Por enquanto

Eu quase não sentia a dor que fazia. Voltava pra casa e sentia os dias me tomando a liberdade que eu imaginava ter tido. E te via ocupando meu espaço, com todo o desespero gritava por dentro para que você deixasse de habitar o que antes era meu. Até que o que passou a ser meu foi você. Ensinamentos de uma falsa liberdade que queria conquistar. Você era meu. E quando eu finalmente comecei a aproveitar e deixar tudo aquilo me habitar, derrubando as barreiras, comecei a falar sua língua, comecei a entender o que dizer, comecei a sentir em conjunto, terminei de entender sua importância. E você foi. Não soube sentir as dores da sua partida inicialmente, as obrigações vão nos comendo essa mania chata de pensar. Embora isso se deva totalmente ao emocional, sem o pensar a dor não toma forma. Talvez ela fique ali no inconsciente, parada, fazendo a gente sentir o que sequer se entende. Mas ela fica a espera de poder passar para esse mundo das ideias mais concretas. E ela passa. Eu cheguei em casa a noite e você não estava aqui, desesperei atrás das suas coisas, revirei o quarto, as gavetas, as fotos, revirei minha cabeça a procura de você. O que me aflingia era o vazio, aquele vazio que eu já havia sentido. Era saudade, mas antes nenhum vazio nunca tinha me tirado o sentimento de completude. Dessa vez era diferente, eu não era mais completo, eu agora era metade. Te escrevi uma carta e te liguei, mas nada retirava esse vazio de um dia ter que seguir. Os caminhos que trilhamos juntos e o quanto eu aprendi agora me indicavam que o caminho era “em frente”. Quis ter a opção de voltar, mas ela já não mais existia, eu tinha seguido, sem sequer escolher por isso porque era necessário. Virei passarinho e voei porque precisava, uma vez que a vida te joga ribanceira a baixo ou você cai numa sensação de “eternamente” e dá de cara com qualquer barreira, ou você aprende a voar e driblar os obstáculos, mas não se volta a estacionar no mesmo lugar. Era isso que a vida me cobrava: que eu apenas vivesse, mas sem você parecia faltar algo. Eu lembrei de todas as vezes em que aprendemos coisas juntos. Lembrei das brigas carregadas de amor. Lembrei das incoerências que me faziam querer fugir de casa e ao mesmo tempo querer pertencer ao seu lar eternamente. Se me dói, sei que te dói mais ainda. Eu ainda tenho a vida pela frente. Não que você não tenha, mas eu ainda vou construir o que você perdeu com a minha falta e ressignificar o conceito “família”. Você já não. Você já havia construído, eu era sua única construção. Me recuso a acreditar que um dia, pra valer, a vida vai me tirar a oportunidade de ainda correr pros seus braços em qualquer abalo. Quero me abalar eternamente nos possíveis abraços que seu coração pode me dar. Quero me acalentar eternamente nas suas ondas de calor. Me recuso a acreditar que um dia, como de costume, a vida vá cobrar desprendimento total. Enquanto ela não cobra eu choro de meia saudade, mas total vazio. E quando ela cobrar, eu me atrevo a sentir o gosto que a saudade sem presença terá. Por enquanto não…por enquanto eu faço um café pra me lembrar do cheiro da nossa casa, coloco uma roupa quentinha para seguir os conselhos que você me dava, e te ligo de madrugada pra chorar ouvindo seus carinhos. Por enquanto, pego o telefone e ligo, pego o papel e escrevo, porque sei que nossos caminhos não são os mesmos, mas eles ainda se tocam. Por enquanto…