Somos escritoras

Ou quando comecei a ler apenas escritoras mulheres.

Nunca li tanto. E não estou dizendo dessas últimas duas semanas que passei com o pé quebrado em casa. Mas, desse ano como um todo, quando descobri elas: as escritoras.

Bem, já estavam lá me arrebatando. O choque do Antes do Baile Verde de Lydia Fagundes Telles, minha infância com Ou isto ou Aquilo da Cecília Meireles, minha companhia de férias: Agatha Christie. Mas nunca foi assim.

A busca começou pela feminista que sou, precisava valorizar as mulheres de todas as áreas. E convenhamos só tinha homens na minha estante, foi um horror quando percebi. Me desafiei — com alguns escorregões — a só ler escritoras mulheres, e aqui compartilho algumas pérolas, maravilhosidades que encontrei nesse caminho sem volta.

Suspiro. Li em uma galope, e isso vindo de alguém que termina muito pouco dos livros que começa. Elvira Vigna, tem 69 anos. Bem, tinha, a escritora dos premiados: Como se estivéssemos em palimpsesto de putas (2016) e Nada a Dizer (2010) morria quando estava trabalhando nesse texto. Nos últimos anos, descobri ao ler a notícia, mesmo doente (o que também descobri na notícia) Elvira teve uma produção literária intensa e deixou três livros a serem publicados. Basta aguardar o desfecho, e secar as lágrimas.

Rupi Kaur, ficou semanas na lista dos mais vendidos nos Estados Unidos com Milk and Honey (2014). Por aqui, ao ser descoberta, foi uma enxurrada na timeline do Instagram. Você pode ter visto os desenhos do seu livro, como o abaixo, por aí. Ganhou tradução como Outros jeitos de usar a boca. E o alcance foi tão lindo como merecido.

Como a Jout Jout mostra, por ela mesmo, nesse vídeo sobre o Outros jeitos de usar a boca, rola um: “aí, poesia”. Mas, o que essa nova geração de poetas feministas, como a Rupi Kaur, está fazendo causa revoluções, no auge dos seus 24 anos.

Na minha tradução: “Nunca confie em ninguém que diz não ver cor. Isso significa que, para eles, você é invisível”

Se ainda não está convencida de que poesia é pra você, ou até a leitura, Salt (2013) pode mudar isso. A autora, que atualmente mora nos Estados Unidos, fala muito de imigração em suas poesias, sem nunca ter dito sua origem. Seu livro está disponível na Amazon, infelizmente só em inglês, se você manja, vale muito a pena. Eu mergulhei de cabeça.

Um ‘não’ pode fazê-los ficarem brabos, mas farão você livre.

Durante o processo de focar minha leitura nelas, a questão parou de ser apenas feminista, de apoio a outras mulheres: agora, na verdade, ao ler elas eu me sinto apoiada. Eu passei a me enxergar.

Ela invadiu minha cabeça e escreveu Depois a louca sou eu (2016)? Não. Mas acho que muita gente deve ter pensado isso também. Só sei que saí da livraria com ele e continuei lendo enquanto andava e ria das paranoias que a roteirista, jornalista, escritora, relata nesse livro tão leve quanto pesado.

Não sei porque comecei a ler ela. Acho que a capa me intrigava. Mas gostei. E descobri que a Amiga Genial (2011) faz parte da ‘Série napolitanade quatro romances. Eu com dificuldade de escrever um parágrafo e vai essa mulher, que ninguém sabe o nome real apenas o pseudônimo, fazer uma tetralogia. Ponto: é fácil de encontrar em qualquer loja da Saraiva e no Kindle unlimeted, uma espécie de Netflix dos livros da Amazon, por R$19,90/mês.

Do mesmo ano que o livro anterior Duas pessoas são muita coisa (2011) já no título vale a pena existir, coisa linda. Do interior do Rio Grande do Sul, Uruguaiana, em uma cidade onde as pessoas já nascem com faca na bota, a Cris Lisbôa tem uma personalidade distante ao escrever seus romances e no dia a dia. Isso, me faz entender muito bem o que diz Nayyirah Wahee: ao me ler não tente procurar eu [quem escreve] mas a você mesma. Pra mim deu certo. Eu me achei.

Nesse texto eu foquei nas escritoras atuais mas não quero deixar de citar Sylvia Plath e Redoma de vidro (1963). Também queria dizer que não foi fácil colocar um fim nele. Então se quiser continuar falando de mais escritoras, só comentar aqui.