Sem fama nem anonimato

Desci do ônibus na parada da Érico Veríssimo, em frente ao Teatro Renascença. Era segunda-feira, nove e meia da manhã, véspera de feriado. A redação estaria vazia, praticamente parada.

Mal havia pulado do ônibus e colocado os pés na calçada quando, do outro lado da rua, vi um senhor por volta dos 70 anos sorrir e abanar para mim. Ao ver que eu atravessava a rua em sua direção, ele parou para me esperar, braços cruzados atrás das costas.

- Viu como ficou a nossa rua? Agora colocaram iluminação de LED. De noite, parece dia — disse, os olhos voltados para cima, admirando os postes de luz.

Era a primeira pessoa que me dirigia a palavra naquela manhã. Meu humor ainda estava, como posso dizer, virado pra dentro. Eu nunca tinha visto aquele rosto antes, e mesmo agora não me recordo da fisionomia daquele senhor. Não prestei atenção no que dizia, porque não entendia a razão de estar falando comigo. Ele tinha me pego de surpresa.

- O senhor não está me confundindo com alguém? — perguntei, enterrando o Ray-Ban no nariz.

- Ué, tu não é jornalista? — ele me devolveu, como se fosse uma óbvia constatação.

Com a humildade que os estudantes têm em não se reconhecerem profissionais, respondi:

— Sou estudante de jornalismo .

Eu estava contrariada. Recém havia começado na profissão, trabalhava na frente do computador todos os dias, escondida atrás dos textos, que sequer levavam meu nome. Eu era uma estagiária. Não tinha fama nem reconhecimento pra ser identificada na rua dessa forma. Mas o senhor, como se já soubesse quem eu era, e como se o fato de eu ser do jornalismo justificasse a abordagem inusitada, seguiu falando da iluminação na Érico Veríssimo.

Pedi que me explicasse o problema mais uma vez. Mesmo sem entender seu comportamento, fiz um esforço pra entender seus motivos. Ele repetiu: quando a noite chegava, a Érico Veríssimo caía no breu. Recentemente, talvez na semana passada ou apenas um dia antes, a prefeitura instalou lâmpadas de LED. A noite ficava parecendo dia. Ele estava satisfeito.

Atravessamos a rua a passos lentos, ele falando e eu apenas ouvindo, repentinamente imbuída da função de repórter. Quando chegamos à calçada, eu já andando em direção à Ipiranga, demos as costas um para o outro. As últimas palavras que ouvi ele dizer eram que cerca de sessenta lâmpadas haviam sido instaladas. Agora, a rua estava devidamente iluminada.

Revirei a memória pra checar se realmente não conhecia aquele velho. Alguma entrevista? Uma matéria sobre iluminação? Talvez por telefone? Alguém conhecido da redação? Nada. Como, então, ele havia me identificado? Nem o crachá da empresa eu estava usando.

Olhei pra minha roupa. Talvez o modo como eu estava vestida me fazia parecer jornalista. Blazer preto, calça jeans, All Star, Ray-Ban… Bobagem, não existe um estereótipo, e os cincos meses na empresa, vendo jornalistas vestidos de todas as formas, me fizeram descartar a possibilidade. Subi as escadas do prédio, passei o crachá na catraca, esqueci a situação.

Três horas da tarde, fim do expediente. Na mesma parada da Érico Veríssimo tomei um ônibus em direção ao Centro. Sentei no primeiro banco logo depois do cobrador, na fileira de assentos atrás do motorista. Fiquei de frente para um senhor, esse também na casa dos 70 anos. Nossos joelhos quase se tocavam. Acomodei a bolsa, ajeitei no colo dois jornais e uma revista, pendurei o guarda-chuva numa alça do ônibus. Mirei a janela.

- Não vai esquecer — disse o senhor, indicando o guarda-chuva.

