O dia em que eu decidi amar a senhora Belly

Ao contrário do que pode parecer, isso não é uma história sobre um romance entre uma senhora e eu. Isso é uma história de amor de mim comigo mesma.

A senhora “Belly” vem me seguindo há 24 anos aproximadamente, fazendo aniversário na próxima quarta-feira.

Quando eu tinha em torno dos 5, meus pais tinham contratado uma babá para cuidar de mim e dos meus irmãos durante o final de semana. Na segunda-feira, após a aula no Jardim de Infância ou algo parecido, eu estava prestes a correr para os braços de minha mãe na saída da escola quando desmaiei.

Acordei no hospital. Vi meu pai conversando com a enfermeira. Eles olharam para mim com um ar preocupado. Apaguei mais uma vez.

Passei a ter sonhos durante a infância que me recordavam esse episódio. Até então, eu realmente pensava que eram só sonhos. Mas eu tinha quase sete anos quando ouvi meus pais conversarem, pela primeira vez, sobre o assunto:

“Ela só é assim porque ficou internada no hospital”, disse minha mãe, sentada à mesa do café da manhã. E continuou, vendo que eu acabava de adentrar o recinto. “A p*ta daquela babá deixou ela sem comer durante o final de semana e ela ficou internada um mês no hospital tomando soro na veia. Soro engorda!”.

Meus pais estavam falando sobre eu ser uma criança gordinha. Não recordo de ter feito alguma reclamação para eles sobre isso àquela época. Nenhuma criança deixava de brincar comigo por causa disso. Eu nem tinha sete anos, mas parecia que isso do excesso de peso já seria um grande problema, que isso poderia me atrapalhar em algo que a minha mente de criança não poderia compreender.

Vieram as festas de aniversários de amigos, colegas da escola e parentes. Eu ia para o segundo pedaço de bolo bem feliz, quando observava uma tia ou duas comentarem comigo: “não come muito, porque isso engorda”.

Eu observava a minha irmã caçula então. Ela comia muito embora fosse esguia. Comecei a observar que não falavam isso para ela. Só para mim. Então eu percebi que não falavam, justamente, por ela ser esguia e não embora.

Eu nunca deixei de me mexer e sempre fui uma criança muito (cri)ativa. Ingressava em todas as atividades extracurriculares da escola possíveis: desde esportes, teatro até dança. Lembro que sempre me colocavam como “café com leite” nos jogos de criança que envolviam alguma corrida mesmo que eu não o requisitasse.

Eu também tinha notas muito boas nas disciplinas correntes. Além disso, era uma poeta notável. Escrevia sobre o amor em idade tenra — aos 9 ou 10 anos — mesmo sem saber do que se tratava. Talvez eu só já quisesse saber qual seria a sensação por causa dos filmes românticos que passavam na televisão à época — “Lagoa Azul”.

Troquei de escola e fui para o ginásio. Tinha 11 anos quando um colega da minha turma começou a mexer comigo por ser nova ali. Quando eu passava perto da cadeira dele na sala, ele dava um beliscão em uma das minhas nádegas no meio de todo mundo. Como se não bastasse, emendava um “gordinha caliente”. Todos riam.

De algum modo, passei a me sentir atraída por ele e não entendia por que. Logo mais, ele começou a namorar uma menina de duas “séries” mais avançadas e decidi esquecê-lo.

Nas festas durante a pré-adolescência, eu via meus colegas e amigos se interessarem por um tipo específico de garota: magra, não muito alta e de cabelos lisos. Também deveria pertencer à turma do Fundão da sala.

Bem, eu era nerd, bem alta para a média das garotas da minha idade, gordinha e de cabelos ondulados. Apesar de ser desenvolta, simpática e ter sido escolhida como representante de turma na oitava série, ninguém me notava mais do que como uma amiga.

Os únicos dias em que me sentia com alguma auto-estima era quando minha mãe dava dinheiro para eu ir ao salão de beleza alisar os cabelos. De qualquer modo, o fato de ter o cabelo liso não me rendia mais do que alguns elogios das minhas amigas na escola. Consigo lembrar o olhar de compaixão de muitas delas.

Foi, então, que comecei a ter um contato mais íntimo com a senhora Belly. Eu a encarava todos os dias durante meus 13 anos. Eu ia para o espelho e tentava me imaginar mais magra segurando a respiração. Puxava a pele de Belly de modo a esticá-la.

Comecei a comparar as roupas que minha irmã e eu usávamos. Ela era a atleta da escola. Usava algo entre o 34 ou 36, enquanto que eu já usava 42, às vezes, 44.

Eu tinha 14 anos quando, antes de uma aula de Educação Física, o professor disse que teria que fazer uma pesagem dos alunos e medir a altura para constar no caderno da disciplina. Já era uma situação constrangedora, pois eu não era privilegiada com um nome do tipo Wanderléia para ser uma das últimas a serem chamadas e haver poucas pessoas na salinha em que se decorria esse pavoroso cenário.

“Karolline Maria”, chamou o professor.

Eu estava prestes a subir na balança, quando um dos colegas que não ia com a minha cara — eu anotava o nome dele e entregava para o Coordenador por ser representante de classe e ter a obrigação de delatar os alunos bagunceiros:

“Cuidado para não quebrar a balança, Karol”. E riu.

