Me olho no espelho

Karoline Siqueira
Aug 9, 2017 · 4 min read

Quando me olho no espelho, tem vezes que sequer penso a respeito da pessoa que mora ali dentro daquele corpo que vejo. Com praticidade e os pés bem fincados ao chão, analiso a roupa, ajeito o cabelo, corrijo os erros corrigíveis e sigo caminho à frente. Sem pensar que, dentro desse olhar, existiu uma dissociação com quem eu realmente era. Em que precisei me proteger de realmente me olhar e sentir quem sou.

Se sentimos constantemente quem somos, tudo aquilo de mais profundo que passa a habitar a superfície joga diretamente na cara o fato de sermos nada além de humanos.

Humana, demasiadamente humana? Me pego sozinha, perdida nesse pensamento, no meu quarto; e muito embora eu tenha pedido ao longo do dia, e com todas as minhas forças, por um momento só meu, em que eu pudesse pensar em mim, fazer por mim, não gosto muito de estar só dessa vez.

Estar só é sempre uma surpresa. Algumas vezes, é exatamente o que nos permite sentir o gosto de ser, existir e poder realizar seus afagos, quereres, compromissos. Outras vezes, nos remete à ideia de solidão, que nos faz pensar quão só vivemos, nos faz lembrar que não temos nada e nem ninguém, que as coisas são inconstantes, que as certezas são ilusões. A solidão carrega mesmo esse espaço pro niilismo.

Mas o niilismo não me agrada, eu vejo o copo meio cheio, até quando ele realmente está meio vazio. Não sei exatamente onde habitar sentimentos que me doem. Uma vez tentei montar uma casinha pra eles. Bonitinha, de madeira, cheia de cômodos que traziam possibilidades para que eles encontrassem algum tipo de conforto por viver. Eu precisava que eles se mantivessem vivos em mim, mas em paz. Foi em vão. Eu sequer pude dominá-los..e eles tomaram conta de quem eu era. A casinha foi abaixo e eles moram no lugar que desejam, desde então.

É preciso aceitar que não domo alguns sentimentos. Muitos dos meus sentimentos, principalmente os ruins, nasceram para ser livres, igual a mim. O gosto por liberdade também é característica essencial das partes que me habitam. É a maneira de não me perder. Sentir, para estar na razão.

Não gosto de perder a razão. Muito menos gosto de coisas que tiram a minha sensação e ilusão de controle. Construí tão bem a ideia de que eu poderia controlar algo, que me parece enlouquecedor não pensar que tenho todo esse poder.

Dentro da minha espiritualidade mora a ideia de que as coisas não são mero acasos. Está tudo conectado. E sempre pensei que a vida é um tanto quanto antagônica em todos os seus significados. O universo se expande, ao mesmo tempo que se atrai a caminho de virar um núcleo só. A gente nasce e o sentido da vida começa logo aí, ao mesmo tempo que tudo caminha para a morte. Tudo carrega em si significados contrários. E assim nos perdemos por entre todas as possibilidades. Então, ao mesmo tempo em que temos poder e responsabilidade de criar o hoje, também não temos controle sobre o que pode acontecer afinal.

E é aí que perdemos as certezas. A vida é, ela é. Eu tento por vezes me repetir esse mantra de pura aceitação, porque entre meus desesperos maiores estão as coisas que não saíram da forma que eu gostaria. Parece extremamente frustrante ter nos braços a vida do jeito que ela é, e não do jeito que planejei.

Mas se a vontade é viver em paz, se faz necessário largar toda essa ilusão de controle, toda essa necessidade de que sejamos o foco, toda essa vontade de que seja do nosso jeito. E deixar ser. Deixa ser, deixa estar..o que parece o conselho mais clichê, talvez seja uma das maiores inteligências sobre o estado das coisas. Se não temos controle que pelo menos tenhamos a paciência de esperar as coisas acontecerem da melhor forma.

Porque a forma que acontece é sim a melhor, só por ser a única que existe em materialidade aqui na nossa frente. Todas as vivências têm muito a nos ensinar. Vira então, nosso papel, procurar os ensinamentos e significados dentro da própria vida.

Imagina então se, ao olhar no espelho, eu parasse para enxergar tudo isso? Perderia um dia ou dois, quando fui procurar apenas por imperfeições no cabelo. São detalhes esses que eu já pensei controlar, meu cabelo. Mas, no fundo no fundo, eu apenas tenho recursos para melhorá-lo..um secador, um penteado novo, lavar novamente. Ainda assim, se ele quiser estar feio, se for para ele ficar feio, se a realidade daquele dia for ele feio..é isso que terei em mãos. E me basta usar os recursos que tenho para achar um equilíbrio entre o que eu gostaria e o que tenho na matéria; e aceitar que ele não estará do jeito que espero, para não me paralisar. Não é meio que assim a vida?

A vida é mais ou menos a gente acordando todo dia e se olhando no espelho.

Karoline Siqueira

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Psicóloga, mãe, escritora. Espiritualidade, autoconhecimento, autorregulação emocional e a maternidade real são meus pilares.