Game of Thrones, um Lost ao contrário

Kauli Mizuguti
Aug 28, 2017 · 5 min read

Contém spoilers caso você ainda não tenha assistido o episódio 7 da sétima temporada, “The Dragon and the Wolf”

Em 2007, a internet estava em polvorosa. Graças à greve dos roteiristas uma das séries preferidas de geral tinha sido adiada: a quarta temporada de Lost estrearia apenas no começo de 2008 e não no fim de 2007, como era habitual. E depois do final da terceira (“WE HAVE TO GO BAAACK”), estavam todos numa ansiedade MONSTRA para ver a próxima temporada.

Lost e um dos momentos mais mindblowing da TV

Lost foi uma série que transformou termos como “escotilha”, “flashback”, “constante”, “números” e deu um novo significado. Ela trouxe uma interatividade nunca antes vista com os fãs, um pouco por causa dos roteiros que eram (aparentemente, até então) bem amarrados e coesos, um muito por causa da internet. E foi justamente a internet que veio abaixo em 2010, depois do último episódio, para criticar aquele que foi um dos mais decepcionantes finais de série até então. Quase todos os fãs que eu conheço falaram: “Que final porcaria, qualquer teoria na internet era melhor que issaí”. E essas pessoas tem razão, se os responsáveis pela série ouvissem os fãs, o final teria sido melhor. Mas não. A ideia dos produtores e roteiristas foi surpreender todo mundo até o último segundo. E, pra isso, eles torceram as regras criadas por eles mesmos para que o final fosse UAU para todo mundo. Resultado: galera indignada e se sentindo enganada.

Mas por que isso aconteceu? Por um erro comum. Os produtores não entenderam o público. As pessoas acompanharam Jack e sua turma por 6 anos não porque era surpreendente ou porque queria ver casais, mas porque era uma série que fazia sentido. Era uma série que deixava uma trama aberta e amarrava dois anos depois, quando tu mal lembrava dela. Damon Lindelof e Carlton Cuse nos venderam uma série que seria coerente com as regras estabelecidas e com a história que estava sendo contada.

E eis que hoje, 10 anos depois de Jack chorar para Kate no aeroporto, terminando a 7ª temporada de Game of Thrones, comecei a ter a sensação de que ela vai ser mais uma série à la Lost, mas o problema será inverso.

Game of Thrones e mais um dos momentos mais mindblowing da TV

Game of Thrones é, sem dúvida, uma série que marcou a história da TV. Sempre que as palavras “bastardos”, “dragões” ou mesmo “anão”, forem pronunciadas, as mentes dos espectadores serão automaticamente transportadas para Westeros. No começo da série, as pessoas foram apresentadas a um mundo novo, com personagens complexos, com uma trama muito bem amarrada, mas que deixava muita coisa no ar e jogava para a audiência começar a resolver por si. Assim como Lost.
Porém, diferente de Lost, o roteiro era mais dinâmico e entregava respostas de pronto. Não existiam grandes mistérios e a trama se desenrolava de forma natural, como uma coisa sendo consequência da outra. Dessa forma, havia uma sequência lógica para as coisas que aconteciam, havia uma jornada clara sendo realizada pelos personagens.

Até a sétima temporada.

No seu sétimo ano, os produtores David Benioff e D. B. Weiss (carinhosamente apelidados de D&D) resolveram que o roteiro tinha que atingir aquilo que os fãs queriam, independente do que foi feito até então. O que resultou em desrespeito à jornada dos personagens (como com o Jaime) e a soluções Deus ex Machina safadíssimas (alô Tio Benjen).

Infelizmente, esse texto não é livre de Jonerys

Os fãs querem dragão de gelo cuspindo coisa azul (era gelo aquilo?). Simples! Criamos um plano qualquer que faça com que Daenerys entregue o dragão ao rapaz morto lá. E ela não pode lamentar, senão cria um problema. Faz sentido? Não. Tem a ver com o que foi construído da personagem até aqui? Não. Mas é o que os fãs querem, toca fazer.

Os fãs querem John Snow rei da parada toda. Simples! Ele não pode ser bastardo, então tiramos do nada uma anulação de casamento negando todas as consequências que isso traria para o reino. Mas o Rhaegar não era honrado e se preocupava com o reino apesar de tudo? Sim. E isso não contraria a história contada até aqui? Sim, mas isso que os fãs querem, toca fazer.

Os fãs querem John e Daenerys juntos. Simples! Vamos juntar eles mesmo que ele tenha feito um plano horrível que matou o filho dela, mesmo que ele, que diz amar tanto o norte e seus vassalos, tenha que sair e nunca mais voltar. Mas isso não contraria o que foi construído dos personagens? Sim, mas é o que os fãs querem, toca fazer.

Jaime, que amou, desamou, amou de volta e desamou mais uma vez sem uma explicação decente

Assim como em Lost, os produtores não entenderam o público que possui. Eles não entenderam que os fãs não querem ver casais forçados, não querem ver dragões bem renderizados, nem batalhas épicas (por mais que a Batalha dos Bastardos vá ficar para sempre nas nossas memórias), nem cenas de sexo. Os fãs passaram sete anos vendo Game of Thrones porque eles gostam de roteiros e personagens bem escritos. Nós gostávamos de ver Tyrion se transformando de Lannister a mão da Rainha, de ver Sansa mudar de Sonsa para a única pessoa coerente de Westeros, de ver Cersei saindo de esposa submissa àdestruidora de Septos, de ver Daenerys sair do nada e se tornar a Rainha da Porra Toda. Tudo isso com um roteiro bem amarrado.

Mas não, o que vimos nessa temporada foi um bando de atalhos de roteiro mal feitos para que gerasse suspiros, berros, hashtags, coisas que aconteceriam mesmo que a história fosse pra outro lado. Enquanto em Lost quiseram não ler o que a internet falava e surpreender todo mundo, em Game of Thrones os produtores resolveram ler o que a internet dizia e agradar aos fãs. Contudo, a dupla D&D está cometendo o mesmo erro da dupla Cuse & Lindelof: não entender o que fez a série ser épica.

Mas, apesar de tudo que o roteiro torceu, a sétima temporada teve um último episódio bom. Há espaço para esperança.

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