Sol caindo ao fundo, atrás da Ponte 25 de Abril, visto a partir de uma taça de vinho servida no Castelo de São Jorge, um dos pontos mais altos da cidade

Estar em Lisboa é ser feliz a cada passo, a cada esquina, todos os dias

O caminho era extenso. De acordo com o Google Maps, 2.100 metros e 29 minutos de caminhada. Eu levei 40. Gosto de ouvir o som ao redor, de olhar a vista ao redor, de sentir a vida ao redor. De mim. Primeiro, fui até o final da rua onde ficava a minha casa em Lisboa. Uns 30 passos, nada de mais. Depois fui seguindo à direita, acabei descendo até chegar na Praça da Figueira e dali comecei a andar para o alto. A Cidade das Sete Colinas não carrega por mero acaso o título. Há que mirar o céu ou o Tejo, dependendo do sentido ou do destino da sua caminhada. A minha era para as nuvens. Subi.

Algumas vezes em meu percurso, tive que parar. Era preciso dar lugar à passagem do Elétrico 28, um bondinho amarelo e branco que segue trilhos de ferro cravados no chão: são sempre os mesmos, como não poderia deixar de ser. Deixei o mapa de lado e segui apenas o caminho feito por ele. Era Alfama, o bairro mais antigo da capital portuguesa, um dos únicos sobreviventes intactos do terremoto de 1755. Meu objetivo era o Castelo de São Jorge. Estava quase lá e, antes de chegar, parei mais uma vez.

Havia dois gajos tocando uma música bonita. Da altura em que estava via o Tejo calmo, o sol no alto, o céu azul e as casas pequenas, tipicamente portuguesas com seus azulejos à frente das paredes brancas. Sentei em um banco, ouvi a melodia, senti a cidade. Toda, em mim.

Depois continuei andando para o alto, rumo ao castelo com nome de santo. Cheguei, entrei e vi Lisboa inteira aos meus pés. Explorei cada canto, cada ruína e, ao fim, pedi uma taça de vinho e sentei à beira do muro que antes protegia o rei, as princesas, o dinheiro roubado da minha terra de pau brasil, e hoje está firme para contar essas histórias — e lembrar o que não pode ser jamais esquecido. Ao fundo, atrás da Ponte 25 de Abril, o sol ia caindo manso, amarelo, apagando a luz do dia enquanto lá embaixo os postes acendiam a noite, sem pressa, também. Em silêncio eu vi essa dança sem música, bebi do sagrado tinto e fui feliz. Como nunca, como sempre, uma vez mais.

Desci sem saber para onde ir. Acabei no Terreiro do Paço (também chamado de Praça de Comércio). Era ali que quem voltava do Brasil se encontrava para vender o que havia comprado — ou tomado à força ou em troca de espelhinhos míseros que para os índios do meu país, os donos da terra, interessavam mais que aquele metal amarelo, tão apreciado pelo homem branco. Ia haver um show. Eram as festas de final de ano. Comprei uma cerveja portuguesa (foram três, ao todo). Miguel Araújo era o cantor. Dei risada do sotaque, às vezes acho engraçado que a língua que nos une seja a mesma que nos diferencia. Então olhei as pessoas, felizes embaladas por uma música bonita. Deixei-me embalar também e fui feliz como nunca, como sempre, uma vez mais.

O Cais das Colunas, as pessoas e as suas vontades

Noutro dia eu caminhei até o Cais das Colunas. Levava nas mãos Memorial do Converto, do grande José Saramago. O sol batia na água e brilhava, as gaivotas, antes de roubarem meu pastel de nata, bailavam no alto. Não era frio, apesar do Tejo ali ao meu lado. Casais se beijavam à espera do cair do dia. Alguém vendia castanhas assadas e a fumaça começava a invadir o ar. Deixei de lado a passarola do padre Bartolomeu e quis ser Blimunda: ver a gente por dentro, como é, como somos, de fato. Pensei em quais seriam as vontades do gajo que tocava acordeon na esperança de conseguir uns trocados, ou dos homens que do outro lado empilhavam pedras e formavam esculturas à beira da água. Não achei as vontades deles, apenas a minha, e nesse encontrar o que não estava procurando, fui feliz como nunca, como sempre, uma vez mais.

Gosto tanto de palavras que visitei as casas de quem tão bem as escreveu. Primeiro, a dos Bicos, onde em frente, debaixo de uma oliveira, adubam a terra as cinzas do único Nobel de Literatura do país, Saramago, é claro. Vi suas fotos, li seus livros, suas anotações, sua medalha do prêmio merecido, senti em mim a sua escrita. Depois, num dia de sol e com uma boa caminhada (e companhia!), fui até onde viveu sua vida em seus 15 últimos anos o poeta fingidor. Conheci a máquina em que tomava forma sua poesia, os óculos por onde tudo ele via, entrei no quarto em que ele dormia. A cama era de solteiro, como foi sua vida. Toquei na cômoda sobre a qual as tantas palavras de Fernando Pessoa ganhavam rima, ritmo, verso, graça, força, sentimento. Assim, longe em tempo, fiquei perto em alma de quem tanto me ensinou e me ensina, dia após dia, e fui feliz como nunca, como sempre, uma vez mais.

