Uma hora na vida de um ansioso sob controle

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Quando o tempo está assim é ótimo, me sinto bem melhor. O vento até que está forte, mas não subo os vidros; assim é bom. Imagina um elefante vivendo em sua cabeça, se contorcendo em busca de um conforto inalcançável. Mas aí, quando ligo e abaixo os vidros, é como se o elefante, de repente, sossegasse; é como se ele fosse substituído por, sei lá, uma vaca: não é ideal, mas o alívio é considerável. Só não sei por que tomei a decisão de vir ao centro da cidade uma hora dessas, tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. E as músicas de sempre no pendrive… Vivemos pressionados pela tendência de enxergar tudo enquanto dicotomia. Carro ou moto, dia ou noite, pós-estruturalismo ou teoria crítica, autonomia ou engajamento, estética ou política, singular ou universal, nescau ou toddy — como se cada coisa fosse facilmente catalogável e armazenável em espaços distintos, como se fossem excludentes entre si, como se não houvesse interpenetração.

E essa pressão não para. A partir do momento em que você percebe que o tempo está vindo atrás de você, com olhos furiosos, e que a cada vacilação, a cada dúvida — agora ou depois, casa ou bar, pizza ou lanche, concurso ou currículo, foto ou vídeo, quinta ou sábadNHAC! Já era. Devorado. A partir desse momento, a pressão NÃO PARA. Estaciono.

Dirigir tem esse efeito em mim: ou sou completamente absorvido pela música, cantando como quem grita sozinho desejando não ouvir nada além do eco, ou sou completamente absorvido por pensamentos que se desencadeiam violentamente, como que ativados pelo motor de partida. Em ambos os casos, esqueço o caminho. A tática de seguir o carro do amigo para chegar a um lugar desconhecido simplesmente não funciona. Mas eu não ligo.

Estacionei, curiosamente, diante de um bar. Não era o de sempre e nem era desconhecido. Sentei, pedi, virei. Logo eu, que sempre teci extensas críticas à atitude blasé e ao seu inerente elitismo, adotei o “whatever” como resposta universal. Ridículo. Não pude evitar um pequeno sorriso, típico de quem, quando analisa a situação, ri de si mesmo, de nervoso.

Termino o segundo em três goles. É estranho beber sozinho, mas não tenho muito assunto com os outros, de qualquer forma. O vermelho típico dos botecos e de algumas marcas de cerveja predominam no ambiente quase vazio. Eu estou de verde, a camiseta de sempre; usei tantas vezes seguidas que hoje nem precisei passar perfume, já impregnou.

Termino o último. Será que eu quero outra ou será que quero ir embora? Olho para o carro e, de repente, preciso dirigir. Mas para onde? Não para casa. Outro bar, uma lanchonete, a praça… e se eu ligar para alguém? Bolsa, dinheiro, troco, obrigada, entro no carro.

O rádio ligou automaticamente, muito alto. Abaixei, abri os vidros, respirei, saí. Até cantei um pouco mas a cabeça, apesar de pesada, ia longe. Preciso mudar as músicas do pendrive. Não pretendia ir para casa, mas quando dei por mim já estava chegando. Não bebi mais, não jantei, não liguei para ninguém. O elefante estava aqui de novo, particularmente inquieto. Pode parecer absurdo, mas sentia como se o mundo tivesse desistido de girar em torno de si e do sol e corresse, agora, em minha direção. Não fujo, só espero.

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