Diagnóstico de amor

Muitas vezes dessa vida cambaleante, você vai pensar não merecer o amor. E que ele não vai acontecer, porque você é uma pessoa ruim. Ou fez más escolhas. Ou poderia ter feito outras. E isso pode acontecer mesmo. Tem quem nunca vá se deixar abater pelo amor. Por medo que ele seja a loucura; por medo que ele seja o problema ao remédio. Mas nunca vai pensar que é a cura. Por que crer em algo que não posso ver? Até mesmo o antibiótico é microscópico. Mas nunca vi inventarem um instrumento que detectasse o amor. Flecha de Vênus? Reação química? Acontecimento providencial? Tantas explicações… Diversas para aquilo que é inefável. Para aquilo que chega desmantelado, como um relógio sem cuco. Não precisa fazer sentido para que exista. Ele apenas existe. Como uma metáfora descabida e sem conexão. Como linha de impedimento inventada por Galvão. Rima pobre que nem prima pobre. Paupérrima. Ou diria pobrézima?
Vai te fazer dormir quando não devia. Ficar insone quando não lhe apetece. E te entristece… pois é o que melhor te conhece. E como é infeliz se conhecer, não é mesmo? E conhecer o outro… nossa, pior. Mas você não deixa de amar mesmo assim. Com todos os tropeços e desassossegos. Com todas as pieguices e tardes gastas observando o Pão de Açúcar… por um momento, você só quer se resguardar e ser um bondinho que atravessa um ponto a outro… Levando uma cambada de gente e selfies diante das águas negras de Botafogo, como dizia o bruxo. Não tem sentido algum querer a presença de outro ser humano, você se diz. Eu me basto, você se afirma. Mas não se convence… não, você nunca há de se convencer. Porque para haver convencimento, você precisa de plateia. E sem plateia, sem aplausos. Sem plateia, sem pedalinho na lagoa. Sem o outro, sem o ser. Sem o existir. Porque eu só existo, se houver o outro para constatar que eu haver. Eu hei. Eu hei você.