Você |nem ninguém| é Super-Herói

Não é incomum, quando nos decidimos por profissões nas quais nos tornamos “profissionais de ajuda”, ou seja, terapeutas, analistas, coaches, ou aqueles que com suas profissões intencionam contribuir diretamente com o bem-viver de seus clientes, que nos questionemos sobre o que é ajudar alguém de fato.

A métrica para o que consideramos “bons resultados” geralmente não é numérica ou sequer objetivamente mensurável, o que em alguns momentos faz com que o coach sinta-se inseguro ou se questione sobre o que mais poderia fazer, ou ter feito, para aumentar a satisfação de seu cliente.

Vejo que “profissões de ajuda” trazem um risco que exige muita atenção, pois em algum momento podemos criar a fantasia de que, ao nos tornarmos coaches, seremos investidos de superpoderes para dar conta de todas as angústias, dúvidas, medos e decisões de qualquer cliente que atravesse os umbrais de nossa sala de atendimento e que, qualquer resultado diferente deste seria, portanto, considerado fracasso.

Podemos fantasiar que as ferramentas que aprendemos somadas à nossa intenção de ajudar, à nossa experiência, à boa-vontade e disposição do coachee, necessariamente fará com que o processo seja bem-sucedido e os objetivos traçado sejam alcançados. Nesse momento, podemos nos sentir super-heróis que certamente salvarão a humanidade de seus males.

E é com grande reverência que constato a cada atendimento, a cada processo, a cada conversa, que a complexidade está sempre presente e é participante ativa em todos os domínios onde a vida está presente. Chamo de complexidade a dimensão do não-controlável, do trágico, do visceral, do obscuro, do não-linear, do emocional, do profundo.

Ser coach é também trilhar um caminho de autoconhecimento e caminhos como esses dificilmente têm volta. Para sentar-se diante de um outro e ouvir ativamente suas questões, há que se ter uma conexão consigo mesmo, um saber de si que nem sempre é levado suficientemente em conta quando decidimos nos profissionalizar, especialmente num contexto em que somos bombardeados com um marketing extremamente agressivo que afirma que ser coach é tornar-se milionário e famoso.

Muito se fala, nos espaços de coaching, sobre a escuta ativa. Pouco se pensa sobre o que isso significa de fato. Ao fazermos a distinção entre o escutar e o ouvir poderemos posteriormente qualificar a escuta como ativa ou qualquer outro adjetivo que queiramos como, por exemplo, escuta empática.

Quando ouvimos, entendemos os sons com nosso sentido da audição, somos afetados por ondas sonoras de forma passiva. Isso não quer dizer que não participemos do processo, significa que, independentemente de nossa vontade, nossa relação com o entorno, em geral, permite que ouçamos. Ouvimos a música que escolhemos e também ouvimos o barulho do caminhão que passa sob nossa janela, além do vizinho que brinca com seus filhos no apartamento ao lado, mesmo que não tenhamos intencionalmente escolhido ouvi-los.

Por outro lado, a escuta é um fenômeno de outra natureza. Há uma emergência que pede a compreensão para a importância da escuta e ao fato dela poder ser ativa. Além da distinção entre escutar e ouvir, há a qualificação da escuta, enquanto escuta ativa.

Estamos nos dando conta de que falar bem e com clareza não garante que seremos escutados. A escuta não depende apenas de quem fala, depende também da relação que se constrói entre os que se comunicam, da intenção que se tem ao falar e ao escutar, da emocionalidade presente no contexto da interação, além de tantos outros fatores que mostram a presença inequívoca da complexidade nas dinâmicas da vida. Não acredito ser possível que alguém, em toda sua vida, possa afirmar que sempre escutou ou que sempre tenha sido escutado.

Escutar, além de ouvir é interpretar, é dar sentido ao que se ouve. Se eu ligar a televisão nesse momento e sintonizar em um canal alemão, ouvirei o que os atores ou jornalistas estão falando e serei incapaz de escutá-los, pois não compreendo uma palavra sequer desse idioma. Se sintonizo em um outro canal onde falam português e estão transmitindo uma partida de rúgbi, da mesma forma, não os escutarei, pois não conheço e não me interesso nesse momento por esse esporte, ele não faz sentido para mim.

Quem fala, só o faz para ser escutado, dessa forma importância que damos à fala, nos processos de comunicação, deve ser compartilhada irmanamente com a importância da escuta. Por isso, a efetividade da fala só pode ser validada pela efetividade da escuta.

E por que podemos falar em escuta ativa? Há inúmeras formas de escutar, e elas podem ser tantas quantos os contextos de interações humanas. Falamos em escuta ativa nos processos de coaching quando há uma disposição do coach para compreender e compartilhar um mundo que não é o dele, um esforço para não “encaixar” a narrativa de seu cliente em suas próprias redes de significados. Para podermos chamar a escuta de ativa é preciso um movimento de diferenciação do que são as interpretações e julgamentos do coach para que este possa colocar-se à serviço da escuta. Esse sim, é o nosso grande superpoder!

De que adiantam as “perguntas poderosas” que fazemos, se não vierem acompanhadas de escuta suficientemente ativa capaz de construir, no encontro, uma nova forma de interpretar o mundo que seja valiosa para nosso cliente?

Nosso trabalho como coaches tem muito menos a ver com consertar a vida de alguém, encontrar um bom trabalho para nosso cliente, ajuda-lo a se decidir entre uma ação ou outra. Nosso trabalho, diz respeito à criação de um espaço de escuta qualificada, da escuta geradora de sentido, da escuta transformadora. Da escuta que faz possível ao cliente escutar a si próprio, fazendo do coach uma passagem, um atravessamento que, ao questionar, faz voar suas borboletas — “[…] o grego chamava de borboleta (psyché) isso que voejava supostamente dentro de suas cabecinhas” (MAGNO, 1992).

Referências Bibliográficas:
 
ECHEVERRÍA, R. Actos De Linguaje Volumen I: La Escucha. Santiago — Chile: J. C. Sáez Editor, 2008.
 ______. Ontología Del Lenguaje. Santiago — Chile: J. C. Sáez Editor, 2011.
 MAGNO, M. D. Est’Ética da Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 1992.


Originally published at www.institutoappana.com.br on August 22, 2016.

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