As dores de quando me sou

Karoline Siqueira
Aug 9, 2017 · 2 min read

É que quando decido me ser, profunda e verdadeiramente, não suporto os ecos das dores daquilo que resulto em mim mesmo.

Não suporto o mar de hipocrisias que me jogam na cara atitudes que já cheguei a condenar e, em condições diferentes, também as tive.

Não suporto perceber que, enfim, a solidão é uma certeza. Ela vem do poder que carrega “viver a sua própria vida e morrer a própria morte”, como dizia o Sacks.

Não aguento segurar o mar de sentimentos nos quais me resta morar. E dentro de mim que existe um ser perverso que insiste em se julgar, argumentando que os outros estão julgando igual ou pior, quando é ele mesmo que carrega as 7 pedras e as joga sem piedade.

As dores de me ser que insistem em me contar a minha própria história, repetindo o que poderia ter sido feito de maneira diferente, escancarando minhas faltas.

Quando me sou, me dói.
Mas eu gosto de me ser.
No final, eu procuro me ser.

É também quando me sou que sei que a responsabilidade me cabe a tudo que já vivi e que viverei. Quando me sou, sei que cabe a mim interpretar e vestir a camisa daquilo que vivenciei.
Quando me sou, não me resta alternativa a não ser me encarar. E me encarar pode sempre ser a minha salvação.

Porque, para além de toda a minha vida e tudo que ainda poderei alcançar, só me resta me ser. E cada vez mais me tornar alguém ainda mais próximo de mim.

É dentro de todo pedaço de si mesmo que moram as inúmeras coisas que a gente não conhece, não acessa, não desenvolve. Resta apenas me ser, para saber daquilo que gosto, daquilo que não suporto, daquilo que não aguento e daquilo que preciso. Daquilo que posso, daquilo que me limita, daquilo que me leva além, daquilo que me transborda, daquilo que é minha missão de vida.

Resta, afinal, apenas me ser. Porque é me sendo que eu sinto como é a experiência de estar viva e de criar uma realidade, sendo eu, puramente eu. E expressando tudo aquilo que existe dentro de mim.

Transformo, então, todas as dores de me ser em amor. Transmuto a energia de dor e a ressignifico, para mim, para o mundo. É essa a minha missão de vida. É isso que comecei a fazer, a partir do momento em que assumi que me sou.

Karoline Siqueira

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Psicóloga, mãe, escritora. Espiritualidade, autoconhecimento, autorregulação emocional e a maternidade real são meus pilares.