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A Espera pelo Trágico fim de Leonardo

Leonardo havia descoberto o que era morte fazia pouco tempo, quando perguntou a avó porque tinha a pele tão estragada. Ela foi direta e respondeu sem dó: “Cada ano a morte vem e me dá um alerta de que está se aproximando”.

Depois disso, ele passou a observar a avó dia e noite e se sentia culpado todas as vezes que caía no sono e largava mão da vigília constante. Ele se perguntava se a morte tinha cara, cheiro e se havia de ser tão ruim dormir para sempre como todos diziam. Para todas as velhas do baralho, amigas de sua avó, e aos pinguços, amigos de seu avô, Leonardo perguntava qual haveria de ser a melhor forma de morrer e todos respondiam “dormindo e de barriga cheia” e nenhum discordava que a pior haveria de ser queimado vivo.

Leonardo se convenceu de que dessa última tinham razão no dia em que queimou um tiquinho do dedo na panela de doce de leite que lambia e chorou sem parar. Nem quis imaginar como seria queimar o corpo inteiro. O que ele não entendia era essa necessidade de morrer dormindo. Sabia bem que dormir era um prazer sem tamanho, mas fechar os olhos, simples assim, sem qualquer emoção, não haveria de ser a melhor forma de morrer.

Passou a se olhar no espelho e se imaginar com 85 anos, “Será que ainda pularei cordas?”, perguntava-se, porque não haveria sentido na vida se não pudesse pular cordas. Lembrou que sua avó já não pulava cordas fazia tempo.

A avó dera conta de toda caraminhola na cabeça do menino no dia em que fez 8 anos. O pobre coitado chorava sem parar, não queria sair do quarto, recusava-se a comer o bolo que ela havia feito e, com a porta trancada, passou um bilhete por debaixo: “Aqui me despeço, uma vida tão curta, que já está chegando ao fim”. Leonardo nunca fora bom em contar e achava que de 8 anos para 85 seria um pulo.

Quando a fase de criança passou, ele já sabia que a diferença entre 8 e 85 era grande, mas cresceu fascinado pelos mistérios que rondavam a morte. Ia em todos os velórios e enterros. Fazia visitas contínuas no único hospital de sua cidade e passava horas sentado ao lado dos enfermos em estado terminal. Quando tinham um ataque, Leonardo não ficava nervoso e observava o modo de agir da morte. Observou como ela podia ser cruel e benevolente.

Não passou muito tempo, a morte deu as caras em sua casa e levou sua avó da forma como ela havia pedido — enquanto estivesse dormindo e em paz. Leonardo não sofreu, ficou feliz que os pedidos dela tinham sido atendidos. Ele mesmo tinha seus próprios termos e estava decidido a se encontrar com a morte para firmar num contrato, assinado com sangue e vigor, os procedimentos em que sua passagem se daria.

A Caça

Leonardo começou sua jornada em busca da morte numa manhã de domingo. Foi para uma cidade em que ela se instalara nos últimos tempos, levando embora pelo menos duas almas por dia, com uma peste abominável. No dia em que ele apareceu, tudo mudou. Ao invés de duas, morreu apenas uma pessoa e no dia seguinte não morreu mais ninguém.

O garoto não parou, foi entrando pelas profundezas das aldeias, onde ouvia boatos de desastres e sentia cheiro de sangue. Começou a ficar famoso, por onde passava a vida se restaurava, parecia que a morte fugia dele como o diabo foge da cruz. Ele a viu de perto uma única vez, quando se envolveu numa briga de bar. Ela veio como um aviso e ele pode sentir seu cheiro se aproximar, no mesmo instante em que a bala de uma espingarda lhe atravessou o peito. Leonardo sentiu a morte lhe cheirar o cangote, enquanto sua vista ficava turva e o coração com o batimento cada vez mais fraco. De repente, viu sua silhueta desaparecer ao longe, com os ombros curvos como se estivesse arrependida, e sofreu com o ar que voltou como um soco no peito.

Sentiu o sangue quente e viu as pessoas te carregando desesperadas para o curandeiro daquela aldeia longe de qualquer ciência. No dia seguinte, com a benção dos deuses, Leonardo acordou, procurando ansioso pela figura que vira na noite passada, mas ela já havia partido fazia tempo.