Sol caindo, visto a partir do Arco da Rua Augusta

Em outros dias que já estavam a acabar, vi o sol se esconder enquanto a terra girava. Começava a terminar a luz aqui enquanto no meu país ainda havia muito para acontecer antes de a lua surgir. Que mágico é este universo, não? Eu aqui, de um lado do Atlântico, vocês aí, do outro… E tantos amigos e amigas dos lados todos de outros oceanos deste planeta. Não há como não se encantar. Tanto quando estava sobre o Arco da Rua Augusta ou quando sentei em boa companhia em um bar junto ao Miradouro de Santa Catarina, mais do que ver, senti o calor que ia embora, sempre atrás da Ponte 25 de Abril, para dizer “Até logo, bonita, volto amanhã”. E, assim, fui feliz, como nunca, como sempre, uma vez mais.

No Natal eu era estranha, chegada há uns 13 dias, sem família. Primeira vez na vida longe dos meus amores numa data que, mais do que tudo, diz pra se ficar perto de quem faz o coração da gente bater, mais e mais. Por sorte também havia outros estranhos como eu, na mesma situação, e juntamos todos os nossos estranhamentos e fizemos uma coisa só: um jantar, um arroz de bacalhau, vinho e risadas. Foi um Natal que não parecia Natal, mas que era Natal não porque dizia isso o calendário, mas porque as pessoas sentadas à mesa comigo eram também, ali, minha família. Dividimos quartos, fofocas, aventuras, festas, trabalho, conversas sobre política e outras bobagens, copos de cerveja, noites no sofá vendo Netflix. E assim fui feliz como nunca, como sempre, uma vez mais.

O incrível Oceanário de Lisboa

Houve outro dia em Lisboa em que pisava na terra mas fui ao fundo do mar. Peixinhos de todos os tipos, de todas as cores e tamanhos. Tubarões, nunca os tinha visto, ainda mais à distância de apenas um vidro. Não eram bravos, pareciam até simpáticos e nadavam em harmonia com os outros amigos do Oceanário de Lisboa. O Nemo e a Dori também estavam lá, além do Patrick e tantos outros amigos de água salgada. Durante a visita, sentei ao chão, pequena frente à imensidão do aquário, como somos todos nós quando frente ao oceano, qualquer que seja ele.

Um menino de nem dois anos completos veio correndo e se abaixou ao meu lado. Conversamos. “Aquele peixe ali tá ‘tisti’”, disse ele. Era um peixe-lua, grande, parado em um dos cantos do aquário. Perguntei porque o garotinho, brasileiro como eu e que estava acompanhado da família, pensava aquilo do animal. “Ele tá ‘xoginho’”, respondeu. Eu sorri. Lembrei que às vezes quando estou sozinha também fico triste. Mas ali, naquela hora, eu não estava mais só: tinha um amigo com quem dar risada dos peixinhos e fazer cara de espanto quando os tubarões ou as arraias passavam à nossa frente. Assim, sentada com uma criança e como uma criança, ao chão de um aquário gigante, fui feliz como nunca, como sempre, uma vez mais.

A cidade da arte, como não poderia deixar de ser

Em 2017, Lisboa carrega o título de Capital Ibero-americana de Cultura. E não poderia ser diferente. A arte lá está nas ruas, nos lambe-lambes colados aos muros, grafites coloridos, sinceros e apaixonados, nos azulejos que enfeitam as paredes das casas e dos prédios. Também está na música, na performance, na cara de pau dos artistas de rua que tanto ocupam a Rua Augusta, especialmente à noite, em busca dos trocados dos turistas ou dos moradores que estiverem de bom humor. Há quem surpreende pela criatividade, como um brasileiro que tocava a música do “lepo lepo” com vários objetos (incluindo uma bacia de metal), ou o casal que encenava com marionetes canções de fado. Há também quem não surpreende, como o gajo que fingia tocar música clássica usando um arco de violino e um serrote. Convenceria mais se não houvesse ao seu lado uma caixa de som de onde saía a música verdadeira. Mas, o que vale é a arte, ainda que em tentativa. Ah, e Lisboa ainda é terra onde se firmaram muitos escritores, poetas, pintores, dramaturgos, enfim, essa gente incrível que faz a vida ter graça e sentido. E também é onde se pode visitar a livraria mais antiga do mundo em funcionamento, a Bertrand, quase em frente à estátua de Fernando Pessoa e pertinho da Praça de Camões. E tem museus incríveis, como o Coleção Berardo, onde conheci Dalí, Picasso, Mondrian e tantos, mas tantos outros que meu coração dançava de alegria em um rinoceronte triangular azul e vermelho. Andei tanto pela cidade que li, respirei e senti sua arte, e assim fui feliz como nunca, como sempre, uma vez mais.

Belém é puro ❤

Por fim, um dos cantos mais bonitos (dentre tantos, impossível escolher apenas um), Belém. Terra do melhor pastel de nata da vida (da minha e da de todos vocês, acreditem) e também local de onde partiram os navegadores para achar uma terra que já tinha dono, mas que chamaram de sua mesmo assim. É onde também estão sepultados, no Mosteiro dos Jerônimos, os corpos de Fernando Pessoa, Luís de Camões, Vasco da Gama e Alexandre Herculano. É onde tem uma praça linda, uma vista linda para o Tejo, especialmente quando em cima da Torre de Belém. O sol na cara e o vento gelado são mais gostosos aqui, onde fui feliz como nunca, como sempre, uma vez mais.

E você, visite Lisboa e seja feliz também ❤