Monólogo I

Parte do quadro Despair, de Edvard Munch

-Não sei, cara, não sei… Não que eu esteja na pior, só tô meio perdida. Como é que eu vou dar tudo de mim pra chegar num lugar onde eu não quero estar? Eu sei que costumo aprender rápido as coisas, mas não tem como passar a vida aprendendo mais ou menos uma coisa por semana, entende?

Naquele momento eu a observava: concentrada, como alguém que se empenha em resolver um problema; levemente perturbada, como alguém que, no fundo, não acredita na possibilidade de resolução.

-Eu me refiro mais ao futuro, no sentido da profissão, do que fazer para o resto da vida. Claro que pode não ser pro resto da vida, é mais no sentido de algo que me leve à estabilidade, sabe? Não que eu ache que ela possa ser alcançada facilmente, mas, porra, sei lá. Quê que eu quero?

Era engraçado assistir a esses “diálogos” nos quais ela constantemente se envolvia, ainda que fossem bem repetitivos. O tema era sempre o mesmo, a vida. Não costumava entrar no âmbito amoroso, esse era bem resolvido. O que a preocupava mesmo era o âmbito profissional, que assumira para ela um significado bastante amplo.

-Eu não sei, não sei… Mano, você faz 4 anos de faculdade e aí volta à estaca zero. Ser secretária do meu pai, como é escroto esse destino. Ou melhor, destino é o caramba, quais foram as escolhas que me trouxeram até aqui? Como que faz pra “desescolher”? Lógico que não dá, não sou louca, mas quais escolhas poderiam me tirar dessa? É só eu sair tomando decisão por aí, ou tem que traçar um plano? Qual decisão vem antes, por onde que começa a mudar as coisas?! E mais: o lance é mudar as coisas ou mudar de posição diante delas? Será que é minha postura que complica tudo? Até que ponto devo ser firme e coerente em relação aos meus próprios princípios e costumes? Como que faz pra identificar aquela linha que separa essa coerência e o comodismo, a inflexibilidade? Nossa…

Aí perde a graça. Dá pra ver o desespero crescendo dentro dela, até um ponto em que ultrapassa seu contorno, seu volume, sua forma, e a envolve: uma grande massa que dificulta a respiração, dificulta os sentidos e dificulta a racionalidade. Às vezes chora. Tudo fica bem, desde que esteja sozinha.

Uma coisa que aprendi com ela é que o pensar pode ser, muitas vezes, paralisante. Bom, na verdade quem disse isso foi a terapeuta, certa vez, mas eu estava lá, eu aprendi, e é algo que se comprova nela, sem dúvidas. Ela para e pensa no que fazer, em como vai ser, no tempo que vai levar e no esforço que vai exigir. Ela pensa se é aquilo que ela quer, se é a melhor escolha, se, talvez, quem sabe, não seja melhor ser secretária do pai, por que não? Pode ser. Aí depois pensa no salário, senta na cama, lembra que ainda existem coisas, atos e imagens do futuro que oferecem algum prazer, alguma segurança.

-É, tudo bem, vou correr atrás. Talvez seja isso, talvez eu goste, é possível que valha a pena, valha o esforço. Mas se eu pudesse ao menos voltar a morar sozinha… Talvez. Não sei, sei lá, pode ser…

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