FEITOS À IMAGEM E SEMELHANÇA

No documentário O. J. Simpson made in american em um trecho onde um fã aponta e diz: “olha O. J. sentado naquela mesa com vários ‘crioulos’”, um dos jogadores brancos do seu time, que estava também à mesa, lamenta o ocorrido e diz que deve ser horrível ter que ouvir isso. Sorrindo O. J. responde “eu gostei, você ouviu como ele falou? ‘O. J. e vários crioulos, eu não sou negro, eu sou O. J. Simpson’”

A branquitude está sempre à procura de pessoas negras que não se identifiquem enquanto negros. Há sempre uma manta cínica cobrindo seus atos e gestos, querendo nos tornar criaturas feitas à sua imagem e semelhança, para isso, lançam mão de inumeráveis recursos e discursos que colocam seus modos de vida como civilizados, enquanto tudo aquilo que difere, ou melhor, tudo aquilo que não é escalar, é transformado em bárbaro, incivilizado. Portanto, quanto mais branco ou menos negro, um preto for, mais para dentro da casa é levado.

Não é incomum que ao se falar, por exemplo, sobre cotas, estudantes brancos universitários que se “preocupam” — eufemismo para contrários — com os cotistas, me perguntam “o que você acha dessa decisão de implantar cotas para o bacharelado em medicina na UFSB? ”, o que eles esperam, na verdade, não é uma opinião, mas uma concordância. A branquitude adora token, e precisam de negros para isso, e não vamos nos enganar, muitos se prestam ao papel desempenhando muito bem, diga-se de passagem, basta ver o Holiday.

A aproximação ou a assimilação exige muito do negro, retira dele até mesmo a identidade, o que culmina num paradoxo: “se quero ser visto como branco, mas branco não sou e, no entanto, não sou negro, quem sou?” e é neste espaço incógnito que habita as mais perversas estratégias, onde uma vida inteira traindo-se cirurgicamente em pontos nevrálgicos, não fará do negro um branco, tampouco, será aceito por completo, pois ao primeiro deslize, ele estará na linha de frente.

Daí, na ânsia pelo vir a ser, interpreta-se uma personagem: pele negra, máscara branca. O indivíduo torna-se um papel de parede utilizado pela branquitude para disfarçar suas posturas conservadoras, sua violência sutil, seu racismo. Constrói-se a imagem do contrarrevolucionário para estancar o sangue, para tornar mudo o som das balas, para confundir tiroteio com fogos de artifício, pura pirotecnia.

Precisamos nos afastar dessa força que tem uma aparência bastante sedutora. Precisamos entender que quando a branquitude pede “ingenuamente” a opinião de negros, não é por reparação, é para cooptar essa força e transformá-la em pura energia para girar os mesmos e velhos mecanismos. No fundo, ela, a branquitude, pouco se importa conosco, mas se resolvermos nos insurgir… nooooossa. Precisamos entender que há uma estrutura que quer isso de nós, quer que nos odiemos, neguemos a cor das nossas peles, como um modo de dizer “está tudo bem, somos todos humanos, yuppie, agora vamos lutar pela revolução que eles [brancos] planejaram, pois somos humanos, mas eles que pensam por nós”.

Neste sentido, amar é subversivo, sobretudo, nos amar. Não esse amor empoderado em 10X com juros no cartão de crédito, mas o amor maciço que está para além do consumo como forma de se reafirmar enquanto sujeitos. Do amor que não cabe no sentimento de vitimização que nos coloca enquanto passivos, tampouco, neste amor pelo colonizador, que nos faz marionetes. Mas o amor da luta, da irmandade, construtor de laços de resistência. O amor que chega à solidariedade das periferias, o amor pelo direito, não o seu ou o meu, mas o nosso.

Só verdadeiramente nos emanciparemos quando isso atingir a todos. Recentemente, para exemplificar, aconteceram dois casos polêmicos: de um lado, a jornalista e âncora Rachel Sheherazade, com suas opiniões polêmicas e o modo fascista de contribuir para o extermínio da população jovem e negra, a disseminação do ódio e do horror. Mas acontece que por ser mulher, Raquel sofreu um ato machista em plena rede aberta de televisão. Todo machismo deve ser criticado, sendo assim, a militância tratou de defendê-la, mesmo se tratando de uma pessoa polêmica.

Do outro lado, a cantora e compositora Karol Conká, que assinou um contrato que permitia a uma marca de bolsas caras usar usa imagem como garota propaganda. Acontece que Conká que fez sua carreira por compor e cantar músicas “empoderadoras” vinculou sua imagem à uma bolsa que dificilmente um fã poderia comprar. Neste caso, a punição logo veio, não pouparam palavrões, críticas e xingamentos dos mais diversos. A mesma solidariedade prestada à Rachel parece não servir à Karol, ainda que ambas sejam mulheres e ambas estejam inseridas em uma classe média ou média alta.

É, neste sentido, que a raça/etnia constitui um dos vetores mais fortes dentro das estruturas sociais, não é questão de hierarquizar opressão, mas de compreendê-las como forças atravessadoras de subjetividades. Há no discurso de ódio, algo que está para além. O negro é punido tanto por ser negro e se identificar enquanto tal, ou seja, tornar sua cor uma política de resistência, quanto por não se identificar.

O. J. Simpson fora caçado ao primeiro deslize, mesmo tento sido a personagem feita à semelhança da branquitude. Karol fora caçada e nem mesmo deslizou. Ambos não foram alcançados pela solidariedade que é dada gratuitamente aos brancos o tempo inteiro, quando voltada aos negros, não é mais solidariedade, é dívida. Pessoas brancas, via de regra, tendem a achar que quando “lutam” conosco, estão fazendo um favor a nós e, tão logo, conseguem algum avanço, se acham no direito de nos cobrar ou nos exigir a adoração.

Contudo, cabem críticas em ambos os casos? Sim. Há o vetor classe que atravessa tanto o preto que se vê em ascensão, quanto àquele que deseja ascender. Mas para se criticar é preciso realmente se dispor a analisar uma estrutura e verificar que a classe intersecciona com todas as possibilidades de ser e estar no mundo, enquanto isso não ocorrer, a crítica relativa segue sendo racista e preciso tachar pessoas racistas como RACISTAS.