Em maio de 2003 meu avô morreu. Eu tinha 12 anos, nunca tinha perdido ninguém. Nunca tinha precisado dar adeus a alguém. Não sabia o que fazer com as pessoas chorando em minha volta. Nenhum amigo da escola ficou sabendo porque ele faleceu numa sexta e foi enterrado no sábado, então na segunda a vida já tinha voltado ao normal. E naquela época, tudo o que eu queria era que a vida voltasse ao normal, então não contei pra ninguém. Eu fui chorar só dois dias depois e chorei quietinha no meu quarto porque achei que aquele sentimento dolorido era só meu e só eu daria conta dele.
Eu lembro que uma semana depois, num domingo, eu não sabia mais o que fazer e o que pensar com aquele sentimento, e eu não queria chorar em casa. Então sai. Peguei a bicicleta do meu irmão e sai pedalando pela rua a fora. E da bicicletinha eu chorei pela cidade inteira. Minhas lágrimas voavam. E cada vez que eu sentia que o choro não ia parar eu acelerava mais.
Naquele dia meu consolo foi a liberdade. Poder ir o mais rápido possível fazia parecer que tudo ia melhorar. Ir além do que era normal fazia parecer que eu não precisava me preocupar com mais nada porque em cima daquela bicicleta era só eu e Deus. E eu podia chorar. Eu queria ficar ali livre e correr o mais rápido possível pra dor nenhuma me acompanhar.
Depois disso essa liberdade passou a ser meu escape. Toda vez que eu queria ficar sozinha, toda vez que o lugar e situação que estava era demais pra eu aguentar e não tinha mais ninguém pra contar ou conversar, toda vez que eu queria fugir da minha vida pra não ter que lidar com certas coisas, toda vez que eu precisava pensar no que fazer, eu saia com a minha bicicleta.
Eu tinha 12 anos quando aprendi a lidar com minhas dores sozinha. Eu tinha 12 anos quando aprendi que algumas dores eu ia ter que lidar sozinha mesmo. E que alguns sentimentos eram só meus. E desde então sempre tentei correr desses sentimentos doloridos, e quando não dava eu literalmente corria deles com a minha bicicleta.
Hoje com 26 anos ainda não sei lidar com alguns sentimentos. Sentimentos doloridos. Confusos. Sentimentos de perda. De culpa. Sentimentos de insegurança. As vezes a única coisa que eu queria era conseguir correr o mais rápido possível pra nada disso me alcançar.
Hoje, eu queria muito ter uma bicicleta.