Como a linguagem religiosa me afasta dos demais, parte 1

Barry McGee, New York (Farzad Owrang)

Ao entrar no ônibus hoje, mas isso ocorre quase todos os dias, alguém de repente subiu e começou um discurso, com intenção de vender um produto, usando as seguintes palavras “bom dia povo de Deus”. O que muda, por vezes, é como a frase inicia ou finda, mas sempre temos uma referência à Deus, ao Ser externo à nós, transcendente e totalmente diferente do que somos.

Diariamente somos cercados pela linguagem religiosa. É curioso observar que mesmo pessoas que não confessam uma fé pública em Cristo fazem uso dessas palavras.

Contudo, este não é o nosso objeto agora.

Quero me ater ao que vemos nos ônibus, e em outros lugares-comuns do dia, nas nossas relações pessoais e até profissionais.

A minha pergunta é por quê usamos a linguagem religiosa, que se refere à um Deus real e transcendente, nessas ocasiões?

Por quê?

A primeira ideia que vem à minha mente é sobre a compreensão dos ouvintes, relacionado ao meu objetivo com aquelas palavras. As vezes parece que nós mesmos não sabemos o objetivo pelo qual tais palavras se encontram no discurso, nós apenas as repetimos, como uma miscelânea de verbos, conjunções e adjetivos que vão “soar bem”, visto que está sendo dito automaticamente.

E quando falamos dessa realidade, um medo me vem de repente. 
Medo de que meu linguajar não está comunicando e engajando àquele que me ouve, e mais, que na verdade está me distanciando dele. Criando uma linha que nos separa, os santos e os pecadores.

O exemplo do ônibus foi a deixa pra entrarmos no que nomearei aqui de: Separação pelo Dialeto Religioso.

Embora eu assuma que nos apropriamos de palavras e expressões específicas de determinado grupo social, em muitos casos para ter aceitação, e isso fará parte do desenvolvimento da vida em comunidade e é válido. Como cristão eu deveria dialogar com todos de forma clara, ao invés de tentar me enclausurar num determinado grupo, o que será expresso aos outros quando conversamos.

Nossas palavras nos separam, e separam muito. Nos distanciam de um dos significados e objetivos do cristianismo, que é comunicar a verdade sobre o que Jesus fez à dois mil anos atrás.

Jesus é enfático em sua oração sacerdotal, registrada no evangelho de João, capitulo 17, quando faz um pedido ao Pai dizendo:

“Não peço que os tire do mundo, mas que os protejas do malígno.” João 17:15 (NVT)

Jesus sabia que nós chegaríamos onde chegamos, um lugar onde cristãos iriam se fechar em círculos e clubes, ou por medo de perseguição ou por alguma interpretação errônea dos ensinos das Escrituras que relacionam a Igreja e o mundo.

E nesse lugar não estamos sendo quem fomos chamados para ser.

Jesus continua:

“Assim como tu me enviastes ao mundo, eu os envio ao mundo.” João 17:18 (NVT)

Este verso é usado muitas vezes como base para uma vida de evangelismo mais escancarada — se assim posso colocar — , e eu concordo totalmente, contudo, também acredito que neste versículo Jesus está comunicando que os discípulos tem uma missão de estar no kosmos (palavra grega para mundo usada no verso) e engajá-lo, se relacionar, participar junto.

Kosmos

Kosmos é também usado no sermão do monte, quando Jesus diz que seus discípulos são a luz do kosmos (mundo)(Mateus 5:14), e nessa ocasião o que vem em seguida é que essa luz iluminará o kosmos.

O rei do universo, Jesus, está ensinando seus discípulos que eles continuarão no mundo, que serão enviados ao mundo e que iluminarão o mundo.

Portanto não faz sentido usarmos um dialeto religioso quando conversamos com pessoas que não conhecem a Jesus, que não fazem parte de uma comunidade religiosa, ou porque queremos mostrar nossa espiritualidade — o que não vai fazer muito sentido para o ouvinte — , ou porque estou sinalizando para ele (mesmo inconscientemente) que nós não fazemos parte do mesmo grupo e estou colocando claramente uma barreira na relação.


O que fazer?

Parar de usar linguagem religiosa nas conversas não é a solução final, mas é um começo, pois se queremos ser missionais é necessário dialogar de forma clara e compreensível com a sociedade e cultura à nossa volta.

Engajar as dificuldades e dores do ouvinte.

Mostrar que não sou parte de um seleto grupo do qual o outro não faz parte e dificilmente fará.

Parar de assustar as pessoas em meio aos diálogos com frases que estão fora do seu contexto diário.

Perceber em que contexto estou para entender as pessoas e como elas se comunicam.

E amigo, entenda que essa não é a última palavra sobre o assunto, mas é senão um desejo do próprio escritor engajar mais nas conversas pela cidade.

Nos vemos na parte 2.

Até breve.