As Cores do Concreto

São Paulo amanheceu iluminada, era o primeiro dia de outono e ela resolveu presentear as pessoas com um sol aconchegante, que refletia nos prédios perdidos no horizonte, e um ar gelado que só essa época do ano é capaz de soprar.

Já era oito e meia da manhã e Caio estava atrasado mais uma vez. Ele não entendia o porquê daquilo, era conhecido pela sua pontualidade, mas de um tempo para cá, cumprir seus horários passou a ser uma tarefa impossível. Hoje era um dia importante, não que os outros não fossem, Caio potencializava tudo que fazia, mas hoje, em especial, ele apresentaria o projeto que poderia mudar sua vida.

Olhou pela janela e, com o café na mão, observou os carros que se digladiavam lá embaixo. Caio tinha um amor por aquilo tudo. Nunca reclamou do trânsito, da violência ou da falta de estrutura. Nasceu ali no centro e nunca se mudou e nem se mudaria. Gostava de viver perto da praia e do interior, de ter em mãos infinitas possibilidades e se encantar com a diversidade, a mudança abrupta de cheiros, tempo e humor. Chegou a conclusão que esses pensamentos e devaneios eram os responsáveis por estar sempre atrasado.

Ele andava pensativo ultimamente. Pensava sobre tudo, o tempo inteiro, mas nunca chegava a lugar algum. Caio também era um romântico de nascença.

Pegou sua pasta e todas as peças que produzira na noite anterior para sua maquete, chamou um táxi e explicou a situação para o motorista, pedindo para que fosse o mais rápido possível.

-Tamo em São Paulo, amigo, não dá pra ir na velocidade que quero.

O trânsito estava mesmo de lascar e Pedro, o motorista, não ajudava com a sua dificuldade em enxergar as coordenadas que seu mapa lhe dava. Pedro tinha uma opinião radical sobre o uso de GPS, achava que obedecer a uma máquina era de uma estupidez sem tamanho. Mas com isso, as reclamações ao seu respeito só pioravam, mas ele se dizia um taxista tradicional. Seu banco tinha aquelas “capas” de bolinha de madeira para as costas e no retrovisor um bocado de coisas penduradas. A única novidade a qual se rendeu foi oferecer balas para seus passageiros, do resto, nada mais valia a pena aproveitar.

A discussão que se sucedeu de nada adiantou, Caio chegou atrasado e fez questão de gritar quando saiu do carro: “Por isso as pessoas usam Uber!”. Pedro não deu a mínima e esperou pela mulher que vinha correndo de longe e acenando. Ela puxava uma criança e gritava “Moço! Táxi! Moço! Me espera!”. Pedro ficou pensando na vergonha que aquela maluca passava e esperou sem misericórdia.

-Nossa, moça, não precisava gritar tanto, eu já tinha visto.

Samara estava ao telefone e não deu atenção ao velho, apenas lhe entregou o endereço em um papel amassado, tirou o peito para fora e começou a amamentar a criança de cinco anos, um garoto quieto e assustado, que não tinha disposição nem para fazer arte, cujo batismo o abençoou com nome de João.

Pedro tentou puxar assunto, enquanto Samara fazia um gesto mostrando que estava ao telefone, mas Pedro não ligou. Estava acostumado a falar e ninguém ouvir. Era velho, taxista e solitário, sua conversa não era importante para ninguém. Pedro sabia que não tinha voz, mas falava assim mesmo, sem pausa. Com esse vício, ele desaprendera a ouvir também e passava o dia indo para lá e para cá. Às vezes contando piada, às vezes xingando e reclamando sobre os petistas da cidade.

Enquanto ele falava sobre a mudança de velocidade da marginal, Samara lamentava ao telefone o fato da entrevista que fizera mais cedo ter sido um fracasso.

-A primeira pergunta que me fizeram era se eu tinha com quem deixar o João.

Ela parecia frustrada e cansada, mas muito bonita apesar de tudo. Bem, foi essa a forma que Pedro a interpretou no único segundo que resolveu olha-la pelo retrovisor.

No meio da corrida, ela assustou Pedro com um grito, pedindo que ele parasse em frente a igreja da Sé. Jogou trinta reais no banco da frente, sem nem perguntar se era suficiente e saiu do carro sem a esperança fiel de que algum santo lhe ajudaria.

