Capitólio e o quase extinto cinema de rua

No Centro Histórico de Porto Alegre, Cinemateca Capitólio pretende virar espaço da cultura audiovisual

Texto publicado no Unicos.cc em 8 de abril de 2015

Visão do Capitólio a partir da Borges de Medeiros (Foto: Ariane Laureano)

O zunido enfurecido de carros e pedestres descendo e subindo a Borges de Medeiros, uma das avenidas mais movimentadas de Porto Alegre, permanece indiferente ao ar de imponência do prédio histórico pintado de vermelho alaranjado, na esquina com a Demétrio Ribeiro, onde, após mais de duas décadas, é possível notar um entra e sai sutil de pessoas.

Desde que a Cinemateca Capitólio foi inaugurada no dia 27 de março, após sucessivos adiamentos, olhares curiosos vasculham pelos quatro andares do prédio em busca de histórias dos dias em que o cinema recebia milhares de pessoas, além de novidades trazidas pela mais recente reforma promovida pela prefeitura da Capital.

“Eu vim reconhecer, e ela veio conhecer”, diz Cristiane Diel Fontoura, 44 anos, de braço dado com a filha Lara, 10 anos. Moradora de São Leopoldo, Cristiane frequentava as sessões do Capitólio na juventude, quando ainda residia em Tenente Portela e passeava aos finais de semana pela Capital. “É antigo, é diferente”, observa Lara, que pela primeira vez conheceu um cinema que não funcionasse dentro de shoppings.

O Capitólio, que já recebeu o nome de Cine-Theatro Capitólio em 1928, data de sua fundação, e foi renomeado de Cine Premier nos anos 60, tem uma característica talvez imperceptível no passado, mas que se sobressai nos tempos de hoje: é um cinema de rua, um dos poucos em atividade no Brasil.

Situado no Centro Histórico de Porto Alegre, ele faz parte de uma época em que, para assistir a um filme, era preciso botar o pé na rua, pegar ônibus, enfrentar fila e dividir gargalhadas e suspiros com centenas, às vezes milhares de pessoas. Após sua ascensão e queda na década de 80, quando as fitas VHS e os vídeo cassetes popularizaram o conforto do filme em casa, o cinema cuja sala oferecia 1.295 lugares foi fechado em 1993 e no ano seguinte comprado pela prefeitura, que deu início a uma fase de valorização e restauração do prédio que terminou somente no final de 2014.

Ou, mais precisamente, na noite de estreia da atual Cinemateca, assim que os novos projetores começaram a exibir o curta gaúcho “Início do Fim”, filmado em suas dependências.

“Foi uma loucura, saímos daqui rengueando”, conta a bilheteira Sandra Coelho da Rosa a respeito das atividades dos funcionários durante o final de semana da reinauguração, quando o público lotou a sala reformada e reduzida a 164 lugares para conferir, além do curta gaúcho, os clássicos “A Doce Vida”, de Federico Fellini, “o Leopardo”, de Luchino Visconti e “Alphaville”, de Jean-Luc Godard. Diante da perplexidade da repórter, Sandra explicou: “Ficamos com as pernas bambas de tanto correr pra lá e cá”, disse.

Posteres dos filmes exibidos na reinauguração do Capitólio (Foto: Ariane Laureano)

Assim como Sandra, os funcionários recém-contratados demonstram entusiasmo em trabalhar num prédio que foi considerado patrimônio histórico de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul nos anos de 1995 e 2007, respectivamente. “Aqui a gente faz parte da história”, orgulha-se o porteiro Setembrino Peixoto de Almeida. “É muito diferente trabalhar aqui do que nos shoppings, onde em volta é tudo loja ou lancheria”, destaca a projecionista Angela Brodt, que há 22 anos atua em salas de cinema de Porto Alegre e região.

Comparar o Capitólio com as salas de cinema de shoppings é inevitável, já que a maioria dos cinemas está confinada dentro desses grandes centros de compras. De acordo com dados da Agência Nacional de Cinema (Ancine), apenas 13,86% das quase 2.500 salas espalhadas por todo o Brasil são consideradas cinemas de rua. Mas fazer essa assimilação é também uma forma de resgatar a importância de um cinema que, embora tenha sido constantemente ameaçado pelas novidades da tecnologia — e, muitas vezes, sucumbido a elas — encontrou força para renascer.

“No início dos anos 90, treze salas de cinema de rua fecharam num único dia em Porto Alegre”, conta Marcus Mello, coordenador de Cinema, Vídeo e Fotografia da Secretaria Municipal de Cultura. De acordo com Mello, além da popularidade do VHS, a degradação desses espaços foi impulsionada por um fator que faz parte da vida moderna: a violência urbana.

