A liberdade de ser quem sou

Karoline Siqueira
Jul 28, 2017 · 6 min read

Às vezes eu me pego sentindo falta de quem eu era antes de ser mãe. E é aí que mora a culpa.

Me pergunto diversas vezes se as outras mães também sentem falta de como elas podiam se dar o direito de serem as crianças quando não tinham filhos. Eu sinto falta de viver levemente descompromissada, procurando lugares para estar, sem ter que me comprometer com a volta, sem ter que calcular todos os pormenores. Às vezes, sinto falta da possibilidade de fugir e decidir fazer qualquer coisa que me surja.

Eu sinto falta daquelas paqueras tão sem nexo, tão sem dia seguinte, tão só-por-ser. É que hoje paquerar virou uma luta. Do lado de cá trombo uns caras que soltam a clássica “mas ela é mãe”, me causando o nojo que eu poderia sentir. Do lado de lá eu desanimo com todo e qualquer cara porque, depois de ter um filho, é tão mais fácil enxergar as coisas que eles fazem só pra poder agradar, sem necessariamente ser verdade. Do lado daqui já não tenho mais tantas noites livres pra transar, não posso trazer qualquer um em casa, muito menos enfiar qualquer pessoa dentro da minha vida. E olha que me faz falta chorar por uns caras babacas pelos quais me iludi de bobeira, hoje a bobeira não cabe mais dentro da necessidade de ser séria.

Eu sinto falta de quando o leque de possibilidades era maior. Não é que eu iria pra todo lugar que a vida me levasse, mas ela me levaria mais facilmente pra alguns lugares sem eu precisar pensar que lá não tem estrutura pra crianças. Hoje é preciso pensar se aguento as dores nas costas da mala que precisarei levar. Será que eu aguento carregar toda a responsabilidade que me cabe e seguir viagem? Nah, às vezes é muito mais fácil continuar aqui no meu conforto.

Sem pensar constantemente se o orçamento cobre aquilo que as crianças solicitam. Fraldas, leites, comidas, lanches, vontades, necessidades, desejos, pedidos, chamados. E por vezes abandonar as minhas necessidades porque AI-DE-MIM se eu for um ser humano antes do meu filho. E ninguém quer ser a mãe desnaturada na frente das viagens que a vida leva. Os passageiros do lado julgam, sabe? Dizem que não, mas eles olham, escutam, reclamam, opinam.

Ah, eu sinto falta de pensar em mim. Sair do trabalho na sexta-feira sabendo que o que me aguarda em casa é o fim de semana. Mas agora eu saio já com compromisso de passar na creche e, dali pra frente, é só o começo de mais uma longa noite.

Pega bebê, leva bebê, deita o bebê, troca o bebê, dá comida pro bebê, dá banho, esquenta água, faz leite, pega o bebê no banho, troca, arruma a cama confortável, deita ele, abaixa a luz, coloca uma musiquinha tranquila, segue o ritual. Termina o leite, ufa, ele dormiu! Mas já são 9 ou 10 da noite. Levanta correndo, lava a mamadeira, lembra que tá segurando a vontade de fazer xixi desde às 18h, faz o seu xixi, leva a roupa do bebê pra lavar, recolhe a roupa que já tava no varal — porque roupa de bebê se lava todo dia — passa, guarda, cuida. Lembra que esqueceu de comer, come qualquer coisa só pela praticidade.

Quando você se dá conta já tá morta no sofá e não fez nada pra si, mal conseguiu preencher as necessidades básicas. Pensa nas milhões de coisas que poderia e gostaria de fazer, mas escolhe tomar banho e ir pra cama, porque os próximos dois dias sem creche vão ser longos e as coisas que são suas — sabe essas que a gente gosta de chamar de nossas? — já estão tão atrasadas que começar qualquer uma delas vai ser outro parto. Então você deita a cabeça no travesseiro e BUÁ, bebê acordou.

No meio das obrigações você dá uma olhada no instagram e vê todas aquelas pessoas saindo, curtindo, bebendo, sentindo. Bate a falta de ficar bêbada no boteco da esquina, aqueles que os amigos mais vão porque o litrão da Skol é 4,50; e tirar uma foto qualquer, postar na maior fé que tá abafando, mas saber que vai apagar no dia seguinte. Rir, cair, levantar, olhar pro carinha da mesa do lado. Mas não, já faz um tempo que seu dia começa às 5h e não tem folga. De segunda a segunda, sem dó. Se não preenche as horas com os cuidados de bebê em casa, preenche com algo que a longo prazo vai garantir o futuro do filho.

