ALTA TEMPORADA

O dia da Consciência Negra representa a liberdade promovida através dos Quilombos. Durante todo o mês de novembro há uma pasta nas programações nacionais voltadas às políticas e discussões em torno da população afro-brasileira e sua resistência. Todavia, o ano é constituído por doze meses, onde em todos eles a população que tem seus corpos expostos à violência e sua noção subjetiva de mundo afetada é a negra.
A arte, neste sentido, representa a liberdade promovida pelo Quilombo, pois a partir dela, o corpo ganha novos contornos, podendo assim servir de denúncia e desconforto. A fotografia é aqui apresentada como instrumento que visibiliza o assunto, e ao mesmo tempo, em paralelo, o apaga, o escurece. O escurecimento é a marca da invisibilidade social que o povo negro é vítima, tal atitude implica na inferiorização da raça para, assim, conceder poder à dominação de um povo.
As fotografias marcam a humanidade negada a este povo, colocando-o frente ao debate do qual é ator social e protagonista. O corpo escolhido como representação é o feminino, pois é marcador da resistência dentro da resistência, onde as nuances de luz e sombra, frio e calor conseguem marcar o afeto como fator exponencial de solidão e punitivismo.
A ideia deste trabalho pauta-se na representação e utilização de temas como a solidão afetiva, a invisibilidade do povo negro e a alta visibilidade quando, para tal, demanda-se local social pré-determinado, como acontece com o mês da Consciência Negra; e, por isso, intitula-se como ALTA TEMPORADA, onde os corpos que sempre foram rechaçados da sua humanidade através de estruturas raciais dissimuladas por políticas de embranquecimento e o mito da democracia racial se veem requisitados.
Livio Sansone denominou como “área mole” os espaços em que o negro não constitui empecilho e, em certas ocasiões, pode até gozar de certo prestígio”, espaços como a música popular brasileira, futebol, capoeira e religiões de matriz africana são exemplos. As fotografias da ALTA TEMPORADA representam os prestígios dados ao corpo quando este interessa ao objetivo, logo, a objetificação do negro, quando as luzes se apagam, as fotos perdem a luz, marcando o espaço de desnivelamento, ou seja, a não mais necessidade da presença.
Perceber-se enquanto negro(a) é dimensionar a noção de afeto, desejo e medo em outra perspectiva, a partir da lógica problematizadora dos padrões sociais para assim ir contra às opressão que são infligidas ao indivíduo em toda sua potência e extensão. Perceber-se negro durante a ALTA TEMPORADA é vislumbrar um Quilombo para então resistir ao perverso jogo maniqueísta social. Perceber-se negro é enxergar a complexidade da luz e da sombra e todas as matizes entre elas.

Fotografia: Vitória Barreto

Modelo: Bruna Loundersann

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