E isso me afetou tanto que, até hoje, cerca de 10 anos depois, eu ainda não esqueço a dor que eu senti quando ele disse aquilo. A minha vontade foi de pegar a cabeça daquele garoto e bater na quina da mesa do professor até fazer sangrar. Mas, graças a uma paciência providencial naquele momento, eu apenas decidi que jamais iria dirigir a palavra àquele garoto mesmo para adverti-lo que o nome dele iria constar na minha “Lista dos Bagunceiros” — coisa que, coincidentemente, passou a acontecer mais vezes (a carne é fraca!). O curioso é que ele veio curtir uma foto minha no Instagram esses dias. Fui olhar o perfil do meu algoz de volta e, a cada foto dele que eu via, eu praguejava mentalmente.

Àquela época, eu chegava da escola e sentia vontade de não existir. Tudo o que eu desejava era que uma quantidade grande de dinheiro caísse do céu e eu pudesse fazer alguma cirurgia que matasse a senhora Belly.

Um dia, não sei quando, a minha mãe passou a comprar “cintas modeladoras” e me forçava a usá-las para qualquer lugar que eu saísse em que se exigisse uma “postura elegante”.

“Mãe, isso me aperta”, eu reclamava. Eu sentia falta de ar. Não conseguia me locomover direito. E quando eu retirava a cinta, ficavam umas marcas horríveis nas costas e na minha barriga. Mas a minha mãe dizia:

“Quem quer ser bonito, tem que sofrer!”.

Mas, mãe: eu não queria ser bonita. Eu só queria ser feliz.

Eu não era pobre nem passava necessidade. Na verdade, eu usava muito bem as oportunidades que tinha. Sempre mantive boas notas na escola e era aluna-referência para os professores. Quando surgia trabalho em grupo, todos os meus colegas queriam que eu fizesse parte, pois eu me apresentava bem e rendia um bom “dez”.

Só que, por dentro, estava tudo uma boa bosta desculpando pelo termo. Então, joguei a minha adolescência em livros, sobretudo, da saga Harry Potter. Essa mulher, J.K. Rowling! Ela tinha um jeito especial de falar com o meu coração. É como se eu realmente pudesse fazer parte de algo mágico, algo que importasse. Era usar a imaginação e eu me tornava colega de uma das bruxas mais inteligentes de seu tempo. Era apaixonada pelo Ronald Weasley. E admirava a bravura e capacidade de raciocínio rápido d’O Menino que Sobreviveu.

Não digo que minha infância e minha adolescência foram sacrificantes ou algo do tipo. Nem julgo o que a minha mãe fazia ou dizia. Eu sabia que não era por maldade.

Só que existem cicatrizes que surgem por feridas tão bobas ou que poderiam ser facilmente evitadas! E isso repercutiu na minha vida adulta de algum modo. Posso ser uma pessoa determinada profissionalmente falando, mas sinto vários momentos de insegurança no que tange a relacionamentos amorosos. Sou uma pessoa ciumenta e sinto que não sou tão bem amada quanto deveria ante o sentimento que despejo no outro. E isso é danoso. Eu fico a me perguntar quando vou conseguir gostar bastante de alguma pessoa sem sentir que ela está fazendo isso como uma espécie de “contraprestação” ou porque não há algo melhor para ela no momento.

Porque é isso que me ocorre na maioria das vezes: coloco a culpa na senhora Belly, apesar de ela ser carregada em um corpo f*da e cheio de energia. Também, cheio de resultados ao longo desses anos todos. Resultados impressionantes para uma mulher e gorda, de quem os outros não costumam esperar muita coisa por fazerem o pré-julgamento de que um corpo como esse implica em uma pessoa de caráter “relaxado” ou “que não se cuida”.

Só que, hoje, resolvi selar um pacto de amor com a senhora Belly. Na altura de completar a nossa 24ª primavera juntas, gostaria de dizer:

Senhora Belly,

Eu amo você como você é. Eu sei que já passei fome por não querer você comigo. Eu sei que já quase desmaiei na rua e tive ataques nervosos porque não poderia ceder à vontade de deixar você crescer. Eu sei que, pelo menos, dois rapazes, que diziam gostar do corpo que te abriga, já apontaram para você e disseram que você deveria sumir. Eu sei que já te apertei ao tirar alguma fotografia, mesmo as de formatura da faculdade, para que você não chamasse mais atenção que o meu belo rosto.

Quando eu tinha 18 anos, eu consegui perder uma boa parte de você, aproximadamente, 3/4 do que você é hoje. Mas pelos motivos e modos errados, tanto que essa fase não durou muito e o que foi um alívio para mim, pois eu estava cansada de me sentir doente e com uma vida infeliz.

Só que agora, quase seis anos depois, escrevo em prantos que eu te aceito. Avantajada ou pequena, eu gosto de pegar em você quando estou nervosa ao fazer uma prova. Eu gosto de mexer na camada de pele próximo à região de Vênus quando quero me distrair. Eu gosto de desenhar uma “carinha” com pincéis coloridos em você para fazer a minha irmã mais nova dar risada. Gosto de me olhar no espelho, todos os dias, e dizer: você é linda, alta, inteligente e magra. Mesmo que não seja magra. Mesmo que não seja bonita. É só um modo de dizer que podemos reinventar o nosso próprio conceito de magreza ou de beleza de modo a fazê-lo se encaixar no nosso padrão de autenticidade.

Você não é melhor ou pior do que nenhuma barriga, Senhora Belly. Você só é diferente e faz parte de mim, que também sou diferente.

Obrigada por me dar seios grandes.

Senhora “Belly” inchada após uma semana recheada por alfajores (Do arquivo pessoal da autora; direitos de imagem reservados).

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