Da novela das nove a Outlander: o cuidado para se falar de estupro na televisão

*O texto a seguir contém spoilers de O Outro Lado do Paraíso (Rede Globo), Game of Thrones (HBO), 13 Reasons Why (Netflix) e Outlander (Starz).

Divulgação: Rede Globo.

O segundo episódio de O Outro Lado do Paraíso, nova novela das nove na Rede Globo, tem uma cena de estupro. E não foi uma dessas cenas romantizadas que frequentemente criticamos nas novelas brasileiras pois são construídas para culpabilizar a mulher que sofreu a violência. Na narrativa, Clara (Bianca Bin) e Gael (Sérgio Guizé), o par principal da novela, acabam de se casar e, durante a noite de núpcias, ele se força para cima dela. A partir daí, a cena não foi explícita, mas intercala-se com takes de Clara se afogando e depois presa em uma cachoeira, pedindo ajuda, querendo se livrar daquela tortura. Uma forma sensível por parte dos diretores da novela de expressar os sentimentos da vítima, de demonstrar que o estupro pode ocorrer em um casamento e que é igualmente violento com a mulher.

Mas é a cena seguinte que me preocupa. Gael reconhece que “errou” com a nova esposa e pede desculpas. Ela mostra as marcas no corpo deixadas pelo marido, demonstra mágoa e raiva dele. Mas logo ele a convence de seguir com a lua de mel, embora não tenha ficado claro que Clara havia perdoado. O que Gael cometeu na noite de núpcias foi mais do que um erro. Foi um crime. Um crime que é considerado um dos piores do mundo pois viola a honra, a integridade e até mesmo a sanidade psicológica de uma pessoa. Dentro de um relacionamento abusivo, as desculpas e as chantagens emocionais são tão comuns quanto a violência física em si, por isso, pelo menos para o início da trama, não foi uma surpresa ver Clara escolhendo seguir em frente com Gael, sem denunciá-lo, sem considerá-lo criminoso, mesmo não tendo aprovado a conduta dele. Mas até quando isso vai durar na trama?

Em entrevista à Folha, o diretor Mendonça Filho afirmou que o abuso contra mulheres, principalmente a violência doméstica, seria o tema central do novo folhetim. Ele adiantou que, no desenrolar da trama, além de ser abusada pelo marido, Clara será internada em um manicômio pela sogra, que quer tomar uma propriedade no nome da mocinha.

Dos tempos mais primórdios aos dias de hoje, o estupro é, lamentavelmente, uma realidade na vida real, principalmente das mulheres. Consequentemente, a questão pode estar presente também nas narrativas de ficção, já que a arte imita a vida. Mas este é um crime violento, grave, que afeta a vítima de maneiras, muitas vezes insuperáveis e, portanto, é uma grande responsabilidade colocar o estupro numa narrativa, especialmente na televisão, um meio de comunicação que chega para a massa e forma opiniões. Estupro é também uma questão de gênero e, muitas vezes, a televisão não demonstra a gravidade do assunto. Ao invés disso, erotiza e romantiza o tema ou culpabiliza a vítima.

A partir disso, é importante questionar: o quão necessário para a história são as cenas de estupro? Como isso vai moldar a história e as motivações de Clara ao longo da narrativa? Gael sempre será colocado como um homem apaixonado que não controla seus instintos ou a natureza do crime (dominação e poder) vão ser colocadas a debate?

A introdução da questão na trama foi cuidadosa, séria e sensível. Mas ainda é muito cedo para determinar se a novela vai levar o tema a sério ou vai minimizá-lo. Com o histórico de perversão que a televisão brasileira e internacional carregam com relação à abordagem do assunto, as expectativas não são altas.

O maior exemplo atual de descaso com relação ao estupro na trama é a série da HBO Game Of Thrones. Tanto os livros de George R.R Martin quanto a adaptação para a televisão são louváveis por trazer mulheres fortes em um cenário de medieval e de magia (você quer, @J. R. R. Tolkien?). As mulheres são peças importantes para narrar a guerra pelo trono de Westeros e todo o jogo político em torno disso. Mas, indo a fundo nas histórias individuais das heroínas e princesas deste universo, é fácil encontrar narrativas de estupro desnecessárias.

Como quando Daenerys Targaryen é violentada por Khal Drogo na noite de núpcias do casal, enquanto no livro há consentimento, há a palavra “sim” da parte dela. Entre as disucussões em torno dessa cena, há quem argumente que esta agressão foi posta na história de Danny para construir sua narrativa de superação e ascensão para a líder que é nas temporadas atuais (a Filha da Tormenta, a Não Queimada, Mãe de Dragões, Rainha de Mereen, Rainha dos Ândalos e dos Primeiros Homens, Quebradora de Correntes, Senhora dos Sete Reinos, Khaleesi dos Dothraki, a Primeira de Seu Nome. Descendente da Casa Targaryen e tudo mais).

Divulgação: HBO.

O mesmo argumento foi usado para Sansa Stark, também estuprada na noite de núpcias do seu casamento com Ramsay Bolton, já que alguns episódios depois, ela “deu a volta por cima”, literalmente soltando os cachorros pra cima do seu estuprador. Mas é no mínimo desonesto e limitador supor que mulheres precisam passar por essa violência para se ter algum tipo de motivação ou vitória. Como se retomar o trono de sua família não fosse motivação suficiente para Daenerys. Como se vingar as mortes de sua família e recuperar o governo de Winterfell não fosse motivação suficiente para Sansa, que há muito já não era uma dama inocente em busca de um príncipe encantado.

Claro que não sou inocente o suficiente de esperar uma noite de núpcias romântica por parte do carrasco Ramsay. Ao ter sido conduzida a casar-se com ele, Sansa estava submetida a tal violência. Veja bem: não escrevo aqui sobre a necessidade de banir o estupro na televisão. Muitas vezes o crime é necessário para conduzir uma narrativa — por isso faço questionamentos sobre a trama da Rede Globo.