Murmurei algo como “pois é, vida difícil, tô sempre cheia de coisas, posso esquecer”. Não demorou pra que ele fizesse a pergunta:

- É jornalista?

- Sou estudante de jornalismo — respondi, definitivamente intrigada com a facilidade das pessoas em reconhecer essa maldita profissão.

Não podia ser pela aparência. Eu havia tirado o blazer, meu cabelo estava bagunçado, tinha cara de cansaço e seguia sem o crachá da empresa. Sempre fui mais desleixada que as colegas da redação e mesmo as da faculdade. Nunca colocava salto, nem mesmo um baixinho, e jamais usava maquiagem. Não tinha, portanto, aparência de jornalista. Pelo menos não aqueles da TV.

A revista e os jornais que levava comigo também não serviam de argumento. Todo o dia, no trem ou no ônibus, via senhores carregando seus jornais debaixo do braço. Não é só jornalista que lê.

Eu reiniciava o dilema, mas o senhor na minha frente não parecia ter dúvidas. Imediatamente à minha resposta, começou falar da falta de segurança nas cidades, do governo, na paixão que o povo nutre pelo PT, e que, embora concorde que o partido havia feito algo inédito pela população, era muita roubalheira…

— Teus filhos, talvez, vão viver num mundo melhor — ele me disse.

Afundada no banco e com a identidade revelada, mais uma vez eu era imbuída pelos outros da tarefa de ouvir. Sem escapatória, cedi à missão. Virei ouvidos.

O senhor seguiu o monólogo dizendo que não adiantava colocar policial na rua pra controlar os bandidos, nem erguer mais presídios. O que faltava às pessoas era educação.

- No fim, o Brizola tinha razão — considerou.

O ônibus parou na Salgado Filho. Levantei, fiz menção de dar passagem para o senhor. Ele negou com um “por gentileza”, estendeu o braço e me deixou passar na frente. Antes de descer, ouvi ele abordar um idoso sentado na fileira de assentos ao lado da nossa. “Parece que te conheço de algum lugar…” Eles iniciaram uma conversa.

Pulei na calçada com a sensação de ter vivido uma história de ficção. Algo estaria fazendo com que as pessoas identificassem jornalistas? Basta que a gente ande na rua pra ser atingido por um zilhão de reclamações? Seremos ímãs involuntários dos problemas do mundo? Nossa privacidade vai ser aviltada o tempo todo para sermos convocados a ouvir sobre política, economia, buraco de rua, problemas de iluminação, o PT?

Imaginei que as pessoas, de agora em diante, reconheceriam jornalistas a torto e a direito. Não esses jornalistas que se misturam com os famosos e acabam criando fama, ou mesmo os que são premiados e ganham admiração. Mas os que fazem o feijão com arroz de todo o dia, alimentando o mundo com informações básicas, cutucando o poder, cobrando a solução de pepinos.

Seríamos abordados na rua para ouvir as queixas, difamarem os políticos. Seríamos sem fama, mas também sem anonimato. Não iríamos mais atrás das pessoas para fazer notícias e reportagens — elas nos identificariam e nos convocariam para resolvermos seus problemas. Ou somente pra falar do PT. Imaginei pessoas agarrando jornalistas, as mãos subindo pelo pescoço do repórter, as unhas afundando na pele, “nos dê uma solução, uma opinião que seja…”

O lema “a serviço da sociedade” nunca me pareceu tão assustador.

Desci a Borges de Medeiros sentindo o cheiro enjoativo do mijo, do cachorro quente da esquina, ouvindo os vendedores ambulantes gritarem suas ofertas. Negros, brancos, pobres, crianças indígenas engatinhando debaixo das marquises. O dilema latino-americano resumido na região central de uma metrópole.

No meio da multidão que se acotovela por queijo, mortadela, pasta de grão de bico e outras iguarias nas bancas do Mercado Público, desapareci. O resto da minha vida e o que eu faria dali por diante já não importava. Já havia cumprido minha função.

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