A opressão da extroversão

Você já deve ter conhecido alguém assim. Você puxa uma conversa com a pessoa, e ela começa a mexer no cabelo, virar os olhos para o lado, mexer a boca sem fazer barulho. Parece não prestar atenção no que você está falando. Quando você faz alguma pergunta, ela demora uns segundos para perceber que está na hora de falar. Às vezes, grunhe alguma coisa. Às vezes, responde algo que tem apenas leve relação com aquilo que você disse. Essa pessoa sou eu. Um introvertido.

Nós introvertidos não sabemos direito como reagir perto de outros seres humanos. Interações pessoais são um ofício que não aprendemos a dominar ao longo dos anos em que caminhamos sobre a Terra. Quando converso com alguém, me pego pensando o tempo inteiro “que cara deveria estar fazendo agora?” ou “faz tempo que não falo nada, será que eu preciso dizer alguma coisa?” ou ainda “aposto que ele percebeu que não faço a menor ideia do que ele falou até agora”. Ouso dizer que nós, introvertidos, somos uma das minorias menos ouvidas dos tempos modernos (não à toa, vide nossas excepcionais habilidades de interação).

Isso porque somos, sim, uma minoria. Segundo psicólogos, dois terços das pessoas se consideram extrovertidas — e nós formamos o pequeno resto. A diferença essencial é que enquanto extrovertidos se energizam perto de outros humanos e murcham quando ficam sozinhos, nós fazemos o contrário. A presença de pessoas nos deixa exaustos — e precisamos nos retirar para a solidão para voltar a funcionar normalmente. Não há nada de errado nisso, é claro. Introvertidos não somos necessariamente tímidos ou imunes aos sentimentos alheios. Apenas nos relacionamos de maneira diferente com a humanidade. O problema é caminhar solitário por esse mundo de pessoas ávidas por interação.

É difícil ser ignorado por aqui. Duvido que exista um ranking global, mas, se houvesse, tenho certeza de que o Brasil estaria no cume dos países mais extrovertidos do mundo. Adoramos conversar com estranhos, convidar estrangeiros para casa, oferecer um pedaço da empadinha para o colega de trabalho. Tremo por dentro quando estou na fila do correio e constato que aquela senhorinha atrás de mim está me observando prestes a puxar assunto. “Será que consigo escapar pela janela?”, penso. Quando chego para encontrar meus amigos no bar e percebo que a mesa já está lotada e terei de sentar ao lado do novo namorado da minha amiga, me desespero. Não sei como sobreviverei à noite.

O pior é que os extrovertidos não param de ganhar munição para nos oprimir. Vivemos no mundo do networking. Do rapport. Das redes sociais. Até meu celular virou um pequeno poço infinito de sociabilização desde que instalei o Whatsapp — agora estou disponível para jogar papo fora em qualquer lugar que for.

Ano passado participei do TED Global, no Rio de Janeiro,um evento no qual o público é incentivado a conversar entre si. A ideia é que todos possam conhecer pessoas interessantes, já que o evento reúne algumas das pessoas mais requisitadas do mundo para dar palestras. O resultado eram hordas de extrovertidos avançando uns sobre os outros — e sobre nós, os incautos introvertidos –, como zumbis se jogando sobre miolos. Quando, a certa altura do evento, me sentei ao lado de uma mulher que se identificou como “retraída”, contive o impulso de abraçá-la. Ficamos meia hora lado a lado, hiperventilando em silêncio.

Por isso, faço um pedido a vocês, carismáticos extrovertidos. Na próxima vez em que puxarem conversa com alguém e repararem na cara de desespero de seu interlocutor, não estranhem. Reconheçam o espécime raro do seu lado. Não desperdicem todo esse talento social conosco. Digam: “vou ali pegar uma cerveja” e deem uma voltinha. Sem saber, vocês terão feito um pobre introvertido mais feliz.