a formiga é subterfúgio

eu espero a próxima formiga que sairá do formigueiro e olho por ela. cuido para que chegue no vão entre a parede da cozinha e o azulejo decorado com flores azuis. fazendo isso eu me redimo do peso que a semana me impõe. já não tenho coragem de te olhar nos olhos. eu durmo pouco pois os sonhos voltaram. são sempre os mesmos dois sonhos, desde os meus cinco, seis anos, tu sabe.

aquele do avião que cai no pátio da minha casa — sinto o cheiro de combustível arder nas narinas e o calor do fogo lambendo meus cabelos — e, naquele inferno na terra, peço para o meu pai limpar os corpos dos passageiros mortos para que eu possa brincar com as peças da aeronave. o outro é nada mais que a rememoração da vez que, quando em criança, perdi os dentes da frente ao cair de bicicleta e bater com a boca contra o tanque de pedra onde minha avó lavava roupas. no sonho, os dentes me fogem e eu choro pois enquanto os cato pelo chão, eles dissolvem-se, sublimam-se, esfarinham-se.

a bem da verdade, a formiga é subterfúgio. eu aprendi a rezar, eu oro por ti, eu olho por ti. me preocupo que teus dentes não dissolvam-se e que teu coração não descompasse. tenho medo que teus cabelos caiam como os meus. me apavora que as mentiras percam efeito e eu precise, enfim, sair de casa. mas, vem cá, me desestrutura, me abraça no meio da rua. me anota teu endereço que eu anseio deletar a minha geografia da tua.

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