Sendo o fucking Montana da minha vida com meus sapatos de plataforma dourados: Evite a futilidade alheia antes de virar um refém

Tony Montana from “Scarface” movie. Google Images.

Passamos muito tempo olhando para a roupa do outro, o penteado do outro, o aspecto das unhas e outras variantes de uma apresentação visual do corpo de alguém. Lembro, bem pequena, quando uma colega da escola surgia com uma mecha fina e loira na parte frontal da cabeça e já era motivo para ganhar atenção de toda a turma. Se alguém colocava lentes de contato coloridas, ou era “cool” ou diziam que “está parecendo balinha pipper”, um docinho que vendiam na frente do colégio.

Vim aqui, senhores, mostrar uns desassossegos mentais que enfrentei essa semana… Recordo que já fiz muitas maluquices para tentar obedecer a um padrão de comportamento ou estilo. Mesmo só quando eu queria ter meu próprio estilo, eu acabava “fazendo uma cagada” (como diz o carioca médio).

Por que não terminava bem? Porque, fosse na manhã seguinte, ou horas depois, eu percebia que estava preenchendo um vazio existencial só para tentar me diferenciar ou agradar o paladar alheio. Vou tentar convencê-los de que esse “paladar”, aqui representado, não é o mero sentido de poder degustar o sabor de uma comida. Parece que, hoje em dia, você faz parte do cardápio pré-selecionado de um grupo de pessoas.

Se você é o estudante de humanas, você tem que saber fazer miçanga, entender de Jorge Amado, ir naquele “luau” na praia de Copacabana — mesmo sabendo que é perigoso e que seus responsáveis não aprovariam tal gesto, além de estar “antenado” do contexto geo-sócio-histórico e político desse Brasilzão de meu Deus. #maisamorporfavor e #gratidão serão suas hashtag’s obrigatórias das redes sociais.

Se você é o/a cara que escolheu ir para área de Exatas, você é obrigado a viver enfurnado em livros de cálculo e gibis. Você não tem vida social e nem mesmo é obrigado a ter uma namorada ou namorado.

Se você é o/a cara das biológicas, você é quase um deus viking e nórdico (peguei essa referência de um antigo crush) que veio dos confins do interior de São Paulo e Minas para resolver o problema da saúde pública no país. Principais hashtag’s: #auladeanato #serdoutor #mediorgulho

E AI DE VOCÊ se não obedecer esses critérios! Parece que umas coisinhas pequeninhas dentro de nós a que costumamos chamar de orgulho e ego vão ficar te cutucando, dizendo: — Por que você não consegue pertencer a esse grupo? É tão difícil assim postar uma foto fazendo aula de meditação? Pra quê ser diferente? Vai mesmo colocar essa foto de careta no teu perfil?

E você se sujeita. Não sei ainda como explicar isso, mas estamos todos refém de um sentimento de pertença, seja por influência interna ou externa. Se você continua usando o sapatênis dourado que sua mãe te deu carinhosamente e que cumpre a principal função de te permitir andar na rua, ainda assim, haverá um grupo da sua turma de Direito que se sentirá totalmente ofendido por andar como uma pessoa como você: “como que ela usa esse sapato de plataforma para vir à faculdade?” Senhores, uma de minhas colegas insistiu durante uma semana que eu parasse de usar o tal sapato com uma legging preta que eu tinha. Muitas vezes, eu respondi: mas eu gosto! Contudo, isso deve ter parecido insuficiente para a colega. Não a culpo se ela tiver um perfeito senso de moda e queira ajudar, mas, a partir do momento que ela percebeu que eu me sentia bem andando em meu sapato plataforma que minha mãe me deu, por que ela insistiu que eu o tirasse?

E, senhores, eu o tirei. Deixei embalado numa pequena sacola embaixo da minha mesa de escrever, como se ele fosse algo que não me aprouvesse, quando ele me fazia sentir mais perto de casa. Por que os seres humanos são capazes de cometer tais atos “de ajuda”, mas sem perceber que fizeram um pouco da alma de alguém se apagar? Que fizeram alguém ter lágrimas nos olhos até hoje por lembrar de um episódio como esse, em que você se sujeita a se apagar para satisfazer o “fazer parte” de algo?

Todos nós estamos sujeitos a isso, percebi. Tive uma amiga de infância que ela não gostava de se arrumar, de se pintar ou fazer algo no cabelo. Uma série de pessoas que me viam andando com ela, fosse adulto ou criança, dizia: por que ela não dá um jeito naquele cabelo?

EU me sentia mal por ela. E era obrigada a ver uma outra amiga forçando aquela a ser “mais feminina”. Se fosse hoje em dia, a parte mais bonita de mim diria:

VÃO TOMAR NO CU! Por que RAIOS ela é OBRIGADA a SER COMO VOCÊS QUEREM! Deixa ela usar essa piranha de plástico amarela no cabelo! MAS QUE SACO!

Senhores, hoje em dia, eu deixo meus aplausos para quem olha mais para si do que para o outro, não num gesto egoísta de se vangloriar de alguma experiência ou de, apenas, só ter que falar de si, mas me digam: POR QUE JULGAR O OUTRO quando você pode falar algo de BOM sobre ele?

E não é nada no estilo: “nossa, que preto bonito” ou “ela é gorda, mas tem um rosto lindo”. Isso ainda é menosprezar! Isso ainda é julgar! Isso não é piada, não é besteira, não é bobagem.

É o sentimento de alguém que não está sendo respeitado por ser por quem ele é. Assisti Scarface ontem e percebi que muitos estão precisando ter a parte do Tony Montana que não atine em ser o rei do tráfico ou um misógino declarado. O brilhante papel de AL Pacino naquele filme (que, for God’s sake, nem foi nomeado ao Oscars na época!) me fez acordar para um lado de meu que deixei guardado, por muito tempo, como meus sapatos de plataforma dourados: o de ser autêntica comigo mesma.

Sempre estou a forçar gestos, cumprimentos, palavras. O que ganho com isso? Muitas bajulações, gestos, cumprimentos e palavras. Mas sabe o que realmente deixei de lado: a consideração comigo mesma. Preferi considerar muitos mais os outros a mim e isso, senhores, não tem nada de cristão. O cristão olha a outros com humildade, mas não deixa de amar a si.

E amando a si, também vamos ao outro. Afinal, o dedo que se encontra em riste para o seu par, também está acompanhado de outros três que apontam para si e um para cima, para o alto.