Sem anestesia

Não sei quantos minutos se passaram do momento em que fechei a porta, até então. Mas já fechei tentando me convencer de que eu não teria medo. “Você não vai ter um ataque de ansiedade, nem de pânico. Ataque nenhum. Você não vai chorar de desespero” daquelas piores coisas pra se repetir mentalmente, na tentativa de se convencer o contrário do que você tanto acredita. Mas você não se convence, sua tentativa falida só faz vir ainda mais forte todos os ataques possíveis, porque ela estampa na sua cara quão vulnerável você é.

Eu me senti uma criança perdida nos meus momentos. Ali, repetindo mentalmente algo contra o qual eu não poderia me defender. Chorava e resistia. Estava ali no meio da sala. E de repente eu me lembrei. Me lembrei da criança que fui, que passava dias inteiros sozinha em casa, tentando preencher o vazio, mas que sequer sabia como viver. Era terrível. A sensação era uma daquelas que eu procurava evitar por toda a vida.

De novo ali, comecei a chorar e me desesperei. Sentia o perigo do mundo nas minhas veias. “O mundo é um lugar perigoso”. Por trás de tudo que eu pensasse sempre havia o medo da vulnerabilidade, de não poder me defender. Pensava que alguém poderia entrar em casa. Pensava que ninguém nunca mais iria voltar e que eu teria que viver para sempre sozinha. Pensava nos meus familiares morrendo (como se algo realmente pudesse matar todos ao mesmo tempo e me deixar sozinha ali vivendo). E fui me perdendo dentro dos meus piores medos, medos esses que viviam dentro da minha cabeça e que só eu poderia produzir. O meu pensamento mais aterrorizante talvez fosse o menos provável de ser real “E se todo mundo for fruto da minha imaginação? Coisa que eu criei pra poder me confortar e lidar com o fato de eu ainda ser aquela criança vivendo sozinha na casa? E se eu ainda estiver lá, brincando e sonhando?.

Mas nós ainda somos as crianças vivendo sozinhas dentro de casa. A casa, esses corações tão sentidos que ninguém pode acalmar, que precisam se acalmar sozinhos. Crianças que não sabem lidar com a vida e que carregam os seus maiores medos estampados na cara. Os medos? Estar para sempre sozinhos, não saber lidar, não poder se cuidar, não ter mais ninguém pra dividir e estar sonhando. Mas medo de sonhar? Desse eu nunca vi. É que o medo de sonhar carrega por trás o pavor daquele sonho nunca ser realizável e da realidade ser perversa a ponto de te fazer parar de viver e se prender em sua própria cabeça.

Eu resisti à presença de meus monstros. Lutei contra eles, mas perdi. Fiquei ali chorando e morrendo de medo. O medo era tão real que me impressionava. Mas então eu me entreguei e parei de lutar. E os medos me seguraram a mão. Entramos numa dança conjunta. Isso tudo faz parte de mim. Meus medos, meus monstros: eles existem, eles são parte que nego de mim. Em algum momento todos nós precisamos parar de negar, antes de nos perdemos na fantasia de que só os lados bons existem. Parar de negar dói, mas os lados ruins também sabem dançar muito bem. E conforme a música.

Fui me levando e deixando levar, fui levando eles também. A verdade é que eu não controlava, também não era controlada. Aquilo existia em conjunto. Os lados bons de ser adulto faziam festa com os ruins. Medo, angústia, alegria. Criança, adulto, criança, adulto. Eu era um adulto que carregava dentro de si uma criança. Essa criança dialogava com o adulto o tempo inteiro, a cada ação, a cada novo passo. Vamos por aqui, “será que vamos? eu tenho medo”. É assim “não, não é porque eu não quero”.

O adulto então abraçou a criança, dizendo que dali pra frente eles caminhavam juntos. O adulto ajudaria a criança a viver e, mesmo com medo, a lidar com as coisas da vida, porque ele podia descobrir como. E a criança, por vez, lembraria ao adulto que ele precisa ir com mais calma, apreciar mais, reparar mais, olhar mais, viver mais e não desanimar tão facilmente. A criança precisava dos cuidados do adulto e do olhar de alguém com mais experiência, que soubesse por onde procurar recursos. Já o adulto precisava carregar da criança aquele olhar de esperança de quem pouco apanhou da vida e tanto acredita ser possível.

Viver sem medo é viver anestesiado. Mas a anestesia não nos faz perder apenas a dor, mas absolutamente todos os sentidos. Não sentir nada é estar em coma. Quem tá em coma passa os dias preso dentro da própria cabeça, vivendo aquilo que é exatamente o que dá medo: sozinho, apenas sonhando, mas sem poder realizar nada. Eu quero viver. Sozinha, acompanhada, adulta, criança, com medo ou segura, mas sem anestesia.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.