Faca de dois gumes

Então eu levantei desesperada a procura do celular. Quase que não lembrei da impossibilidade de te ligar e contar que o pesadelo atingira em cheio na caixinha dos maiores medos, dessa vez. Ao olhar pra tela, a luz que me cegava, e eu esquecera que nas últimas 4 horas tinha os olhos fechados para qualquer sinal de luz. Ou talvez nos últimos 2 anos.

Fazia 2 anos que eu me via presa a todas as fantasias que eu mesma havia criado. Sobre nós, era sobre nós. Pensava em todas as formas de te falar algo que nunca falei e que nem poderia. Lido com a frustração das histórias que eu mesma criei. E esse pesadelo agora dói. Sei e reconheço que sempre tive que lidar com ele sozinha, mesmo quando tinha a ilusão de que você estava ali para me ouvir e apoiar. Eu tentei te contar todas as histórias, mas você nunca quis escutar, nunca foi sobre mim, foi sempre sobre você.

A solidão dói como uma faca atingindo o peito e ficando ali, presa. Não é como se ela não fizesse mais parte do mundo e mantivesse o sangue estancado, parado. Ela é essa mistura de elemento do mundo e elemento do corpo que habita. Ela mexe com o balançar do vento. E sangra. Continua a sangrar. Ela mexe quando alguém insiste em tocar naquela dor pra saber o que é, num ato de egoísmo que até soa como curiosidade. Pode até ser que não seja egoísmo. Todo mundo sonha em tocar a dor do outro, para só assim se lembrar que a própria dor é um pouco mais fácil de carregar. Mas não é fácil. Não dói em ninguém igual pode doer em você. A faca mexe dentro do seu peito e ali continua mantendo o buraco.

Ai, o buraco. Eu não sei lembrar exatamente quando ele foi criado. Eu só sei que um dia era alguém que não sabia nada sobre dor, ou sabia muito pouco. E de repente…a faca atingiu o peito e ali ficou. Tem horas que é tão fácil esconder a faca; mas uma vez posta, não pode ser retirada. E no fundo a gente sabe que toda e qualquer exposição a partir de agora vai doer um pouco. A condição é deixar doer. É ir devagar, porque o baque de quando se vai de repente e rápido é maior. A dor de um soco naquilo que já está ferido é maior. Se formos então devargazinho, aos poucos, respeitando o espaço e a dor do outro, enxergando que no outro a dor também existe…então assim fica mais fácil.

Eu lembro que sempre me perguntava se seria capaz de me entregar à dor de novo. De me permitir sentir. É que desde você qualquer um que tenta se aproximar da faca pra tentar descobrir como é, eu solto o grito. E então eu espanto. Não sei mais me tornar acessível e deixar alguém morar por um tempo na minha dor. Não sei sequer morar na dor do outro. É que mergulhei tão dentro e profundo da sua que quase não soube me diferenciar. Virei sua dor. E trouxe pra mim a responsabilidade de cuidá-la. Não cuidei mais da minha. A sua preocupação também era cuidar da sua. Mesmo que isso implicasse em deixar a minha de lado ou em usar a minha faca para você se apoiar, mesmo que isso me machucasse. E então infeccionou.

Quando me retirei de dentro da sua dor e a vi ali, um pouquinho mais bem cuidada, olhei de volta pra minha. E já não me reconhecia mais dentro do espaço que a dor ocupava. Eu não sabia mais viver a minha própria dor. E ela estava pior. Precisei cuidar de mim ao longo desses anos. Percebendo então a dor que me habitava. Percebi as fantasias que montei, as enganações que criei, o foco que tive. Me curar doeu mais do que deixar você tocar a dor.

Agora estou assim, protegendo minha faca de tudo e todos que tentam tocá-la. Não deixo ninguém entrar. A solidão pode até doer, mas por vezes o medo de que aconteça de novo me permite continuar dentro daquilo que mais me faz sentir só. A solidão me pega pelo braço e me mostra a realidade: a faca tá ali, ela existe. E ali ela vai continuar. Se eu não tomar cuidado com quem toca a faca, minha dor pode piorar. Se eu não cuidar do machucado, ninguém mais vai conseguir cuidar por mim. Eu posso, então, proteger o acesso à dor. Mas a medida que eu não me deixo acessar, eu também não consigo acesso à dor do outro.

O que somos nós e o que nós estamos aqui fazendo se não aprendendo sobre as dores que nos levam e sobre as dores que levamos? Quem nós somos, senão pessoas que procuram semelhantes naquilo que mais machuca?

Então sigo assim, engatinhando. Aprendendo o autocuidado que não tive ao me jogar tão de cabeça dentro do seu peito. Não posso mais me jogar assim, isso eu sei. Mas vou permitindo aos poucos com que outras pessoas toquem minha dor. Vou reconhecendo, aos poucos, que ela não é nenhum monstro. Que tudo bem se alguém de bem tocá-la. E tudo bem se, por muitas vezes, eu quiser tocar o outro também. É de compartilhamento que são feitos os aprendizados.

Outro dia eu até deixei Fulano tocar a faca. Eu não gritei, não me assustei. Só deixei ele tocar. Não por muito tempo, isso é verdade. Li em seu olhar que ele me achou inacessível. Mas, dessa vez, houve a mínima abertura. Daquilo que, um dia, terei mais coragem de admitir.

Por enquanto, respeito o meu processo. Amar não é para todos. Amar é para poucos. Amar é para quem tem coragem de se expor a dor. Amar é para quem tem coragem de falar sobre a própria dor, de tocar na dor alheia e de se deixar ser tocado. Amar é mostrar que a faca que carrego aqui no peito pode ser semelhante a faca que o outro leva. E então compartilhar cuidados, aceitando que alguém te cuide; mas, antes de tudo, aprendendo a cuidar de si próprio. Só assim, sabendo definir exatamente o que é cuidar ou o que é machucar mais, para que então se deixe levar pelos encantos e cuidados de um outro alguém.

Para o amor é preciso cuidado. No amor moram riscos incalculáveis. Mas só existe uma maneira de vivê-lo: se expor ao risco. Mesmo que você se cuide o máximo que der, só existe uma maneira que garante que sua dor não poderá aumentar: não deixar ninguém tocá-la. E, portanto, não tocar mais ninguém. O buraco ainda tá ali. A dor ainda existe. E, no final, é no risco que mora a possibilidade de compartilhar os segredos e as receitas para a cura.

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