O nome dela não é “esposa”

Foto: Helena Almeida.

Texto originalmente publicado na Think Olga.

Desde que anunciou o noivado com o ator George Clooney no ano passado, a advogada de direitos humanos Amal Alamuddin passou a ser pauta na mídia de moda e colunas de fofocas. Em Hollywood, isso é normal, mas uma mulher com o currículo de Amal começa a ser conhecida mundialmente apenas como a esposa de um galã de cinema. As comediantes Amy Poehler e Tina Fey levaram o assunto para o monólogo que fizeram na premiação do Globo de Ouro de 2015, que apresentaram juntas. Tina ironizou: “Amal trabalhou no caso Eron, foi conselheira de Kofi Annan sobre os problemas na Síria e foi selecionada para uma comissão que investiga as violações de leis de guerra na faixa de Gaza. Então hoje o marido dela, está recebendo um prêmio por realizações!”. 
 
Quase dois anos depois do casamento, o nome do marido ainda acompanha Amal nas manchetes sobre o seu trabalho humanitário. Como em uma nota recente publicada pelo The Washington Times, que até diz o nome da advogada, mas sem deixar de creditá-la como “esposa de George”. Qual é a relevância dessa informação quando a notícia é sobre o fato de Amal ter feito uma parceria com a ONU para proteger mulheres que escapam de tortura e abuso do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS)? A insistência em mencionar sua associação com um ator acaba ofuscando seu trabalho como advogada.
 
 A palavra “esposa” aparece novamente como a principal ocupação de uma mulher em um título do site Daily Mail. “Tom Waits, a esposa dele, John Prine recebem prêmio de compositores”. Kathleen Brennan é o nome da também compositora que, por um acaso, é casada com Tom Waits. Esta é a única informação que se descobre sobre ela na matéria, já que o texto não fala sobre sua carreira, menos ainda sobre a participação na criação da canção premiada. 
 
 Esse apagamento, porém, não é uma exclusividade de veículos internacionais. A Revista MONET, ao noticiar o relacionamento do piloto Lewis Hamilton com a modelo Winnie Harlow, usou a seguinte manchete: “Lewis Hamilton está namorando top que quebrou tabus no mundo da moda por expor vitiligo”. Ainda estamos tentando descobrir porque simplesmente não disseram o nome dela. É como se o valor “exótico” de Winnie estivesse acima de sua humanidade. É claro que o fato de ela ser uma modelo com vitiligo teve um grande impacto sobre o mundo da moda, ainda grande reprodutor de padrões de beleza, mas sua fama está relacionada ao fato de ela ser modelo, não à sua doença. 
 
 O fato é que a publicação dá voltas em uma manchete de um modo que não faria se Hamilton estivesse namorando outra modelo, porque, nesse caso, talvez se referissem a ela apenas como “mulher dos sonhos”, como aconteceu na Revista GQ. Ao traçar o perfil de Evan Spiegel e o poder aquisitivo que ele adquiriu depois de criar o aplicativo Snapchat. Entre sua lista de realizações, está o noivado com a “mulher dos sonhos”, no caso, a modelo Miranda Kerr
 
Além da pré-suposição, já no título da história, de que todo leitor vai entender a conquista de uma mulher como um prêmio (desde que ela esteja dentro de padrões de beleza), independentemente de quem ela seja, o nome de Miranda só aparece dentro da reportagem, a qual não cumpre o dever jornalístico de dizer quem ela é — se é que ela deveria estar ali, listada como um ganho na vida de sucesso de um homem. O texto a apresenta de forma repetitiva como “uma das mulheres mais desejadas” e depois, no subtítulo que fala sobre a vida do empresário com a noiva, ainda não há aprofundamento sobre ela, voltando a associar sua imagem com a existência de outro homem: “modelo australiana Miranda Kerr, 33, ex-mulher do ator Orlando Bloom”. Mas fotos sensuais, essas sim, há várias.
 
 Longe de ser aceitável, este tipo de diálogo coloca mulheres como propriedades e dependentes de seus parceiros. E a narrativa fica muito mais agressiva quando se fala de mulheres trans e travestis. 
 
 A notícia de um suposto envolvimento do ator Alexandre Borges ultrapassa todos os limites dos textos de fofoca que objetificam mulheres. Sabemos que se a nota falasse de uma mulher cisgênero no vídeo com Borges, ainda que de forma machista, a narrativa viria como “morena misteriosa” ou algum outro clichê. Mas “ser visto com uma travesti” ou “com travesti no colo”, como dizia o título da publicação que viralizou o vídeo, é algo negativo aos olhos de uma sociedade transfóbica. Para a mídia que publica esta notícia, Alexandre não merece méritos por uma conquista, mas sim deboche por ter se envolvido com uma mulher considerada o oposto do padrão representado por Miranda Kerr, por exemplo. 
 
Queremos ouvir mais histórias sobre mulheres, mas a maneira como veículos insistem em contá-las não é suficiente. Queremos ouvir sobre suas conquistas, desafios, medos e superações, e não a partir de sua associação com homens que façam parte de suas vidas.
 
Se hoje buscamos ler e ouvir mulheres narrando suas próprias histórias e mostrando diversidade, é para que, no futuro, o mundo possa vê-las como os seres humanos que são, pessoas cujas conquistas devem ser reconhecidas sem a sombra de um homem para ofuscá-las. Mulheres cujas histórias devem ser respeitadas.

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