Nos 2,5 mil metros do vulcão ativo mais alto da Europa

Um mês em Catania: entre calmarias e erupções

Foram 30 dias vivendo com o humor do Etna, maior vulcão ativo da Europa

São quase 3,5 mil metros de altura e constante atividade. Ultimamente, o Etna anda tranquilo: suas erupções não têm causado danos à população. Lá vi um pouco de lava sendo expelida pelo vulcão numa única noite, num golpe de sorte. Durante o dia havia a fumaça saindo das crateras, um espetáculo incrível para ser apreciado do chão, na cidade curvada aos pés da montanha, e mais ainda quando se pisa na neve que branqueia o inverno vulcânico da Sicília.

Catânia, a segunda maior cidade da ilha, foi minha casa por 30 dias. Um experiência que começou péssima, digna do drama da mais italiana das famílias. Cheguei cansada depois de quase um dia inteiro de vôos e escalas. Segui as orientações que recebi do meu então chefe (ali também fiz workaway) e me perdi. É desesperador estar num lugar e não falar a língua das pessoas. É, nem todo mundo gosta de inglês.

Enrolei um italiano e pedi informação a um senhor que passava na rua. Eu estava muito perdida. Ele me levou até onde eu precisava ir. De lá consegui chegar ao B&B onde iria trabalhar. A recepção não foi das melhores, mas os italianos são conhecidos pela grosseria, então nem me importei. Quando cheguei ao microapartamento em que iria morar, carinhosamente apelidado de bunker por não ter iluminação natural e a única ventilação ser uma espécie de mini-porta com uma grade e uma tela, com uma pseudo-vista para um corredor escuro e voltada para a janela dos vizinhos, eu quis dar meia volta e ir para minha casa. Mas entrei.

Para fechar o combo, meus companheiros de morada eram dois meninos, um mexicano e um romeno, ambos simpáticos, mas não muito chegados na limpeza. Bem, como brasileira que sou, obviamente não me senti confortável em morar com dois rapazes, ainda mais porque o banheiro não tinha tranca e eu meu colchão ficava a dois palmos de distância do colchão do romeno. Eu tive medo, lógico. Mas passou.

Como sou também um pouco neurótica com limpeza e, bem, dois meninos morando sozinhos não são os maiores adeptos de faxina, eu tinha nojo de encostar em tudo, especialmente o banheiro. Assim que pude, passei aspirador no bunker e o mexicano ajudou limpando o chão. Só ficou o banheiro faltando. Mas depois eu limpei.

Ah, na primeira noite lá, eu chorei. Tinha tido duas experiências anteriores muito boas nesse programa de voluntariado em troca da hospedagem, e ali o que constava na descrição das acomodações na proposta de trabalho não fazia jus à realidade. Quis desistir. Contatei o suporte do site que agencia esses trampos e foram muito solícitos: buscaram outras ofertas na cidade e na região em que eu estava. Pronto: era só trocar e ir embora. Mas eu não fui.

Conversando com outros voluntários, percebi uma coisa bem importante: os italianos, de um modo geral, sempre vão tentar tirar vantagem de ti. Havia duas pessoas morando num apartamento que era um terço do tamanho do bunker, onde mal podiam se mover. Outros trabalhavam mais horas do que o combinado, tinham que fazer tarefas que não estavam nas propostas iniciais. No meu caso, o trabalho era muito tranquilo e eu era liberada antes mesmo de encerrar o horário acertado. Era só cumprir as tarefas e ir embora. Então pensei muito e resolvi ficar. Entrei nessa justamente para ter aventuras e, bem, nem todos os dias são de sol ou flores. Há que encarar.

Num dia, caminhando sem rumo pela Via Etnea, a principal da cidade, acabei num parque lindo chamado Villa Bellini. Fui até a parte mais alta e pela primeira vez vi o Etna. Era branquinho por conta da neve e expelia fumaça. O vento que balançava meu cabelo era gelado, o céu estava azul e o sol aquecia um pouco a minha pele. Em pé sobre um banco, senti a cidade, finalmente.

Pensando no humor do vulcão, que ali parecia calmo mas que a qualquer momento poderia iniciar uma violenta erupção, entendi o que era viver ali. Oito ou 80, altos e baixos, dramas e alegrias. Quando percebi isso, o que era ruim ficou mais tolerável e com a ajuda da maravilhosa comida italiana, consegui começar a ser feliz lá. Foram quase duas semanas para que isso acontecesse.

Não é uma questão de eu ser mimada ou metida a besta. Eu apenas sou muito correta: se acerto contigo que vou trabalhar em troca de um quarto privado, é isso que eu espero que aconteça, e não ter que dormir num muquifo. Mas, a vida é uma aventura e a gente sobrevive aos dias que não são bons.

Comecei a fazer amigos quando entendi que não adiantava odiar a cidade, os italianos grosseiros ou as mentiras que constavam na proposta de trabalho (até hoje espero a vaga no curso de italiano que prometeram). Sorri e me diverti várias vezes, conheci gente de várias partes do mundo, joguei futebol e fiz um gol, ajudei as pessoas, comi cannolis, gelattos, todos os tipos de massa, tortelli de moranga, lasanha, pizza. Que país que sabe se alimentar bem.

Vi ainda construções históricas, como um imenso teatro greco-romano, cuja construção iniciou lá pelo século V antes de Cristo. Sentar onde tanta gente sentou, andar pelos corredores, subir e descer escadas… Uma experiência surreal.

Outro dia lindo foi subir no vulcão, algo que vi de perto pela primeira vez na vida, e também pisar na neve, outro ineditismo. Ela é gelada e crocante.

No meio do meu caminho em Catânia encontrei ainda um casal maravilhoso de brasileiros que me adotou e me levou para um dos passeios que mais queria fazer. Fã da saga escrita por Mario Puzo, é óbvio que eu precisava ir até algumas locações escolhidas por Coppola para dar vida à história da família Corleone. Em Savoca, sentamos e almoçamos no Bar Vitelli, cenário onde Michael pede a mão de Apolônia ao pai dela, e também fomos à igreja onde os dois se casam. Que dia!

De quebra, descolei uma edição de 1972 e em italiano do livro (lá é Il Padrino) por míseros 10 euros. Nada como ter um fornecedor literário de qualidade. Morei ainda no bunker com duas meninas, uma americana e outra sudanesa. Conheci também italianos, argentinos, suecos, húngaros. Todos viajantes. O mundo é grande e tem pessoas lindas.

Apesar do início dramático e raivoso, aprendi que as pedras no caminho aparecem sempre e que o melhor a fazer é passar por elas. Não adianta explodir de raiva ou descontamento: é melhor fazer como o Etna: calmo, do alto, olhar aquela gente e aprender a conviver com ela.