações industriais ou elitistas do produto artístico e as próprias variações no conceito de arte são variáveis que participam do processo de autoaceitação e autoconfiança do artista, principalmente daqueles cuja formação e cujo trabalho se encontram num âmbito da produção localizado entre a arte erudita e o entretenimento puro e simples, de forma que não podem ser medidos ou julgados pelas mesmas regras.

Carol durante apresentação do espetáculo A Decomposição de Ícaro (ou o discurso-sentença de Dédalo). Foto: Daniella Caruso.

Trecho do Espetáculo “A Decomposição de Ícaro (ou o discurso-sentença de Dédalo”) ao qual Carol se refere na entrevista, escrito e encenado por ela:

“Eu queria ser Artista!

Eu digo assim, dessa maneira, porque eu quero ser artista pra vocês. Porque para mim, eu já sou.

Eu digo assim, dessa maneira, porque essa é a nossa formatura, e todo mundo aqui deseja e planeja ser alguma coisa.

Daqui a 5 anos, nós vamos fazer um churrasco para reunir a turma toda. Alguns de vocês serão donos de um negócio próprio, outros terão filhos, e para vocês, eu serei um enorme fracasso! Fracasso, fracasso, FRA, FRA, FRA-CAS- SO!

Pois é, vocês ainda irão sentenciar:

‘Isso? É uma brincadeira, tem prazo, não passa dos 30 anos!’, ou então, ‘É até aparecer algum filho pra criar!’

E eu vou responder que não. Não vou mudar. Porque eu quero ser artista pra vocês. Eu quero ser ARTISTA, pros meus pais, e pros meus filhos também.

E se eu desistir, e prestar um concurso público, e me tornar professora do ensino médio, vocês irão me parabenizar! Mas deveriam chorar por mim. Porque nesse momento, eu terei deixado morrer o meu sonho. (Sonho?)

O que eu sou.

— O que você prestou mesmo??

LETRAAAAS!!!!!”


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