Carta sem Destinatário

Estou te procurando sem descanso. Meu cérebro exausto já perdeu o senso comum e todas as direções. As vielas estão cada vez mais estreitas e inclinadas, preciso parar um pouco para respirar, mas penso que não consigo mais fazer isso sozinha.

Estou esperando por você a tanto tempo que já perdi as contas, apalpando em meio a escuridão para ver se encontro seu contorno. Estou esperando por você mas não faço ideia de quem é. Eu quero tanto que divida os primeiros suspiros da manhã, mas não sei com quem você se parece e nem como é sentir seu cheiro. Gosto de te tocar e imaginar que você está sentado diante de mim enquanto escolhemos onde será nossas próximas férias, mas não sei qual a cor da sua pele ou do seu cabelo. Na foto que tirei de nós, você ainda é apenas uma sombra, que se move através de uma tempestade sem fim e marca minha memória como uma profunda cicatriz.

Espero você aparecer abruptamente, tirar-me do escuro, devolver-me minha respiração, minha capacidade de ser uma pessoa decente. Espero que você me faça perder a cabeça e que tome o controle de tudo. Passou da hora de me transformar numa maluca, esquecer de mim mesma por um instante e me curar de tudo quando te olhar no final do dia.

Arranjarei lençóis novos e uma cama maior. Comprarei uma escova de dente extra e mais toalhas de banho. Deixarei o café quente, o filme no ponto e o aquecedor ligado. Seu livro estará com suas passagens prediletas marcadas e seu chocolate inglês te esperando sobre a cabeceira.

Agora, só me resta saber seu nome e endereço e assim poderei te dizer “boa noite” antes de cair no sono.