Fantasmas que respiram

A cada dia que saio para trabalhar, percebo com mais clareza a enorme quantidade de pessoas mortas ao meu redor. Não exatamente mortas. Elas ainda respiram, andam e muitas vezes falam, mas é difícil acreditar que existe vida naquelas cascas que se apertar nos trens da cidade. E não ouso me achar diferente, pelo menos não o tempo todo.

Vejo olhares vazios, suspiros de exaustão e mentes divagando para todos os lugares, menos aquele aonde se encontram naquele exato momento. São sobreviventes da rotina, mas que morrem um pouco cada vez que saem de casa para trabalhar ou resolver os problemas que a vida insiste em nos presentear, como uma professora de matemática que não percebe que não se importa se os alunos estão gostando da aula, só quer que eles aprendam. E, cara professora, eu aprendo tanto contigo que jamais vou poder agradecer o suficiente.

Assim como todos, sou também um escravo da rotina de trabalho e viagem através da cidade e me dou conta de que minha massa cinzenta simplesmente se deixa desligar por alguns momentos enquanto me arrastou por aí tentando ganhar dinheiro para manter o que tenho e buscar por um pouco mais. Não posso reclamar, foi me arrastando por aí que consegui comprar a máquina de onde agora posso escrever sobre morbidez que nos cerca e expressar minhas condolências a todos que nesse momento estão assombrando os bancos dos ônibus ou se preparando para fazê-lo em breve. A nós, que dias melhores venham.

Mas não posso deixar de reparar que nem todos nós sofrem desse estado temporário de desligamento com o mundo dos vivos. São pessoas que conseguem sorrir de manhã quando todos estão odiando a multidão em que são forçadamente inseridos todos os dias, cercados de gente que exala cansaço, tédio e impaciência. Essas pessoas são estranhas, pitorescas, diria até deslocadas, mas existem. E como fazem bem em existir. Alguém precisa ajudar a atmosfera da cidade a ser menos nociva para os outros.

E eu me recordo que já fui assim algumas vezes. Não todos os dias, claro, mas já fui mais sorridente e tinha em mim tanta energia que era olhado como um ser bizarro, mas não me importava. Veja bem, vou arriscar dizer que quase todos nós somos assim, mas, cada um de nós, por motivos individuais, foi perdendo essa força e, hoje em dia, é um cadáver ambulante que perambula pela cidade fazendo os lugares por onde passamos parecerem um grande cemitério, onde os prédios corporativos são nada mais que grandes lápides para os nossos sonhos e força de vontade. É como se cada motorista de ônibus se chamasse Caronte e todas as estações de trem levassem para o submundo. Bem, adivinhe, se você se deixar levar, elas realmente param por lá.

Se há algo bom em trabalhar longe de casa, e eu digo realmente longe, é que a viagem te dá a oportunidade perceber coisas tão óbvias que você chega a.pensar que é um gênio. Nem sempre é o caso, mas estamos tão acostumados a simplesmente existir, mas sem viver de verdade, que ver uma pessoa plenamente satisfeita é esquisito. E ninguém precisa de muito pra fazer isso, minha gente. Basta voltar a tentar realizar suas vontades, um pouco a cada dia.

Se tem uma coisa que todos temos em comum é que todos temos problemas, e eles nunca param de chegar. Mas quando paramos de sofrer e começamos a buscar soluções, tomarmos atitudes e resolvê-los aos poucos, deixamos de ser apenas fantasmas temporários e passamos a ser os estranhos que assustam os fantasmas. Às vezes, até ajudamos alguns deles a voltar a vida naquele momento. Você não precisa que seu coração pare de bater pra se sentir morto, basta parar de viver e começar a só a existir. Pedras existem, pessoas vivem. E, depois de ficar 3h dentro de 2 ônibus para andar um trecho que normalmente não leva nem 40 minutos, e ver pessoas sorrindo, resolvi deixar de ser uma assombração vagando pela cidade e voltar a ser estranho.

É bom estar de volta.

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