Sua busca não parou e ele se perdeu no mundo. Andou por dias, sem achar nada, até cair em um pequeno povoado, onde nenhum habitante havia morrido. A pessoa mais velha não passava dos cinquenta e eles não sabiam que a vida tinha prazo de validade. Leonardo, que passou tanto tempo tentando entender os passos da morte, teve a prova de que era mais esperto que ela e havia chegado naquele lugar antes mesmo que ela imaginasse sua existência.

Quando contou sobre sua empreitada, todos riram. E quando disse, então, que depois da morte a alma sobe para o céu, foram a loucura com a sua capacidade de contar histórias. Dali, Leonardo não tinha pistas de por onde a morte andava, andou aos arredores, rastreou todos os caminhos que podia, mas aquela região parecia inalcançável e Leonardo decidiu esperar.

Esperou para sempre e descobriu o que era viver sem pensar no amanhã, sem se dar conta dos passos que deixaria para trás. Lá, as pessoas brigavam num instante e no outro faziam às pazes, trabalhavam na terra o suficiente para comer e viviam de troca de necessidades e cuidados. Compartilhavam comida, roupa e amores. Seus nomes tinham apenas uma sílaba, ninguém contava idade e não havia reflexões sobre a vida.

A Descoberta da Vida e Morte

Já no segundo dia na aldeia, deram algo para Leonardo fazer. Ele ficaria responsável por ensinar as crianças sobre o que a natureza tinha a oferecer. Ensinou-as a caçar, a montar cabanas e a se proteger de forma sistemática. Logo, ele foi destinado a outra tarefa, pois na maioria das vezes, as crianças não entendiam nada sobre o que ele falava. Colocaram-no na cozinha, onde limparia os animais caçados que serviriam para alimentar o povo. Foi lá que conheceu Ma, uma garota negra, de cabelos selvagens e um olhar tão doce quanto a cocada que fazia.

Foi a primeira amante de Leonardo e, junto dela, teve mais três, assim como elas tinham mais de dois amados cada uma. Aquelas pessoas fizeram Leonardo esquecer do futuro e da morte que o esperava. Pela primeira vez viveu sem fim, sem desfecho e sem dor no coração.

Não via que os anos passavam. Não reparou nos cabelos brancos e achou que o dente que caiu era por ter judiado demais com as castanhas que mordia sem cuidado. Mas, num dia em que cortava um coelho para o jantar, Leonardo sentiu uma dor no peito inesperada, como um golpe a facadas. Ficou com a vista turva e viu um vulto se aproximando bem lentamente, quando caiu duro no chão e foi acudido pelas pessoas ao redor.

No dia seguinte, acordou bem, mas com todas as pessoas curiosas, impressionadas por ter dormido tanto tempo. Depois de anos, Leonardo sentiu aquele cheiro novamente, o quarto estava empesteado com o aroma de girassol e isso indicava que a morte finalmente viera ao seu encontro, justo agora que queria distância dela.

Ele passou a ir todas as tarde nos morros onde pudesse ver o pôr do sol. Antes de dormir fazia amor com uma de suas amadas e comia uma ceia farta. Leonardo estava todos os dias preparado para morrer, mas ainda viveu muito, para ver os filhos crescerem e terem outros filhos. Viveu até os dentes todos caírem e as articulações fazerem barulho. Esperou em cada pôr do sol que a morte lhe buscasse enquanto fizesse algo de útil, enquanto a vida lhe parecesse infinita, refletida naquele vermelhidão que se formava em todo cair de tarde. Mas a morte, como fizera a vida toda, lhe pregou uma peça e tirou a vida de Leonardo enquanto estava sentado em uma das latrinas da aldeia e olhava para a mata fechada que se formava, sem nenhuma fresta de luz. Seu coração parou de repente, sem que ele sentisse nada que antecipasse a dor fulminante.

Leonardo foi a primeira pessoa a morrer naquela terra de ninguém. Ficou conhecido por deixar filhos magros e espertos, por desenvolver o melhor corte de carne já experimentado e por trazer o fim da vida.