Diário de Residente // 28 de Abril 2016

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Na verdade, este plantão começou ontem no pronto-socorro, continua noite adentro no Centro Obstétrico e deve terminar no final do dia de volta ao pronto-socorro. Mesmo com uma carga horária de 36h está tudo tranquilo. Vida de R2 é mais tranquila e também a gente acaba acostumando. Pra falar a verdade, nem parece mais tudo isso. No começo era bem pior de engolir.

Fiquei impressionado com uma paciente de meia idade com uma saúde perfeita, peso certo, sorridente, mãe de 4 filhos e que nunca abusou da saúde. Ela chegou ao hospital queixando-se dificuldade para defecar há 30 dias, sem outros sintomas fora uma leve cólica. Trouxe consigo um ultrassom de 2 semanas atrás que achara alguma coisa errada perto do ovário esquerdo, uma massa suspeita de uns 7 cm. A princípio não demos muita bola para o achado, nem acreditamos que fosse uma doença ginecológica (estava com a mão coçando para deixar o caso com a Cirurgia Geral). Mesmo assim, decidimos investigar.

Primeiro foi uma tomografia. O resultado foi assustador, inacreditável. O radiologista ficou tão perplexo que não quis assumir um laudo sem complementar com uma ressonância (conseguida a duras penas, já que a máquina do hospital está quebrada há mais de um mês). A ressonância mostrou vários tumores grandes pélvicos com infiltrações e invasões em vários locais, comprimindo a porção final do intestino, não permitindo a paciente defecar. Os tumores tinham um aspecto maligno, grotesco, assustador. Nas imagens em preto-e-branco era quase possível imaginar uma monstruosidade, um alienígena crescendo e matando aos poucos aquela mulher.

“Neoplasia epitelial ovariana” — disse o residente da radiologia, triunfante, com um toque melancólico — “parece um adenocarcinoma, e já está bem feio”. Só acenei com a cabeça e agradeci [que droga…..].

Mas nem tudo é tristeza. Algumas histórias de início triste algumas vezes terminam muito bem! Mas fazer essa conversão exige alguns cuidados, esperteza e uma mão cheia de sorte. É o caso da gestante lúpica cheia de complicações da doença que está realizando o sonho de ser mãe. Na verdade, deixa eu pintar o quadro melhor para você.

Costumamos dizer que alguns pacientes nasceram sem anjo da guarda. Ess mulher descobriu jovem uma das piores doenças possíveis, lúpus, e em pouco tempo desenvolveu complicações graves com rins detonados, coração no limite, uma tendência terrível a coagular o sangue nos locais mais errados entre outras coisas. Por si só, saber que você tem uma doença eterna que só piora e que vai te deformar inteiro e te matar mais cedo já é terrível, mas essa mulher engravidou! E agora ela descobriu que a gravidez piora (muito) a doença e que os remédios podem afetar o bebê. Que decisão terrível! Mas como essa paciente e, especial não tem anjo da guarda, num prazo de duas semanas ela descobriu que estava grávida, que a doença piorou, a mãe dela morreu de um AVC e agora ela própria corre o risco de ter uma AVC porque a pressão dela explodiu e os antihipertensivos não estão funcionando como a gente queria.

Contextualizado? Ótimo. Encontrei ela aos prantos, o que é compreensível. Depois de uma longa conversa, resolvi mostrar pra ela o porquê de tudo isso. Fiz um ultrassom. Naquela bagunça de pixels inquietos a imagem de um bebezinho, um mini ser humano, se mexia dando uns pinotes, como se estivesse soluçando. Dedinhos, bracinhos, perninhas, coluna, minúsculas costelas e um coraçãozinho (palmerense) eram identificáveis. Ela chorava. Agora ela sabia que em nenhum momento estava sozinha. Aquela criaturinha inquieta precisava dela.

A vida não pára.