No caso de Sansa, mesmo que o estupro sofrido possa ser justificado por conta da conduta do agressor, ele só serviu para colocar uma terceira pessoa como vítima: Theon Greyjoy, ex-escudeiro da casa Stark, capturado e torturado por Ramsay. A cena focou nas expressões de sofrimento de Greyjoy por ter que assistir o sofrimento da filha de seus antigos senhores, colocando a dor dele acima da de Sansa.

Divulgação: HBO.

“Mas nesses tempos as coisas eram assim mesmo para as mulheres”, muitos também argumento em defesa do estupro em Game Of Thrones, que, vale reforçar, as vezes é tão banal que aparece como background de uma cena de diálogo entre personagens. Aliás, aparentemente, todas as mulheres de histórias medievais estão, mesmo aquelas no poder — Cersei que o diga. Mas esse argumento já não deveria colar mais, principalmente considerando que o universo de Martin nem mesmo é real!

Na verdade, se tiver que ser levado em consideração, o assunto estupro de fato deve permanecer em histórias que se passam na realidade dos dias de hoje, como 13 Reasons Why, a história sobre uma jovem que decide cometer suicídio depois de contar seus treze motivos. Na trama da Netflix, o estupro aparece da forma repugnante que é verdadeiramente. Há até mesmo uma cena que foca toda a violência no rosto da vítima, a protagonista Hannah Baker. Claro que é muitíssimo difícil de assistir, mas, para a narrativa, demonstra a seriedade do crime e o que faz com a vítima.

Esta série teve muitos questionamentos sobre como tratou os problemas de depressão de Hannah, mas quando o assunto foi estupro e violência de gênero, deixou claro que esta violação ao corpo da pessoa é tamanha a ponto de fazê-la se perder, a ponto de fazê-la desejar a morte. Claro que, se o destino de Hannah tivesse sido diferente, ainda seria possível trabalhar nuances de superação, algo que também não seria nada fácil de fazer, mas a história de 13 Reasons Why como é já deveria servir de alerta para o espectador sobre o quão nociva é a violência de gênero.

Algo muito parecido aconteceu em Outlander, a série baseada nos livros de Diana Gabaldon que narra o amor entre o cavaleiro escocês do século XVII Jamie e a enfermeira de guerra Claire, que viajou no tempo e caiu nos braços de seu amado diretamente de 1945, duzentos anos a frente do tempo dele.

Desde que atravessou do momento em que atravessou as pedras mágicas de Craigh Na Dun na Escócia e se viu no ano de 1743, em meio a ocupação da Inglaterra nas Terras Altas, Claire se viu correndo risco de ser estuprada tanto pelo exército inglês quanto pelos montanheses escoceses do clã McKenzie, que a abriga/aprisiona. Na verdade, o assunto é trazido em praticamente todos os episódios das duas temporadas que assisti da série até o momento.

Claire só se sentia segura ao lado de Jamie, por quem viria a se apaixonar. O montanhês é tão boy magya de seu tempo, que chega a casar-se com a estrangeira (daí vem o nome da série) para evitar que ela caia nas mãos de Jack Randall, o pior e mais carrasco dos soldados ingleses e que, por um acaso, é ancestral do marido que Claire deixou em 1945, Frank.

Mas se você pensa que foi a mocinha quem acabou sendo violentada pelo vilão, pense de novo. Não quer ter visto Jamie sendo torturado e estuprado por Randall tenha sido fácil, mas é, no mínimo, uma ótica diferente, ter o herói viril da trama representando a fraqueza da vítima de estupro. Nesse novo ponto de vista e em diversos outros aspectos da série, se percebe imediatamente a diferença de se ter mulheres no roteiro e na direção de uma narrativa sobre estupro. E, se a novela O Outro Lado do Paraíso precisar de uma direção em como falar do assunto nos próximos meses da trama que ainda estão por vir, Outlander seria uma ótima referência.

Eu me arriscaria a dizer aqui que Randall é provavelmente o vilão mais desprezível que já vi em séries. Mais desprezível que Ramsay Bolton. Por vezes ele ganha monólogos na trama, mas em nenhum momento tenta disfarçar suas perversidade e maldade, o que, apesar de ajudar a aumentar a revolta pelo personagem, ajuda a demonstrar que homens que estupram não são loucos que não conseguem controlar seus instintos, mas sim pessoas em plena consciência da gravidade de seus atos.

Divulgação: Starz.

No tempo que passa nas mãos de Randall, Jamie sofre agressão física e terror psicológico. Outlander dá, em dois episódios, os dois últimos da primeira temporada, uma aula de como a manipulação e a violência do estupro funcionam e também uma aula de como mostrar tudo isso. Principalmente no episódio final, onde Jamie está em um estado de depressão profunda, planejando tirar a própria vida, e o teria feito, não fosse pelo apoio de Claire.

Não digo que o desejo de morte seja uma regra para todas as vítimas de estupro. Destaco aqui a importância de não só mostrar o período de reação da vítima — que pode vir também com raiva, ansiedade, medo e outros sentimentos — como também seu período de recuperação também.

A única maneira de facilitar a missão de falar sobre estupro na televisão seria não ter que falar sobre isso e talvez isso seria possível numa realidade utópica onde a sociedade já entendeu a gravidade do crime e não mais o comete. Mas enquanto não chegamos a isso, é importante ter muito mais do que coragem de colocar o estupro em um roteiro de tevê. É preciso sensibilidade, comprometimento, seriedade e compromisso com a verdade por trás das histórias que acontecem na vida real. Sim, tudo isso de uma vez.

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