Coletivo fala de vida e injustiças no Complexo do Alemão

Grupo de ativistas faz comunicação com moradores e supre lacuna deixada pela imprensa

Texto publicado no Unicos.cc em 27 de abril de 2015

Uma reportagem do New York Times divulgada em fevereiro deste ano fez uma revelação que deveria ser constrangedora para o Brasil. Produzida no Complexo do Alemão, Rio de Janeiro, a matéria retrata a atuação de um coletivo de comunicação que usa as redes sociais para alertar o país sobre a rotina de uma comunidade atravessada por troca de tiros e mortes descontroladas, resultado da guerra entre traficantes e policiais das UPP’s.

Com o título “A mídia não se importa com o que acontece aqui”, na verdade um desabafo de um dos integrantes do coletivo, a reportagem do jornal americano denuncia além da violência que vitimiza uma parcela menos favorecida da sociedade, que o jornalismo brasileiro abandonou essa população à própria sorte.

“A imprensa só aparece quando tem guerra”, reforça Lana de Souza, 25 anos, moradora do Alemão e estudante de Jornalismo. Ela reclama do sumiço da mídia quando há eventos culturais na comunidade ou mesmo da falta de hábito dos jornalistas de ouvir os moradores quando há confronto com a polícia.

Lana é uma dos oito integrantes do Papo Reto, o coletivo retratado pelo New York Times. Assim como seus colegas, quer deixar claro ao maior número de pessoas que a morte de inocentes como o menino Eduardo de Jesus Ferreira, 10 anos, assassinado no dia 2 de abril por um policial enquanto brincava perto de casa, já virou regra na favela. “Pedimos educação, e o governo dá mais polícia pra gente”, lamenta Lana, que em 2011 foi recrutada para participar de um projeto da Rede Globo, onde teve a oportunidade de mostrar a realidade no Alemão e se apaixonar pelo Jornalismo.

Na sede do coletivo, Lana (D) se reúne com demais integrantes para elaborar ações (Foto: Victor Ribeiro)

Falar sobre a vida na favela superando estereótipos de uma cobertura que busca registrar apenas o crime é um dos objetivos do Papo Reto. Para fazer a ponte entre o Alemão e o resto do Brasil, o grupo criou os quadros Retrato Falado e Papo de Morador, ambos em fase de desenvolvimento, onde os moradores são convidados a contar quem são e o que fazem ali, recebendo atenção digna de personalidades da mídia. Já o O Tal do Ao Vivo é um encontro presencial entre entusiastas do funk carioca, transmitido pela internet, onde se canta e se reflete sobre a música que nasceu na periferia e caracteriza seu cotidiano.

A abertura dada pelo coletivo para mostrar a semelhança do Alemão com qualquer bairro onde viceja vida humana é uma maneira de fazer com que a comunidade sinta-se representada, mas também um reforço dos laços que unem o grupo aos moradores. Como a maioria dos integrantes atuou em movimentos sociais, é comum que eles também se ofereçam para auxiliar a população em momentos difíceis. “É uma relação de igual para igual com a população, é de morador para morador”, define Lana, reconhecendo que o coletivo vai além do mero relato jornalístico e se preocupa em agir de forma efetiva na favela. “As coisas se misturam entre militância e comunicação. A gente não tem essa visão de ser imparcial, não. A gente é parcial e está do lado do morador”, diz.

A relação entre o coletivo e a comunidade procura ser tão estreita quanto imediata. Quando o assunto muda para a injustiça e a violência que acometem a favela, um grupo no Whatsapp facilita a comunicação e ajuda que o pessoal do Papo Reto chegue mais rápido ao local do conflito. Vistos perambulando pelo morro com câmeras e celulares na mão, não é raro que os ativistas recebam intimidações da polícia. Segundo Lana, o medo de que algo os aconteça é frequente, mas não pode barrar a necessidade de fazer justiça. “Sempre que estamos na rua, temos esse medo. Mas a gente não tem a opção de voltar atrás. A gente não vai se omitir”, declara.

Assista ao vídeo feito pelo fotógrafo e cinegrafista do Papo Reto Carlos Coutinho, onde ele é impedido e ameaçado por policiais durante gravação:

Suporte e capacitação melhoram desempenho do grupo

Os vídeos do Papo Reto chegaram até uma organização de direitos humanos nos Estados Unidos, a Witness (“Testemunha”, em português), que há mais de vinte anos viu na crescente ascensão do uso do celular uma utilidade voltada para fins sociais: que o aparelho registrasse não apenas cenas do cotidiano, mas casos de abusos e injustiças. Fundada pelo cantor Peter Gabriel, ex-integrante da banda Genesis, a Witness foi criada para ensinar as pessoas a gravar vídeos de forma crítica, garantindo que violações pudessem ser denunciadas e comprovadas judicialmente.

Jornalista brasileira radicada em Nova York, Priscila Néri, 35 anos, é membro da organização e acompanha situações de infração de direitos humanos no Brasil desde 2010, quando o governo iniciou os despejos urbanos para dar passagem às obras da Copa do Mundo. Com a atenção voltada para seu país de origem, assistiu aos excessos cometidos pela polícia durante os protestos de 2013, através da avalanche de vídeos gravados pelos manifestantes. Daí surgiu o desejo de se envolver mais profundamente com o tema.

“Era importante que a violência policial não ficasse restrita aos protestos”, disse Priscila, referindo-se a necessidade de buscar vídeos que mostrassem a polícia agindo impunemente em outras situações. Encontrar casos onde tal agressão fosse exercida inclusive com certa permissividade não foi tarefa difícil. “Em nosso país, a violência é historicamente praticada nas periferias. O buraco sempre foi mais embaixo”, reconhece.

Priscila Néri (fundo) visitou sede do Papo Reto e deu orientações sobre uso da câmera (Foto: Victor Ribeiro)

Depois dos primeiros contatos com o Papo Reto, o coletivo recebeu orientações da Witness sobre uso adequado da câmera durante ações policiais na favela e também sobre segurança física, tanto a deles quanto a dos moradores. Segundo a jornalista, hoje o coletivo leva em consideração detalhes importantes antes e depois das coberturas, como o risco de expor um morador que futuramente pode sofrer ameaças.

Em relação à preservação dos próprios integrantes, Priscila considera que a opção que fizeram de exibir à sociedade suas verdadeiras identidades funciona como tática para garantir que nada de ruim os aconteça. “Isso (de se expor) não vai diminuir a ameaça que recebem no dia a dia. Mas vai dar um recado ao outro lado: ‘se vocês fizerem algo, tem gente de olho”, examina, acrescentando que assumir o desafio de divulgar um vídeo que denuncia a tirania policial é uma das únicas alternativas que resta aos moradores da favela. “Num caso como o do Alemão, onde a população não tem nem direito de ir e vir, usar o vídeo é uma questão de sobrevivência. É a única ferramenta pacífica que eles têm”, diz Priscila.

Confira o fan page do Coletivo Papo Reto e o site da Witness, onde é possível encontrar diversos tutoriais sobre uso da câmera em situações de risco.

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