Trem para Nova York

Essa história aconteceu com a irmã da prima de uma amiga. Assim mesmo, num grau tão distante que nem cheguei a conhecer a fulana, mas sei da história dela tão bem como se fosse minha, por isso vou contar em primeira pessoa (também porque quero causar um pouco de confusão).

Era uma manhã de um domingo ensolarado, mas fazia um frio danado. Eu vestia um casaco cinza claro que ia até o meio da coxa, uma saia curta e justa, meia calça e uma bota preta que cobria meus joelhos. Eu tinha me arrumado para pegar o trem que me levaria até Nova York. Naquele momento eu ainda não sabia, mas eu nunca colocaria os pés naquela cidade.

Quando eu entrei, estava me sentindo num expresso do Wes Anderson, indo direto para Índia. A simetria era perfeita e a excentricidade se dissipava no ar, senti até cheiro de incenso. Escolhi um lugar onde não tinha ninguém do lado, pelo menos era o que eu achava até o dono do assento simplesmente brotar da cadeira, o que não foi nada terrível, porque o cara era um partidão.

O choque bateu logo de cara, mas veja, isso não é tão extraordinário e mágico como parece, ele era do tipo que desperta isso em qualquer ser humano provido do mínimo de bom senso.

Por sorte, já puxou assunto e nos tornamos íntimos num piscar de olhos. Só uma informação aleatória, não sei porque cargas d’agua ele falava português, pois nem brasileiro era, na verdade, não lembro exatamente das palavras dele, mas fui capaz de interpretar todas as intenções.

As conversas iam e vinham, assim, de maneira despretensiosa, com uma pitada de fingimento, porque o descaso que estava rolando não era real. Falamos sobre tudo, como se o tempo não fosse acabar, discutimos sobre relacionamentos, falamos sobre sexo e a possibilidade de nos mudarmos para Marte.

Descobri que além do rosto bonito ele tinha muitas peculiaridades. Veias saltadas nas mãos e unhas perfeitamente cortadas, um jeito meio idoso de ser, sabe quando o avô cruza as mãos em cima da barriga e gira os dedões como que para passar o tempo? Assim mesmo…além do fato de arrumar o cabelo para atrás da orelha de forma meticulosa, mesmo que não houvesse fios fora de ordem. Reparei também em como ele apertava os olhos quando ria de verdade e como o som da risada me dava vontade de rir também, mas minha risada, não sei porque, simplesmente não saía. Okay, bizarro, certo? Sei que me perdi em devaneios, não é bem essa parte da história que quero contar, mas se você visse entenderia o que quero dizer.

O rapaz tinha um tipo loiro, mas era moreno, tinha pinta de altão e forte, mas era na medida muito exata, meu número eu diria. Tinha as mãos mais perfeitas que já vi, se deus existe, com certeza foi ele quem fez. Ahhh já ia me esquecendo, os dentes, tinha dentes maravilhosos.

Todos esses fatores juntos me deixaram desorientada e comecei a soltar meus pensamentos grotescos em voz alta. Pedi para ver a barriga dele, e percebi que estava até disposto, não fosse o cara aparecer bem na hora para cobrar o ticket de embarque, lembro que não entendi nada do que ele disse, não falava inglês e nem português, talvez fosse alguma coisa em chinês ou então aramaico. Enfim, não é bem isso que interessa…onde mesmo eu estava? Ah sim, na minha falta de bom senso. Deixei escapar elogios sem fim, de como ele era bonito e parecia inteligente e terminei dizendo que queria mesmo o telefone dele. Ele falou da minha nuca e do meu cabelo, disse também como me achou elegante e espontânea. Mas não saiu disso. Depois de tanta conversa, eu percebi que daquele mato não sairia cachorro, nem dos mais esfomeados.

Mas era tarde demais, eu estava tão apegada como se não houvesse outro homem no mundo (claro que seria difícil achar um igual aquele, mas a flexibilidade e tolerância servem pra que afinal de contas?).

Comecei a arrumar desculpas para me encostar nele, que por fim colocou a cabeça no meu ombro e eu aproveitei para fazer carinho no seu rosto. “Que homem!” pensei em voz alta de novo, mas suspirando fundo como fazem as adolescentes.

Ainda tivemos tempo para ele me contar sobre o que esperava da vida, disse como procurava pela profundidade e sensibilidade no mundo e do seu amor ao trabalho. Sei que parece muito, mas ele era artista também, não precisou de muito esforço para me conquistar.

Sem mais nem menos, desse mesmo jeito que começo esse parágrafo, ele interrompeu a conversa e levantou sem dizer qualquer coisa. Pegou na minha mão e fomos até o fim do vagão, que estranhamente estava vazio. Quando abriu a porta, me encostou na grade e eu senti o sol quente batendo no meu rosto, era como se eu estivesse naquela cena do elevador de “Drive”, quando o Ryan Gosling beija a garota. Eu sabia que miolos não seriam estourados logo depois, mas pude até ouvir “Nightcall” tocando. Era como se tudo estivesse em câmera lenta, ele não encostou as mãos em mim e quando estava tão próximo do meu rosto, que eu nem pude mais ver seus olhos, senti um chacoalhão:

-Moça, desencosta, você está babando.

O trem ia para Guaianases e não Nova York, o calor estava de matar e o cheiro provava que o verão tinha chegado com vontade e o mano que estava do meu lado não chegava nem perto do rapaz de mãos bonitas…

-Puta que me pariu, mas tinha que me acordar agora!