Desocupado, segundo andar do prédio deverá abrigar uma cafeteria (Foto: Ariane Laureano)

Moradores celebram reativação do Capitólio

Nem todos os porto-alegrenses se motivam a encarar uma sessão de cinema em shoppings, seja porque não gostam desses lugares ou porque não aceitam uma programação considerada comercial. A artista plástica Vitória Campello, 26 anos, que mora na rua Demétrio Ribeiro, é uma dessas pessoas. Ela não frequenta cinemas justamente pela localização deles, e acredita que a população mais idosa, que viveu os tempos áureos do Capitólio, é a que mais se beneficiará com sua recuperação. “Essa retomada de cinemas de rua acaba trazendo gente por uma questão de memória. É outra forma de se relacionar com o cinema. Pessoas mais velhas que vinham aqui em outras épocas vão retornar”, diz.

Encostada na entrada principal do Capitólio, aguardando pelo início da primeira sessão de filmes do dia, Vitória diz perceber que a reativação do cinema já provocou mudanças na região. Uma delas é a sensação de segurança transmitida à noite pelas luzes acesas do prédio. “Chego em casa e acho mais tranquilo passar por aqui. Essa esquina já é outra em menos de cinco dias”, observa. Proprietário do Onze e Meia, restaurante que fica em frente ao Capitólio, Sérgio Luis Silveira Correa, 60 anos, se depara com o prédio todos os dias há quarenta anos, e ainda se recorda do primeiro filme que assistiu ali, chamado O Preguiçoso. “Há muito tempo que eu parei com o cinema”, diz, quando questionado se costumava ir a shoppings para assistir filmes.

Embora considere que a reativação do Capitólio não trará lucros extras a seu restaurante, já que o Onze e Meia funciona apenas ao meio dia, como morador da Demétrio Sérgio acredita que o funcionamento do cinema influenciará positivamente na região. “O Capitólio melhora o bairro, valoriza ele. Melhora o visual também”, opina, acrescentando que, na época em que o prédio permanecera fechado, moradores de rua tomaram conta da fachada. “Era muito sujo, um visual horrível para quem estava sentado aqui, almoçando”, diz.

Mas a retomada do Capitólio não é acompanhada apenas de entusiasmo. Críticas e dúvidas também passam pela cabeça de quem reside próximo ao cinema. Há quarenta anos morando na Demétrio, o casal Giusepe Cappelli, de 80 anos, e Maria Cappelli, de 77 anos, dizem que, se comparados aos shoppings, os cinemas de rua têm a vantagem de não cobrar estacionamento. Porém, observam que a área em torno do Capitólio não recebeu a atenção que um espaço de sua envergadura merece. “Uma coisa eu notei: deveriam ter lavado as calçadas”, sugere Maria, ressaltando o cheiro de urina que emana dali. “Se não tiver segurança 24 horas, em breve a fachada estará demolida”, opina Edelberto Palma, de 77 anos, que mora em uma rua próximo a Borges de Medeiros. Economista aposentado pela Petrobras, empresa que através da Lei Rouanet patrocinou a primeira fase de reformas do Capitólio, Edelberto é convicto na ideia de que um shopping dá mais segurança do que um cinema de rua, e alerta que os investimentos feitos para a retomada do Capitólio devem ser valorizados. “O Capitólio precisa de segurança permanente, principalmente para as pessoas que irão frequentá-lo”, reforça.

Prefeitura deseja fazer do Capitólio centro de atividades audiovisuais

Além da sala de cinema, a Cinemateca Capitólio conta com um acervo de 6 mil filmes, biblioteca com cerca de 300 livros, salas de pesquisa, exposições e multimídia, onde grupos de pesquisadores e estudantes de cinema poderão se debruçar para estudar a sétima arte. As conquistas resultam da ambição da prefeitura de Porto Alegre e de amantes do cinema em fazer com que o prédio de quatro andares com 87 anos de vida se torne ponto de referência da cultura audiovisual no Rio Grande do Sul.

“Acreditamos que o próprio fato de existir uma cinemateca vai fomentar a criação de cursos e a cultura do cinema”, diz Marcus Mello, acrescentando que a programação dará prioridade a filmes que não estejam em exibição nas grandes salas da Capital. Para o coordenador, embora parcela da população porto-alegrense resista em aderir ao Capitólio, a retomada de suas atividades impulsionará a vida cultural de Porto Alegre. “O Centro costuma ser pouco habitado. Agora, ele passa a ter vida”, completa.

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