O Aborto e as Drogas já estão liberadas, mas só pra aquele 1%.

Nos últimos meses, com a epidemia do vírus Zika assolando o Brasil, novamente a discussão sobre o aborto foi levantada, já que algumas pesquisas apontam relação entre a doença e o aumento no número de fetos com microcefalia. Nesse contexto, o Dr. Drauzio Varella (que eu ainda sonho descobrir ser meu avô) deu uma declaração à BBC dizendo, em outras palavras, o que foi destacado no título. Essa é uma constatação tão genial na sua simplicidade que me fez pensar em várias coisas. Mas comecemos pelo aborto.

Segundo relatório da OMS, são realizados cerca de 22 milhões de abortos inseguros no globo por ano, cerca de 60.273 por dia, rendo que cerca de 47.000 mulheres morrem em decorrência desses procedimentos. Já no Brasil, mais de 25% das mulheres já realizaram aborto, sendo que apenas 14% delas tem curso superior e mais da metade delas ficaram internadas em decorrência do aborto clandestino realizado. Tais métodos foram responsáveis por 4% das mortalidades maternas no brasil. Um procedimento realizado com o devido cuidado, custa cerca de R$ 3.000, preço superior à maioria dos salários oferecidos para profissionais de nível médio ou inferior. Ou seja, todas as mulheres que não forem de classe média alta no Brasil e tiverem o desejo (em alguns casos, necessidade) de abortar, vão apelar para formas não seguras. Ou seja, exite aborto no Brasil, mas ele é seguro só pra quem pode pagar (caro), todas as outras mulheres interessadas terão que rodar uma roleta russa e contar com a sorte.

Matéria da Folha sobre o Tomorrowland. Destaque para como as pessoas se sentem bem estando lá.

Essa liberação seletiva é ainda mais evidente se considerarmos o consumo de drogas. Ano passado, houve o evento Tomorrowland, festival de música eletrônica, onde jovens comparecem para curtir a música que gostam, para dançar e muitos acabam consumindo drogas no evento. Ou seja, o Tomorrowland não é muito diferente de um baile funk. Entretanto os dois não recebem o mesmo tratamento.

O Tomorrowland, para a mídia, é um festival maravilhoso e as pessoas que comparecem se sentem felizes, incluídas, e se divertem, mesmo que alguns outros participantes usem drogas ilícitas e algumas mulheres sejam abusadas. Já o baile funk é o inferno, onde as pessoas que comparecem consomem drogas, mulheres são abusadas, mesmo que alguns outros participantes se sintam felizes, incluídos e se divirtam.

Matéria do G1 sobre bailes funk. Destaque para o “alerta”.

Se jogarem “drogas tomorrowland” no google, vocês encontrarão várias matérias mostrando como o festival é maravilhoso apesar do consumo de drogas, vão encontrar matérias genéricas sobre apreensão de drogas feitas pela polícia e imagens de pessoas se divertindo. Caso a pesquisa seja “drogas baile funk”, vão encontrar várias “matérias denúncia” e várias fotos de apreensão de drogas e jovens presos contra a parede. O jovem que consome drogas nos dois lugares está infringindo a lei, o jovem que vende drogas nos dois lugares é traficante, mas aparentemente só um deles é condenável. Por coincidência, assim como no caso do aborto, o aceitável é aquele que é mais caro. O ingresso mais barato para o Tomorrowland era cerca de R$ 399 para um dia, enquanto o baile funk ocorre gratuitamente em alguns lugares na periferia.

À esquerda a notícia do bandido pobre, à direita, do rico.

O mesmo padrão de comportamento é identificado se verificarmos o tratamento dado para pessoas que cometem outros crimes por aqui. Se você é morador de rua, você pode ser preso somente por portar Pinho Sol e Água Sanitária. Caso você seja filho do Eike Batista, já tem umas mordomias a mais, podendo matar um ciclista atropelado e ser absolvido. Já, caso você seja um político, pode ter contas ilegais na Suíça ou mesmo desviar verba de merenda, que tá tudo tranquilo, nem processo legal civil vai ter.

Ou seja, o Brasil não é esse país atrasado, seguidor do MarcoFelicianismo que costumamos propagar, ele é até bem progressista, bem avançado, podemos até dizer que é um lugar bastante permissivo. Mas acontece que, como todas as outras coisas, o progresso não chegou pra todo mundo, só pra quem tinha dinheiro pra pagar.