Refleti nas águas do Pantanal e achei de novo a minha luz

Breve relato de uma viagem ao Brasil que pouca gente conhece e toda a gente precisa de conhecer

Eu tinha a luz apagada. Não a da casa, nem a do poste da rua que só acende quando o sol morre, menos ainda a da lanterna do celular. Era a minha, que começa dentro e salta para fora dizendo quem sou, para onde vou, de que lugar vim. Caminhava feito sombra, não me via, estava escura. Era alma cansada, desistida, amuada.

Não me reconhecia. Andava a fazer tudo sentindo nada. Não vejo sentido em fazer o que não pode ser sentido. Não pensava, não lia, não brilhava os olhos, não vivia. Ao menos não com o coração. Viver sem usar coração é como morrer em pé. Afinal, era eu isso: uma alma parada na estrada errada. Ou o contrário. Ou os dois.

Num dia, a minha estrada errada foi cortada por uma borboleta. Era amarela, uma luzinha que voou na minha frente. Gabo dizia que quando mariposas amarillas cruzam seu caminho, o sinal é de boa sorte. Não apenas confio nele, como tomei para mim a superstição. Meus olhos grandes castanhos enxergam bem quando o vidro dos óculos está à frente. Neste dia, estavam, a ponto de me permitirem ver para onde batiam as asas da minha amiga. Estacionaram numa flor, era um pé de jasmim da casa vizinha aqui da rua.

Não sei como, nem por que, nem de onde veio, mas aquela cena deu-me a ideia: vou para o Pantanal. Nem sabia eu em qual Mato Grosso ficava a maior planície alagável do mundo. Tinha o do Sul, o do Norte, a muitas horas de viagem depois de um vôo. Descobri num dia e no outro já tinha tudo acertado. A viagem começava seis pores do sol depois.

De cara, o Pantanal me lembrou a sorte que sempre têm as pessoas boas neste mundo: coisas boas acontecem a elas. Fui abraçada tão logo cheguei a Campo Grande, para um pernoite no Hostel Santa Clara. Dodô, minha primeira amiga no Mato Grosso do Sul, me conversou e encantou, já ali eu estava em casa, ainda que tão longe de casa estivesse eu.

Depois, num trajeto que supera 300 quilômetros, peguei carona com a dona da Pousada Santa Clara, Vania, simpática, alegre e jovial. Umas boas quatro horas, ou menos, ou mais, de viagem e conversa para descobrir a nova terra por meio das histórias de quem vive nela, dela e para ela. Nem bem tinha chegado e já via tucanos cortando o céu. Lindos, bicudos, um balé aéreo fantástico.

Coloquei os pés na grama. Minha casa era uma barraca. Do lado, o Rio Abobral, das suas piranhas e jacarés gordos que tomavam sol na beirinha, perto de mim. Uma família de capivaras corria solta. Vanice fazia a comida. Acendia fogo à lenha, feijão preto, arroz, carne: Brasil. Delícia e carinho que alimentam a alma.

Visitante ali faz passeio. Andei de barco no rio. Horas de contemplação, de sentir o vento bagunçar meus cabelos e arrumar as bagunças da vida. Toni, meu guia, num começo de tarde em que atirados em redes falávamos do mundo, lembrou-me da energia que vem da natureza. Do sol que aquece, do verde que respira, da água que faz tudo beber e viver. Também das estrelas. Aprendi, muito, principalmente sobre aonde colocar minha energia nesta vida.

À noite caminhei no escuro. Como é lindo o céu quando não há cidade para ofuscar o seu brilho. Vi estrelas piscando. Vi a poeira delas. Vagalumes me diziam para onde ir. Era eu um grãozinho de areia no universo, como somos todos nós sem perceber. Me percebi, enfim.

Acordava cedinho. Passarinhos coloridos e bons cantores tratavam do meu despertar. Faziam festa ao ver o sol, eu fazia também quando saía da barraca e pisava a grama ainda molhada da noite recém acabada. Olá, sol, agradeço por hoje. E sentia a pele aquecer com os raios que me davam bom dia.

Caminhei entre árvores e áreas alagadas. Cavalguei Talismã, meu amigo branco e tranquilo. Vimos juntos o dia acabar. A vida é linda.

No Pantanal eu achei de novo a mim. Encontrei a energia que iluminou minha alma, mais uma vez. Já não mais estou desligada. Antes de sair de lá, já tinha decidido voltar. E vou, todas as vezes em que a minha luz apagar. E nas outras em que ela estiver acesa, também.