Desculpe, mas preciso falar sobre o Natal

K.
K.
Dec 23, 2016 · 5 min read

Eu, honestamente, nunca vinculei o Natal com nascimento de Cristo, apesar de cantar parabéns para ele todo Natal. É um hábito da minha família.

“Natal é uma data comercial”. As pessoas ficam frenéticas atrás de presentes. E esse Papai Noel com roupa de frio nesse calor de 40 graus?

Menos. Que tal menos crítica e mais atenção com o que realmente importa? Deixe o Papai Noel em paz, se ele sente calor ou não, não é você vestido. É só uma figura, um personagem, uma representação que você pode ou não aceitar. Presentes? A escolha é sua, comprar ou não. Você não é obrigado.

Ninguém sabe ao certo de onde surgiram essas figuras. O Papai Noel, segundo a história, São Nicolau. Ele não tinha a cara fofa, mas sim era austero, porém, com fama de ser bondoso e generoso.

Os presentes, são tradições de povos que colocavam presentes sob a árvore de Odin, eram para as crianças.

E o meu símbolo preferido, a árvore de Natal, nada mais é do que um grande pinheiro, que simboliza a vida. A árvore, que mesmo nas fortes tempestades de neve e com o rigoroso inverno, mantém-se verde. E desde tempos antes de Cristo, a árvore já era símbolo da vida haviam crenças que ligavam as árvores a entidades mitológicas e sua projeção vertical, desde as raízes fincadas no solo, marcava a simbólica aliança entre os céus e a mãe terra.

Não é lindo? Pena que não nos ensinam a história por trás dos símbolos.

Sinceramente, acho tudo isso muito triste. Nunca olhei o Natal dessa forma tão dura e crítica. Eu sempre fui apaixonada pelo Natal. Há uma magia no ar. Parece que o mundo fica em outra frequência. Mas esse ano, eu percebi, com muito amargor, que não é o mundo que fica diferente. Sou eu. Pura e simplesmente eu. Eu fico encantada com o mundo, com as luzes, com a ideia de assar aquele Chester, fazer aquela farofa, montar uma mesa e reunir as pessoas.

E isso, não foi imposto para mim. Isso existe em mim, porque é uma tradição da minha família, ao longo de nossas tradições eu construí o siginificado do Natal para mim. E sim, minha gente, na nossa família há desavenças, há brigas, há falsidade e hipocrisia. Talvez, seja um sinal que somos uma família mesmo. E não somos perfeitos e sabemos disso.

Esse ano, eu perdi o olhar encantado para o mundo. Cadê aquela menina, que olhava para o mundo encantada, sentindo a vibração pelo corpo, que contava luzes de Natal com a irmã, no caminho da casa da avó para a ceia?

Acredito que o Natal, dentre outras datas, nos traz de volta para tradições. E o mundo está perdendo isso e ao mesmo tempo gritando por isso. É tudo muito instantâneo. Rápido. E tem que dar prazer, tem que ser único e tem que ser o que nós queremos, o particular. Tem que ser honesto, transparente, cru (beirando ao cruel, muitas vezes). Perdemos o coletivo. É o que me ocorre.

Eu não quero passar meu Natal assistindo série no Netflix, se você quer, eu desejo que você tenha um bom Natal e encontre bons filmes ou séries. Eu quero passar a véspera, com minhas músicas tocando, com aquela calabresa, bacon e outros ingredientes, para cozinhar aquele meu chester indecente (que transformei em uma tradição de indecências natalinas). Tomar minha cerveja, estar com quem eu amo, compartilhando esse momento comigo. Eu quero conversar com meus tios e primos que não vejo o ano todo. Para muitos isso é hipocrisia, mas para mim é reencontro. E fico feliz que temos o Natal para isso, porque do contrário, muito provavelmente, nos encontraremos num velório.

Eu acho lindo as pessoas pararem parte de sua vida, para se dedicar para algo com o grupo. Na minha família, todos trabalham até tarde na véspera. Eles chegam cansados depois de um longo dia de trabalho pesado. Mas ainda resta energia para montar a mesa, conversar com os familiares, fazer uma oração de agradecimento pelo ano e pela vida. Deixamos de lado as crises, as mágoas, as besteiras da vida. Sim, é uma pena não conseguirmos fazer isso o ano todo. Mas somos assim, fracos, humanos, frágeis. E tudo bem. Tudo bem você conseguir dedicar um dia da sua vida para celebrar. Antes um dia do que nenhum, eu penso.

Eu me importo com o Natal. Eu não compro presentes para ninguém, para um ou outro e olhe lá. Não tenho dinheiro. E não vou tirar de onde não tenho, para presentear. Posso cozinhar para eles. Posso estar com eles. Posso abracá-los e desejar um bom ano e um bom Natal. É o que eu quero e tenho para oferecer.

Meu Natal, é sinônimo de união. Meu Natal é sinônimo de magia. Meu Natal é sinônimo de amor. E meu Natal é sinônimo de família (e seja ela, seu cachorro, seu amigo, seu marido ou esposa, ou todos os seus parentes). Eu tenho muitas famílias. E é muito difícil distribuir meu tempo com todas elas. Eu tenho que escolher, muitas vezes. E pessoas ficarão magoadas. Me desculpem, é a vida. Não dá para agradar a todos e eu não estou tentando agradar todos. Eu só quero celebrar o amor e a família.

E eu entendo. Para muitos é uma data difícil. Não há boas recordações, nem nada para celebrar. E entendo que muitos sintam-se cobrados, culpados ou obrigados. A cultura trouxe um pouco disso. A família cultivou esse lugar. A sociedade transformou em algo superficial e comercial. Mas isso só foi possível com a ajuda das pessoas. Nossa ajuda. O Natal é só mais uma data. O que a faz diferença é como nós olhamos para ela.

O meu Natal é mágico. O meu Natal é esperado e bem vindo. E só estou triste esse ano, porque eu perdi, ao longo do ano, o meu olhar de uma criança. E eu me dei conta que é preciso uma transformação do significado e das minhas tradições de Natal.

Não sou mais criança. Mas quero manter o olhar de uma. A vida, às vezes, demanda muito de nós. Às vezes, não há mais espaço para nada que não um forte desejo de descansar. E esse ano, foi um ano muito difícil para mim. Um ano que me transformei e tirei coisas de mim que me eram muito caras. E agora é a luta para transformar tudo outra vez.

E eu percebi algo na minha vida. Existem datas comemorativas para nos fazer parar um pouco e dar algo de nós para o outro ou para o mundo. E para celebrar. Não é para ser imposto ou cobrado, mas celebrado. O quanto você celebrou esse ano? Eu celebrei bem menos do que eu desejava. E espero que no próximo eu possa celebrar mais e reclamar menos. E quem sabe ter um ano mais mágico e encantado, junto da menina que olha o mundo como se fosse a primeira vez.

Eu desejo um bom Natal a todos. Que você possa encontrar paz, a magia e o encanto, seja com quem e onde for.

K.

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Com as palavras eu me faço e refaço.

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