Velhice Precoce

Ainda eram seis horas da manhã quando Cora ligou desesperada para sua melhor amiga.

-Preciso te encontrar agora, você não tem ideia do que aconteceu.

-Quem tá falando ?— disse sua amiga com a voz rouca de quem foi acordada.

-Ué, a Cora.

-Como assim “ué”? Você sabe que horas são?

-Sei, mas é urgente.

Depois de trinta minutos as duas se encontraram em um café no meio do caminho da casa de ambas. A amiga de Cora ainda vestia pijamas e chinelos com meias.

-O que houve? — perguntou sem qualquer entusiasmo.

-Você não notou nada diferente em mim?

-Não.

-Como assim? somos amigas desde que me conheço como gente.

-Desculpa, são seis da manhã de um DOMINGO. Aliás, o que você tá fazendo acordada?

-Essa é outra história, bem menos importante. Olhe bem para minha cara, nada diferente?

-Cora, desembucha.

Cora pegou um espelho na bolsa e começou a vasculhar entre seus fios de cabelo, até que gritou:

-Aqui!!! Olha isso!!

-Meu deus, o quê?

-Você não tá vendo esse fio branco?

-Todo esse drama é só por causa de um fio branco?

-Como assim é “só”? Este já é o segundo que me aparece em menos de um mês, o primeiro não tive coragem de contar a ninguém e para quem mais poderia contar sobre o segundo?

-Talvez pro seu terapeuta.

Mais tarde na análise.

-Dr., já é o segundo que me aparece e também começo ver sinais de algumas rugas quando sorrio e sabe aquela pelanca debaixo do braço? Está assustadora.

-Você tem algumas alternativas: Arranque o cabelo branco enquanto é só um, depois, se isso realmente te incomodar, o mundo tá aí para te fornecer as mais variadas cores. Quanto às rugas, minha mulher vende cosméticos, vou te dar o telefone dela, mas uma coisa te adianto, não pare de sorrir por isso, a testa franzida de gente rabugenta aumenta ainda mais as marcas. Já para as pelancas, posso te indicar ótimas academias.

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