“Uma Teoria da Ação Coletiva”

Mesquita, 27 de abril de 2016

Há um tempo atrás um sociólogo americano propôs estudar arte por uma nova perspectiva não a partir das instituições e sistemas, como vinha sendo até então, mas através de sua cadeia de produção, como uma forma de ação coletiva. Imagine uma correlação de interações, tanto na construção da obra quanto no seu consumo. Para que haja, por exemplo, um concerto musical, existe toda uma cadeia que envolve a produção do evento: instrumentos, composição, espaço físico, divulgação, há o público que precisa ser capaz de ouvir e entender.

Pensar a arte como uma rede de cooperação é pensar que ela não existe por si só, mas que precisa de ações de outras pessoas para tomar forma. Todas as coisas que constituem elemento material para a produção de outra envolve a ação coletiva. Seja diretamente ou indiretamente. A tinta que o artista compra na loja da esquina de sua casa, o dono da loja que escolheu os tipos de cores adequadas sua comercialização, o dono da fábrica que sintetizou as cores em tubos de tinta, a fábrica que fez o tubo a tampa, a ciência por trás da conserva da tinta e da fábrica, o homem isolado na natureza esculpindo nu na madeira com pedra, o parto que trouxe o homem a terra e as mãos que o criaram. Não existe arte sem ação coletiva. Não existe individuo por si só em um ponto desconexo.

Dividimos funções, tarefas e o trabalho. E a função do artista é imprimir elementos avivados em sua imaginação e transforma-los em artificial: impressões de padrões não-naturais sobre a forma. Quando um pintor escolhe as tintas para a composição de um quadro, a luminosidade que ela deve ter, o tipo e tom de cor em escala que procura, ele depende, antes de mais nada, de uma impressão sintética das cores do mundo a qual a técnica (ciência) foi capaz de produzir. Formando uma rede elaborada de cooperações, que participa ativamente do processo de produção de arte.

As ferramentas utilizadas na construção artística são físicas: tinta azul, sintetização química do céu, da água, fabricada em máquinas; e virtuais: criação do ser humano para construir novos olhares sobre o mesmo céu e o mesmo oceano que vê. O virtual é o real em latência, vimos nas obras realistas exprimirem o real como ela é. Mesmo que sobre uma perspectiva, luminosidade específica, o olhar único do artista, o domínio de todas as técnicas que o permitem chegar ao resultado final. As câmeras fotográficas refinam a técnica de captação da luz a sensibilidade do olho humano e o fotografo, posiciona seu olhar a virtualização da mesma imagem que vê, peculiar ao seu ângulo e luminosidade do momento.

Pela perspectiva da realidade do ciberespaço: um ambiente, criado a partir do domínio da eletricidade, luz que incide no vidro, múltiplas cores, placas verdes, fios e mais fios, só se tornou possível pelos elos cooperativos. O domínio da técnica sobre o equipamento permitem apresentar nas telas algoritmos (fórmulas matemáticas) que produzem imagens coloridas (e possivelmente em movimento).

Mas, o que difere uma obra realista e uma fotografia digital? O que difere o meio digital (essa máquina criada para ser extensão do nosso corpo em potencial) da mais bela pintura em um museu? Se ambas foram produzidas a partir do domínio da técnica sobre um objeto, imprimindo de artificialidade uma imagem quase real? O homem que pinta a tela, a máquina que facilita o trabalho. A máquina criação do homem, a tela e a tinta também. A máquina domina a luz criando cores, a tinta domina elementos da natureza formando as mesmas cores. Tinta é matéria e luz também.

Música, pintura, escultura, o grafite nas paredes das ruas do centro da cidade, as frases pichadas em meio ao caos e aquela velha fotografia guardada na gaveta embaixo dos livros, escondida como um grande segredo. A mensagem insiste em chegar, o celular fonte de toda a luz e cores, a fotografia que aparece na minha tela sem papel. Comunidades, grupos, gente e mais gente produzindo a partir da produção de alguém. Um programa criado inspirado em outro programa, que só foi possível por causa de um software, que roda em um equipamento. Há tanta humanidade em um a só ação e a tanta ação em um só homem que é difícil dizer quem sou eu, só eu, em meio ao mar borbulhante de gente. Tudo me toca, tudo me identifica, tudo faz parte de mim, o mundo vai girando suas grandes engrenagens. Eu sou uma peça movida de tempo, carregando e transmitindo o legado que me foi passado. Tocada de sentimento pelas expressões artísticas, que nasce das mãos de uma mulher que jamais esteve sozinha no mundo, que também carrega nas costas o legado de toda humanidade. Mensagem enviada com sucesso.

��(d53�L

Like what you read? Give Karine Maia a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.