
Quero mudar isto que chamo de “eu”
Às vezes, quando estamos insatisfeitos com nós mesmos, com quem nós somos, passamos a desejar uma mudança em nossa vida. Tentamos de várias formas e, digo por experiência própria, acabamos repetindo a mesma forma de agir ou encenamos um comportamento diferente, de maneira um pouco forçada. Em inglês, temos uma expressão interessante: “fake it until you make it”, que poderia ser traduzida mais ou menos como “finja até conseguir”. Essa abordagem pode até funcionar, e se trata de agir de uma maneira diferente da habitual, mesmo que você pareça estar só encenando, porque com o tempo aquilo que é encenação começa a ficar mais natural. Esse caminho, no entanto, pode ser um tanto árduo, e você pode se sentir muito estranho durante o processo. Você pode pensar algo assim: “o que eu estou fazendo? esse não sou eu!”. A sua velha identidade briga para permanecer.
Outra forma de mudar é não tentar. Esse método é totalmente contra-intuitivo, mas tentarei trazer um sentido para o que estou dizendo. Mudar tem mais a ver com se soltar daquilo que você é (ou acha que é) do que tentar se transformar em alguma coisa ou criar uma nova identidade. É como se você desistisse de ser alguma coisa. O engraçado é que você não deixa de ser alguma coisa, pode ser até mesmo que você continue praticamente igual, a diferença é que aquilo que você é deixa de ser um incômodo. Também é possível que você mude e quase nem perceba, porque não está prestando atenção nisso. A sua natureza sempre foi a mudança, só que por um certo instante você deixou de tentar interferir nela e ela se manifesta de maneira mais espontânea.
Meu professor, o Lama Padma Samten, diz que nós não precisamos nos opor às nossas identidades. Tendo confiança em nossa natureza livre, que é base de todas as identidades que podemos manifestar, as identidades se tornam ornamentos dessa natureza. Querer mudar o que somos é o que podemos chamar de transmigração. Estamos insatisfeitos na posição onde estamos e buscamos outra posição. Meu professor sempre compara isso com um pássaro em um galho: em breve ele irá voar para outro galho, ficará insatisfeito de novo e voará para outro, e assim vai. Tentar se fixar em um lugar (uma identidade) será sempre insatisfatório. Por outro lado, se reconhecemos que os “galhos” não são permanentes, podemos simplesmente relaxar um pouco, pousar ali por um tempo, sabendo que logo teremos que voar para outro, mas sem nenhum tipo de aflição por trás desse processo.
