Como é ser “a namorada negra de alguém”

Reprodução Instagram FKA Twigs

Texto originalmente publicado na Think Olga.

Tahliah Debrett Barnett tinha 10 anos quando seu padrasto a chamou para uma conversa séria, o assunto era racismo. Ele explicou para a então garotinha que, por ser negra, as pessoas poderiam tratá-la diferente e que, apesar de todo o seu talento, ela precisaria trabalhar 10 vezes mais que uma pessoa branca para ser respeitada e apreciada. Quase 20 anos depois, com o nome artístico de FKA twigs, ela tem uma carreira consolidada e aclamada pelos críticos, o que demonstra barreiras quebradas na indústria da música, mas ela ainda precisou derrotar o racismo na internet. 
 
 Depois do noivado com o ator britânico Robert Pattinson em 2014, FKA começou a ser constantemente comparada com Kristen Stewart, também atriz e ex-namorada dele, no Twitter. Os fãs usaram ofensas racistas e julgaram a cantora como não sendo boa o suficiente para seu ídolo, pois não era “bonita”. Ou será que ela apenas não era branca?
 
 A modelo e empresária Sami Miro também enfrentou racismo online ao longo dos dois anos que namorou o ator americano Zac Efron. Em todas as fotos que o então casal compartilhava nas redes, os comentários diziam que Sami é feia, a comparavam com um macaco, entre outras ofensas.
 
 Sami e FKA sabem o que é ser “a namorada negra de alguém”, uma personagem cuja história é tão semelhante à de outras mulheres negras, que são preteridas desde a infância. A arquiteta e ativista negra Stephanie Ribeirocontou sua experiência nesta situação. Quando não estamos falando do preterimento de homens à mulheres negras por escolherem como parceiras o perfil mais próximo dos padrões de beleza possível, temos que lidar com situações como estas, que colocam em prova a legitimidade de um relacionamento por causa de um estranhamento provocado pelo racismo. 
 
 Ainda ontem, o príncipe Harry de Gales, da família real inglesa, precisou lançar uma nota oficial à imprensa britânica, um fato absolutamente inédito, para pedir que os veículos parassem de ofender a atriz Meghan Markle, com quem assumiu publicamente um relacionamento recentemente. No texto, ele ressalta o desrespeito de muitas publicações ao falar da família materna de Meghan, que é afro-americana.
 
 O desejo coletivo de que as parceiras de homens brancos, ricos e famosos sejam mulheres brancas, reforça, além de padrões estéticos, estereótipos de comportamento e sexualização atribuídos à mulheres negras. O príncipe Harry sabe, e nós sabemos, que a mídia pode ser grande influenciadora da opinião pública, capaz de reforçar tais problemas para seus leitores, que, por sua vez, também se manifestam de maneira preconceituosa em um ciclo vicioso. 
 
 É pensando em reparar estes comportamentos racistas, que desenvolvemos a terceira parte do Minimanual de Jornalismo Humanizado, cujo tema é justamente o racismo na imprensa. Será que ainda dá tempo de anexar o nosso pdf à reclamação do príncipe?

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