Eu lembro que quando eu era criança vivia na casa da minha avó. Era a casa mais diferente que eu conhecia apesar de ser tão simples e comum. Ela tinha um telhado como daqueles desenhos infantis com uma ponta no meio, duas janelinhas pra rua e uma entrada lateral. A lateral era um corredor de chão batido e tinha um pé de goiaba folhoso que cobria metade do telhado da casa. O chão do quintal era todo de terra e raiz, buraco de chuva e folhas velhas. Sempre teve mato e trevos no chão. E as vezes a gente passava uma tarde toda procurando um tal trevo de quatro folhas.
Eu nunca fui de acreditar que um objeto fosse capaz de trazer sorte pra alguém. Mas só de saber que eu tinha a chance de achar o que era raro me fazia procurar e procurar. Era um desafio próprio. Eu não me lembro de ter achado. Não lembro de alguém ter achado. Mas lembro como era boa a sensação de estar perto de ter sorte. Perto de ter algo que ia ser só meu.
A gente cresce e muita coisa muda na vida. Não existe mais tardes na casa da vovó, nem banhos de tanque, nem tentativas de subir no pé de goiaba, muito menos trevos espalhados pelo chão. É conta, é trabalho, são os planos, o cansaço, o despertador programado pra daqui a 6 horas. Mas a gente nunca deixa de acreditar que vai encontrar o tal trevo de quatro folhas a qualquer momento em alguma esquina.
Meu aniversário a dez dias atrás não foi a data mais esperada do ano, eu tinha sim parado de acreditar que um dia iria encontrar algum trevo de quatro folhas. Mas eu recebi um presente bem diferente de todos os outros. Eu, que vivo de metáforas conexas e desconexas na cabeça, ouvi um parabéns seguido de um simpático desabafo “a maturidade faz um bem danado” e pareceu que nada fez tanto sentido pra mim quanto essa frase.
Eu nunca tinha parado pra pensar sobre isso até agora, mas acredito que parei de esperar um trevo brilhar em algum canto da vida porque eu finalmente percebi que eu já encontrei vários trevos nesse chão de terra chamado vida. Vários trevos que são tão meus que mais ninguém pode ter, pegar ou sentir.
Hoje eu tenho muitas sortes. Tenho sorte em forma de pais que apesar de todos os pesares continuam fazendo de tudo pra que eu fique bem. E a cada dia que passa eu me vejo neles, vejo eles em mim e isso não é empecilho pra minha construção pessoal, é estimulo, é orgulho, é vontade de ser melhor. E me dão vontade de ficar bem – de todas as formas possíveis - pra eles ficarem bem também.
Tenho sorte em forma de amigos. Sorte de ter poucos mas amigos tão meus que se tornam o suficiente. Eles que, como trevos colhidos na beira do caminho cada um no seu tempo, se transformaram em segurança, em ponto de apoio, espelho, me firmam quando preciso, e me deixam ir quando preciso também mas nunca, nunca, estão longe.
Faz um bem danado ganhar a segurança de que você não precisa convencer mais ninguém a gostar de você, você está segura em si. Você se tem, e isso é realmente uma sorte.
Eu tenho sorte de ter vivido coisas que são só minhas e me fizeram ser só eu. Nada muito especial. Nada muito diferente. Mas eu. Talvez esse foi o trevo mais duro de ser colhido. Eu precisei crescer muito, chorar um pouco, desistir, mas continuar caminhando. Hoje eu sei que tenho a sorte de finalmente saber quem eu sou.
Quando eu era criança, catadora de trevos da sorte, amiga dos pés descalços e inimiga das sonecas da tarde, não sabia de nada que iria passar até hoje. Não sabia o quanto ia ter que cair, crescer, rir, chorar, me despedir, começar outra vez, amadurecer até entender que a sorte não é algo é Alguém. Não sabia que iria conseguir olhar pra vida com todos os perrengues, traumas e frustrações e me sentir bem, firme em quem sou, firme em quem é comigo, firme Naquele que é por mim. Não sabia que ia chegar aos 27 anos com todos os planos iniciais frustrados porém com muito mais do que eu imaginaria ter, e grata por tudo ter dado tão “errado” assim.Sorte é você conseguir olhar pra vida e agradecer a Deus por cada presente que ele já te deu durante todo esse caminho percorrido. Sorte é você saber que já recebeu tanto, mas tanto, que o que vier daqui pra frente é lucro.
E sabe, faz um bem você parar de achar que a sorte vai vir de algum lugar, faz um bem você parar de esperar ela vir e começar a enxergar a tal da sorte já presente.
Maturidade faz mesmo um bem danado.