O problema não é o filho. Ele é uma graça, tem personalidade própria desde pequeno. Você adora ver ele crescer. Você ganhou mais responsabilidade, aprendeu a cuidar melhor de si. Você fica olhando essa coisinha dormir e pensando “puta que pariu, como eu amo esse serzinho”, sem o perdão da expressão. O problema não é não poder transar com uns caras quaisquer, mesmo que transar ainda seja uma necessidade. Você nem gostava tanto assim de se arrumar toda por essas fodidas de bar, em que a garantia nem era de foda boa. O problema não é você ser mãe e, por conta disso, muitos dos caras se afastarem. Você sabe que eles são babacas. O problema sequer é você ser mãe, você pode até gostar.

O problema tá no fato de que a responsabilidade foi jogada toda nas suas costas. E você não sabe quem começou a ditar essas regras todas que anda seguindo, como se houvesse uma arma de ameaça na cabeça. Ninguém sabe quem é o dono das regras, mas todo mundo sabe que elas existem. E você se mantém seguindo, as pessoas vão verificando se tá tudo sendo cumprido. E a gente segue assim carregando um fardo enorme, sem entender muito bem porque, o que, de que, aonde.

E, pior: o pai do seu filho tá lá, né? Tem dias que ele dorme muito tarde porque ficou vendo netflix, então ele dá uma atrasadinha no compromisso do dia seguinte, ou cancela, é de boa. Ele consegue sair com os amigos até nos dias de semana, até porque ele merece né? trabalhou o dia todo, tá cansado, uma cervejinha é recompensa. Ele tá até namorando, tem lugar de boa pra transar, sem interrupções, sem se preocupar com quem vai levar em casa. A menina até acha fofo o fato dele ter um filho. Até porque ele é o maior paizão né? Teve um dia que você ficou doente e ele foi lá e levou o filho na escola, porque você não conseguia levantar da cama. Pai que leva o filho na escola é tão bonitinho né?

Aí eles postam foto no facebook, o combo felicidade. O pai, a namorada e seu filho. E se você reclama é porque tem ciúmes, obviamente você ainda deve ser apaixonada por ele. Até porque se não fosse você nem encheria tanto o saco, brigaria tanto ou daria tanta bronca, né, amiga? Na verdade você se estressa muito a toa, essa nova namorada dele é bem mais legal. Ela não é mãe, né? Tá de boa na vida.

E frente a toda essa injustiça, não tem grito que você possa dar que faça a sociedade prover mudanças nesse cenário. Você segue e resiste pra mostrar que é forte, mas às vezes sucumbe. Não aguenta, não dá conta, sabe? Tem dia mais fácil, tem dia que é massacrante. Tem hora que você tá tranquila, tem hora que quer largar tudo e ir embora. E você sabe que isso seria diminuído se o lado de lá assumisse a responsabilidade que lhe cabe.

Ou se a sociedade assumisse que filho é, na verdade, feito por duas pessoas, independente das condições anteriores ao nascimento dele. Esteja casada, solteira, tenha tido uma relação, a transa de uma noite só, seja amigo, inimigo, quer ele queira ou não; qualquer caso com a união de duas pessoas, resultando um filho.

O filho é responsabilidade do pai e da mãe. E uma criança é responsabilidade da sociedade inteira. Os dois precisam trabalhar, cuidar, ter perdas e ganhos, sacrifícios e conquistas. E a sociedade precisa parar de lavar as mãos quando algo dá errado e assumir que não importa o trabalho que a mãe faça dentro de casa, a socialização fora vai acontecer do mesmo jeito.

Mas você sabe…no fundo você sabe que pode discutir tudo isso, escrever um textão e jogar na cara de todo mundo que constitui a sociedade. E que muita gente vai reconhecer que realmente é foda, mas ninguém vai mover um palito. Nem sequer fazer o papel de falar pro pai da criança a real, imagina só as coisas que envolvem ações ainda mais profundas.

E você sabe que, no fim, cê não tem muito tempo pra ficar discutindo isso não. Cê precisa levantar, colocar comida no fogo pra criança e inventar qualquer coisa que entretenha. Afinal, é final de semana né? você ainda tem mil coisas pra fazer.

E segue sentindo falta daquilo que sente constantemente sendo roubado de você: a liberdade de ser quem é e o direito de não assumir mais do que você aguenta, porque alguém não assumiu a parte que lhe cabia.

Mas segue, viu? Segue. Segue que você é uma mulher incrível e a sua resistência significa muita coisa.

Karoline Siqueira

Written by

Psicóloga, mãe, escritora. Espiritualidade, autoconhecimento, autorregulação emocional e a maternidade real são meus pilares.

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