A paródia “bang” e as problemáticas de reforçar um estigma feminino falso (e ruim).

“Olhá lá, lá vem a feminista problematizar…”

E vem mesmo. E vem vindo enquanto a gente não parar de rir de coisas que não podem provocar risadas. A problematização vem pra promover reflexões sobre como a gente trata as nossas mulheres. Sobre os diversos problemas advindos do machismo. E bora abrir a cabeça e desconstruir comigo?

Não sei se todo mundo chegou a ver a paródia que o canal 5inco Minutos fez da música Bang, da Anitta. Se não viu corre lá no youtube, o vídeo da vlogger tá tendo mais acessos do que o original da cantora. O que já reflete bem as coisas que nossa cultura valoriza, né?

“Qual o problema da paródia, karol?” O problema são as coisas das quais a gente anda dando risada. Existe essa cultura muito grande de, como o vídeo faz, reforçar estigmas ruins que a mulher carrega - que foram dados pela cultura machista. E que a própria mulher aprendeu a reproduzir, criando padrões IMPOSSÍVEIS de seguir, mas que se transformam em prisões de diferentes origens, tanto pra mulher que quer alcançar aquilo e se compara com outras, quanto pra que quer ser diferente e se sente mal, achando que não se identifica com as demais mulheres do mundo -. É basicamente como se as nossas únicas dificuldades girassem em torno de se preocupar o tempo inteiro com “ajustar” a própria imagem.

Além disso, reforça também uma ideia que a gente vem lutando pra desconstruir. A ideia de que a mulher é “louca”, a ideia de competição entre as mulheres. Competição em que o valorizado é sempre o homem (o namorado que tem duas atrás dele). E a mulher além de ser inimiga e culpabilizada por tudo (cá entre nós, se ela dá em cima do cara e continua dando, ele não tá colocando nenhum tipo de limite né? e o comprometido da história é ele), também tem seus sentimentos ignorados. Um pouco mais da história do gaslighting (se você não sabe o que é, recomendo pesquisar). Já no começo do vídeo a gente tem a prova disso, nas primeiras frases. A miga é “louca” e fala mal dela, a miga é um “tipo de gentinha que ela não gosta”.

Essa imagem que a letra da paródia reforça não é nova, a gente tá acostumada com isso. O único problema é esse. Não dá pra se acostumar, muito menos continuar rindo. Na onda feminista que estamos vivendo nesse maravilhoso ano de 2015 (maravilhoso nesse sentido), é impossível não termos recursos pra refletir a respeito do problema de perpetuar essa imagem e cultura. Mas ainda assim o número de pessoas que estão dando risada do conteúdo do vídeo é ENORME, ultrapassando a versão original.

Então quer dizer que uma letra vem nos dizer que: os nossos maiores problemas envolvem estar com o rímel perfeito, o blush certo, lidar com a tpm, “arrasar” (chamando mais atenção do que as demais mulheres), manter a magreza, se depilar, fazer progressiva. Que as nossas maiores atividades são reparar nas demais mulheres, se sobressair a elas, falar mal umas das outras, “proteger” nossos namorados. Que somos surtadas, loucas e piramos mesmo (o que desmerece nossos sentimentos mais uma vez, né? voltando ao gaslighting). Ou seja: somos objetos só preocupados com estar/parecer melhor pra quem? Pros homens. E a gente dá risada? Isso só demonstra que ainda temos muito mais pra lutar contra.

Não, não é engraçado. E parou de ser há tempos. É só pra gente ver como nossa luta tem sentido. E como essa problematização de tudo é BASTANTE necessária. E pra ver que uma brincadeira não é só uma brincadeira, é preciso pensar muito bem no conteúdo dela antes de qualquer coisa. Isso aqui não é pra ficarmos contra a Kéfera (autora da paródia), ela reproduz discursos que aprende desde sempre…e confia. Na minha visão pessoal ela, por ser influente, deveria SIM refletir mais sobre as coisas que produz com certa responsabilidade, mas não dá pra retaliar ela de jeito nenhum. Essa texto é mais na tentativa de provocar reflexões a respeito dos acessos que o vídeo tomou e da proporção dessa nossa “risada”. E pra parar de rir. Porque pra reforçar: não, não é engraçado.

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