Só pra lembrar do que já esqueci

E no barulho das minhas memórias mais recentes, eu me fecho. Me fecho numa insônia constante, rodeada de pensamentos que aflingem. E entre pensamentos que pulam mais do que qualquer ovelha que eu poderia contar, me viro de costas, e tento esquecer da calma que já não tenho. Me resgardo. E mantenho a esperança de que o dia que segue será um pouco mais pleno. E fecho meus olhos. Mesmo assim os pensamentos me comem, eles me comem pelos ouvidos, pelas pernas, pela pele, pelos poros, pela boca. Boca essa que já conteve seus beijos e hoje já não tem mais nada. Quero contar sobre as coisas que finalmente disse. Quero falar sobre as questões que me enchem de dúvidas. E pedir sua opinião. Quero comentar da nova música que encontrei. E até dar risada daquele moço inconveniente que me mandou uma mensagem meio machista. E depois me xingou porque nada eu queria. E não posso. Droga, os pensamentos de novo ocupados! E eu penso naquela menina que você agora beija, misturo com as fantasias dela em sua cama, lugar ao qual eu já pertenci — e coube muito bem -, misturo com conversas montadas na minha cabeça entre vocês dois. E me encho de desespero. Numa junção com as minhas memórias, me vêm lágrimas. As lágrimas carregam tudo que eu não pude falar e mesmo assim pensei. Com pesar, eu resolvo que é melhor esquecer. Mas eu resolvo que é melhor esquecer todo dia…e não esqueço. O cheiro de fulano me lembra você. A barba de ciclano me lembra você. A camisa do vizinho do amigo do meu tio me lembra a mancha que tinha na sua camiseta. A bebida que um qualquer pede nos bares que eu frequento me lembram o quanto você gostava de cerveja — por mais que ele tenha pedido vodka. E, de novo, eu volto pra casa lembrando. Deito em minha cama, me entrego à insônia, sabendo que no outro dia acordarei com as marcas que você deixou. As marcas de dor, as marcas de amor e as olheiras que preenchem meu rosto e refletem no espelho, para eu me lembrar já no começo do dia o que eu esqueci de esquecer. Só pra lembrar de você.

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