Mais do mesmo

Não sei se acontece com você, mas sempre que entro no ônibus depois do trabalho, procuro aquela brechinha estratégica para me encaixar. Sabe? Aquela entre a senhora de estampa muito colorida para se definir qualquer desenho, e a moça com uniforme de trabalho, muito cansada para se mover e me dar espaço. Sim, as únicas brechinhas disponíveis são as que preciso ficar em pé para entrar. Sentar é um luxo inatingível a essa hora. Me encaixo, um tanto apertado e desajeitado, e sigo viagem. A mão vai ficando cansada de aguentar meu peso. As costas já pedem socorro com a mochila cheia, mas ninguém se oferece para segurar. Normal. O som da rádio evangélica, sintonizada pelo motorista, ecoa e se mistura com as conversas barulhentas dos passageiros. Me sinto exausto. Mais na frente, um moço do lado de fora dá sinal e o cobrador abre a porta de trás. Jujubas e balas a um real. Como se aquilo tudo já não estivesse suficientemente caótico, o homem, que tenta ganhar seu dinheiro tapeando barrigas vazias, traz sua enorme cesta de guloseimas esbarrando em todos, sem se desculpar. Calma, chega já, digo a mim mesmo na tentativa de driblar o cansaço. E, de fato, minutos depois, estou próximo ao meu ponto. Puxo a cordinha. Agora, a batalha é ir até o fundo do ônibus. Não fosse o rapaz de boné e fones tocando tão alto que mais parecem uma caixa de som, eu teria feito o caminho mais rápido, sem a adrenalina de quase perder a parada. Chego até a porta de saída, já meio aberta por conta do desgaste de uso. A moça ao telefone me dá licença. Desço. O coletivo amarelo some virando a esquina. Só uma pequena andada e estou em casa. Enfim, em meio ao sono e as rolagens na tela no celular, o descanso. Mas não por muito tempo. O espaço em que estou agora é o oposto do que terei que me encaixar, novamente, amanhã. Mais do mesmo.

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