Menina Nina

“Ontem eu voltei pra casa ouvindo Ensaio Sobre Ela, e me peguei sentado no banco da estação de trem em Pinheiros, sozinho, no mesmo lugar que nos despedimos pela última vez.
e foi bom, e doeu, mas foi bom. 
Sexta passada eu chorei no chuveiro, mas não conte à ninguém, é que vez ou outra bate uma saudade, você sabe como eu sou, o mundo pesa no peito, e a chuva que bate na janela de madrugada só me desanima ainda mais. Tu sempre disse que eu tinha muito de ti em mim, to com medo de te perder pelos cantos vazios do apartamento. 
Às vezes eu coloco pra tocar sua última mensagem na secretaria eletrônica, dizendo que ia se atrasar pro almoço porque perdeu a hora de novo, bisbilhotando livros naquele sebo antigo da 23. Minha escrivaninha do lado da cama ainda está suja das suas tintas, e minhas gavetas estão lotadas de sua poesia. 
Tu passou pela minha vida tão rápido quanto dois trens que se cruzam indo em direções opostas, mas foi sincero, não foi ? Eu vi, senti, vivi e tu me mostrou o mundo no profundo mais puro do teu caos. 
Nina, sexta passada eu chorei no chuveiro, mas não conte à ninguém, tá bem ? fui lá esvaziar mais uma gaveta, só pra guardar um pouco mais de ti em mim. A porta ainda está aberta, e meu peito também.”