III

Hoje sonhei que morria; não era agora nem era dores. Morria remoendo o entendimento de que não mais poderia acordar. E acordei. Ao meu lado, repousa um corpo que não o meu. Ele me conta que sonhou pessoas que apontavam e ele, então, se transformava em pó. Quase como uma delícia imaginada; um gemido seco de frequência. E então o pó.

Tenho nutrido o pavor de estar em minha presença. A solidão é um peso marmóreo posto que me desagrego e raramente me confronto. Faço-me líquido. E me culpo inalienavelmente porque cafés esfriam desacorçoados, numa mesa intangível em rodoviárias etéreas, custando mais que quatro reais; fora o pãozinho. Ninguém me convida para quebrar a ilusão. Hoje o mundo foi branco, de uma cerração esparsa na qual me diluo sem querer. Cerração atávica, mimetizadora de entes vapóreos. Estaria meu vô? Bueiros bocejam.

O café foi água e tintura; o sono gelado e leve como brisa de Agosto. Quando pisei no chão, o Universo se retraiu e eu sorri por fora. Não mergulho em quaisquer significações embora esteja nelas sem intervalo. Minha vizinha, pelo cimento da parede, argumenta que era aberta para diálogos, mas todos somos substituíveis. Café ruim, mas estava em promoção. Café ruim mas tomaria outro.


Um quarto é um sistema, que eu, em inocência idiossincrática, em desalinho ontológico, desequilibro. Eles me sussurram que sempre souberam disso, que eu fraquejava e desesperava quando minha boca secava e meu peito ecoava algo de fora de mim. “Derrotamos ele”, o desequilíbrio na voz e o barulho da chuva que nem de longe é suficiente. Tenho paredes que me querem vivo, me falta fôlego para descansar os olhos. A língua percorre os lábios áridos e inúteis e desaprende seu lugar. Todos os olhos que me assistem carregam um quê descompasso, de fúria espessa, que reverberam ao limite da surdez e esbarram nesse corpo podre, pedaço mínimo de carne e pulsações sanguíneas solto e preso no mundo.

Olho para o relógio do computador, o café silencia. O relógio me conta dez para as seis — um pedaço enevoado de realidade que me nega os espaços do quarto e reconstrói as histórias das lembranças das histórias de outras horas em que ninguém sabia meu rosto ou o espectro de frequências que compõem a minha voz. Dez para as seis e então o pó.

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