Pedro tinha razão, Samara estava mesmo cansada. Já era a quarta entrevista dela naquela semana e nenhuma tivera um resultado promissor. Ela nunca tinha entrado naquela igreja e enquanto atravessava a praça, percebeu que tinha perdido toda a pressa de chegar em casa. Foi indo vagarosamente, no meio do caminho comprou pipoca para João e disse para ele correr atrás dos pombos. Abraçou-o tão forte que o fez reclamar de dor, mas mesmo assim ele devolveu um beijo doce na mãe.

Quando entraram na igreja, não tinha quase ninguém. Ela se ajoelhou bem no fundo e vivenciou um sentimento que a perseguia fazia tempo, a inconsistência na vida dela e a decisão entre se sentir estúpida ao rezar, ao mesmo tempo que culpada ao se sentir estúpida. Mas essa era a vida de Samara, uma confusão sem fim.

Um homem se sentou ao seu lado, ela não o teria percebido se não estivesse tão fedido. Quando ela olhou, ele levou um susto, pegou sua bolsa e saiu correndo como um maluco. Samara não correu, ficou olhando incrédula e voltou a rezar. Aquilo só podia ser castigo por duvidar de Deus.

Lá fora, o rapaz corria o máximo que podia com a bolsa, que tinha alguns poucos trocados, lenços umedecidos, carrinho hot wheels, uma garrafinha de suco e uma chupeta velha. Ele bebeu o suco e usou os lenços para limpar o rosto. Fazia tempo que não sentia aquele frescor na pele. Guardou o pacote huggies como se fosse um bem precioso e passou a usar um por dia, até que acabasse e ele começasse a roubar nas farmácias. Ele não conseguiria nunca mais viver sem lenços umedecidos.

Não tinha um nome certo, alguns o chamavam de Mussum e outros de Silvio, ele mesmo não se importava, atendia a qualquer um dos dois. Mussum, ou Silvio, era viciado em crack e ninguém sabia sua história. Alguns diziam que um dia fora rico e pomposo, outros que já nascera na merda. A coisa que Mussum mais gostava de fazer, além de fumar crack, era sentar em frente ao Shopping Light e assustar as pessoas com um grito estridente. Ele não gostava de roubar, mas o pudor era quebrado sempre que a abstinência batia de forma desesperadora, como no dia em que roubou a bolsa de Samara.

Toda quarta-feira era dia de visita lá no Vale do Anhangabaú. Era sempre o mesmo grupo de pessoas, aqueles poucos que sobreviviam ao mau cheiro, aos xingamentos e ao risco de serem atacados a qualquer momento. Augusto era dos quais sempre ia até lá. Ele gostava de falar sobre Deus e Mussum sentia uma raiva desmedida dele por isso.

“Que Deus vá para o diabo”, costumava gritar, mas Augusto não desistia. Ele era um homem de muita fé e um coração cheio de caridade. Depois que descobriu a obsessão de Mussum por lenços umedecidos, passou a levar um pacote toda quarta-feira, além doces que ele mesmo preparava e, claro, a palavras de Deus.

Quando ia embora, Augusto se sentia aflito, mas agradecido por ter uma vida tão abençoada, apesar de viver dentro da prisão que ele mesmo construíra para si. Era gay de nascença e hétero por imposição. Vivia sozinho na casa em que os pais deixaram e criava dois gatos velhos que achara na rua. Toda noite, ele se ajoelhava e pedia a Deus um pouco de coragem. Augusto teve o azar de nascer covarde, optou por se tornar invisível num mundo onde todos querem aparecer e nunca foi notado. Se um dia morresse, ninguém daria falta. Augusto viveria uma vida cheia de desgostos e não teria velório para ninguém se despedir.

Todo seu amor reprimido era dedicado aos seus gatos. Todo dia, quando Augusto saía para trabalhar, eles saiam junto. Ficavam andando pela vizinhança, sujando o quintal alheio e pulando pelos telhados. Os gatos já eram velhos, um não enxergava de um olho e o outro era aleijado de uma perna, mas ambos viviam satisfeitos sua dupla jornada na rua e na casa que dividiam com Augusto. Mas, num dia fatídico, enquanto os gatos corriam pela rua, foram surpreendidos com um carro que vinha cantando pneu. Eles foram atropelados e esmagados, sem qualquer chance de sobreviverem, o pobre Augusto não teria nem um corpo para enterrar e amargou aquela dor até o dia da sua morte.

Os vizinhos contaram os detalhes, disseram que o carro entrou na rua como um foguete e parece nem ter sentido que atropelara alguma coisa. Todos condenaram o dono do carro, chegaram até a anotar a placa, mas o que ninguém sabia é que quem o dirigia era um marido desesperado que levava às pressas a esposa em trabalho de parto.

Aquela gravidez tinha sido a coisa mais desejada na vida dos dois. Veio com muito custo e um risco monumental. Mariana tinha uma doença crônica e a chance de ter uma gravidez de sucesso era mínima. Passou meses de repouso, pois tudo valeria a pena para dar à luz, apesar dela sentir uma saudade imensa de caminhar na Paulista aos domingos, de comer pastel na feira e de ir ao cinema.

Mas tudo que importava era que, finalmente, tinha chegado sua hora e ela esperava ansiosa pela médica que estava atrasada. Apertava a mão do marido com exagero e lhe fazia suar até as nádegas te tanto nervosismo. A médica chegou cabisbaixa e fez o parto o mais rápido que pôde. Ficou aliviada de tudo ter corrido bem, não pelo interesse na saúde do bebê, mas por não estar preparada para lidar com mais frustrações naquela dia.

Ela tinha pedido o divórcio ao marido enquanto tomavam almoçavam. Não tinha um motivo específico, ela simplesmente não o amava mais. Não tinha nada de errado com o homem, mas ela entendeu que o amor acaba e aceitou sem resistência. O marido sofria uma dor desesperadora e mandava mensagens a cada minuto, conferindo se realmente não havia mais tempo para aquela história.

Quando o parto acabou, a médica saiu da sala e respirou profundamente, a primeira vez naquele dia. Acendeu um cigarro e sentiu novamente a liberdade dos vinte anos. Ela não queria sair por aí se relacionando com outras pessoas, não era disso que sentia falta. O que ela não queria mais era se preocupar com o cheiro que o cigarro deixava na roupa e como isso incomodava seu marido. Queria dormir atravessada na cama, deixar calcinha pendurada no registro do banheiro, maquiagem espalhada pela pia.

Naquela noite, saiu andando do hospital, resolveu deixar o carro e sentir o que noite poderia te oferecer. Começou uma garoa fina, refrescante e revigorante. Ela continuou andando na chuva, enquanto as pessoas andavam aceleradas do seu lado. Estava tão feliz em não pensar em nada, esquecer por alguns instantes o futuro, prestar atenção na própria respiração. Fazia quanto tempo mesmo que ela não ouvia seu coração bater? Ela não saberia responder.

Resolveu ir ao cinema, assistiu a uma sessão especial de “2001 — Uma Odisséia no Espaço” e lembrou como gostava de ver filme. A sala estava surpreendentemente cheia e, quando a sessão acabou, ela continuou sentada e caiu no sono enquanto via os créditos subindo. Foi acordada pelo garoto da limpeza, que perguntou delicadamente se ela se importava em sair da sala, pois ele precisava fecha-la.

Quando ela saiu, Samuel fechou as portas e foi direto para casa. Gastava sempre os mesmos quarenta minutos para chegar. Por mais que fosse longe, àquela hora a cidade estava vazia, exceto pelos bêbados nos finais de semana. Ele sempre voltava pensando sobre a vida, em como gostaria de virar gerente no cinema, comprar uns tênis da Nike e, quem sabe, um dia ter um carro.

Samuel queria muito uma namorada também, não tinha ninguém em particular, ora ou outra se interessava por umas meninas aleatórias, mas nunca dava em coisa alguma. Ele não queria um grande amor ou coisa assim, esperava transar constantemente e ter alguém para ajudar nos afazeres em casa. O garoto era bastante estúpido e não entendia como as meninas de hoje em dia não são mais dadas a lavar louça e provavelmente terminaria sozinho.

Samuel vivia em uma rua a qual não era prudente andar a noite, ele mesmo já fora assaltado algumas vezes. Mas não havia por onde escapar, aquela era a vida que dava para Samuel viver. Ele morava sozinho, num quarto e cozinha e nutria todos os dias um sentimento dolorido de solidão. Chegava em casa sempre no mesmo horário, comia miojo, alguns dias com ovo, dependia da época do mês, e jogava seu PlayStation 2. Caía no sono com tudo ligado e acordava algumas horas depois, com a música “ Deu Onda” tocando como despertador.

Na rua, àquela hora da noite, os concretos refletiam as luzes amareladas dos postes e reverberavam o vazio sufocante da cidade. A noite caía silenciosa, fria e sombria.